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Informação:
Observatório
da Imprensa - 14/12/2004
Márcio
de Matos Souza (*)
Existe uma discussão
interminável no meio jornalístico e acadêmico
sobre a diferença entre assessoria de imprensa e jornalismo
propriamente dito. Cabe a pergunta: a quem interessa essa litigiosa
demarcação de território? A resposta é
uma só: aos zelosos profissionais de imprensa que, interessados
em capitalizar ao máximo o "verniz ético"
do jornalismo, objetivam dissociá-lo da tarefa inglória
dos assessores de imprensa, profissionais imbricados com a política
(interesses?) da empresa na qual trabalham.
Assessoria de imprensa seria,
por fim, uma atividade legítima, porém nada parecida
com o verdadeiro – e nobre – fazer jornalístico.
Porém, se não pode ser designado como jornalista,
quem poderia exercer o papel de assessor de imprensa? "Não
sabe nem fazer release..."; "precisa conhecer a técnica
da redação jornalística e os macetes do
relacionamento com a imprensa".
Não se ouve nos círculos
jornalísticos nenhuma menção ao relações-públicas.
Para resolver o impasse, sugere-se criar a "profissão"
de assessor de imprensa. Se esta idéia vingar, terá
início mais um interminável processo burocrático
para formalizar uma "profissão" na qual, reconhecidamente,
tanto jornalistas quanto relações-públicas
(e também outros profissionais) labutam há anos.
No fundo, a distinção
jornalismo/assessoria revela uma certa soberba, segundo o princípio
da virtude da "mídia cão-de-guarda".
Sobre este principio ergue-se a bandeira ética de jornais
como a Folha de S.Paulo e de seu nobre Conselho Editorial que,
a todo tempo, professam valores como espírito democrático,
respeito ao leitor e independência política. Tudo
muito bonito e digno de apreço, mas bem diferente da
realidade.
A Folha, por exemplo, adotou
a tergiversação deslavada no episódio das
indenizações milionárias concedidas aos
perseguidos do regime militar. Faça o que eu digo, não
o que eu faço. Mas, que princípio de eqüidade
teve o jornal no caso Carlos Heitor Cony? Para bater nos outros,
no governo, na Globo, a Folha nunca transige. Para as contradições
que envolvem seus pares, contudo, adota mesuras ou pura omissão.
Sem
voz dissonante
Aqui se verifica a suposta lógica
das assessorias de imprensa imiscuindo-se no propalado jornalismo
de utilidade pública da Folha. Quem entende? Os áulicos
comentaristas do jornal formam a linha de frente do combate
a "tudo isso que está aí". Sobre o caso
Cony, contudo, não se ouviu um único impropério
de Clóvis Rossi e colegas. Um dos princípios do
jornal não é apurar o contraditório? Por
que, então, como disse o jornalista Luciano Costa neste
Observatório, "não se procurou esclarecer
como nasceram as distorções da lei que deram a
Cony o direito a um valor muitas vezes superior ao concedido,
por exemplo, ao ex-militar Apolônio de Carvalho, cujas
perdas decorrentes de toda uma vida dedicada à luta contra
as ditaduras foram com certeza muito mais relevantes?"
Até mesmo o ponderado
Marcelo Beraba, que reconheceu o comportamento titubeante de
seu jornal, proferiu declarações desastradas sobre
o caso. Uma delas é intrigante: "Dois erros graves
estão sendo perpetrados [na questão das indenizações
milionárias para perseguidos políticos]: um deles
é a personificação da discussão
na figura de Carlos Heitor Cony". Engraçado. Quando
apura um determinado fato, a Folha geralmente elenca os envolvidos
e estabelece ligações com outros personagens (geralmente
mais destacados), mesmo que por puro exercício especulatório.
Ou seja, o jornal conta o milagre, o nome do santo e coloca
supostos coadjuvantes na fogueira em procedimento nem sempre
elogiável.
Quando um de seus proeminentes
editorialistas encabeça a lista dos bem-aventurados herdeiros
da "Viúva", o jornalão propõe
a contestação do fato e a "preservação"
do envolvido. Por que essa distinção? Como é
possível tratar do assunto e não questionar a
cessão de uma quantia tão vultosa a um escritor
bem-sucedido, cujo nome decerto não figura na lista dos
grandes contestadores da ditadura?
Essa história renderia
ainda muito pano para a manga. Na realidade, o episódio
nos remete às discussões da "liberdade da
imprensa", tema notadamente polêmico. O comportamento
da Folha indica apenas a ponta de um profundo e pouco devassado
iceberg. Existem alguns fatores que determinam o modus operandi
da imprensa, entre eles o componente econômico (as empresas
de comunicação privadas dependem do lucro para
sobreviver) e a matriz ético-ideológica dos conglomerados.
Quem entende, por exemplo, a defesa incondicional da Veja, e
de resto de todo o Grupo Abril, da chamada economia de mercado?
Alguém aí já ouviu alguma voz dissonante
do semanário em relação ao livre comércio?
Por que todos articulistas da Veja rezam pelo mesmo credo? O
que seria? Defesa de interesses corporativos ou fé no
pensamento único?
Chamem o assessor de imprensa.
(*)
Relações-públicas, Salvador, BA
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