| Informação:
Comunique-se - 20/12/2004
Mariana
Czekalski (*)
É
indiscutível que a liberdade das comunicações
é fundamental à democracia e garantia de todas
as demais liberdades, mas essa importante conquista é
relativamente recente em nosso país.
O
Brasil parece ter esquecido que viveu durante 20 anos (1964-1985)
a ditadura militar, um período de trevas na nossa trajetória,
que marcou gerações com repressão, torturas
e desaparecimento de pessoas. As vítimas eram caçadas
porque lutavam por liberdade e desafiavam o regime. Os esquadrões
da morte, formados por policiais civis e militares, numa aparente
ação moralizadora eliminavam “inimigos perigosos”
em operações de “limpeza de área”.
Além
do golpe ser apresentado como um processo de transformação
político-social dentro das vias democráticas,
os militares fizeram o possível para legitimá-lo
e fixaram como a única maneira de salvar o país
do “comunismo”, da “nefasta ameaça
vermelha” cujo objetivo era “destruir nossa nacionalidade”.
A ideologia tentava justificar o uso da força contra
os simpatizantes de um modelo considerado de esquerda e contra
os favoráveis a um regime com liberdade de expressão.
Entre
as inúmeras vítimas desse período o jornalista
Vladimir Herzog foi o mártir da resistência aos
militares. Ele viveu, trabalhou e morreu em busca de justiça.
A morte do herói, eslavo de nascimento, mas brasileiro
de coração, entrou para a História e contribuiu
para derrubar o AI5. Após o assassinato de Herzog, houve
uma grande comoção nacional e milhares de jornalistas
se comprometeram a revelar os crimes dos militares contra os
Direitos Humanos. Começou a decadência do autoritarismo.
O povo finalmente percebeu a necessidade de reconquistar a cidadania.
O
peculiar no país do carnaval é que (quase) tudo
acabar em confete! A maioria dos criminosos envolvidos nas brutalidades,
direta e indiretamente, permanece impune perante a Justiça.
A sociedade brasileira atual desconhece a sua própria
trajetória e parece ignorar que importantes personalidades
perderam a própria vida por liberdade e informação
de qualidade. É assustador que crimes como os que mancharam
nosso passado, assim como de outros países latinos, caíram
na banalização.
Viva
a redemocratização brasileira, a Lei de Anistia,
a Campanha das Diretas Já, a Constituição
de 1988! A sonhada democracia, ainda que provinciana, tupiniquim,
problemática, porém que a cada dia está
se consolidando. Vamos valorizar o nosso direito de voto, pois
as eleições dignificam a voz dos excluídos.
O
Brasil tem uma dívida com esses cidadãos: Vladimir
Herzog, o operário Santo Dias da Silva e outros Silvas,
Santos etc. Heróis nacionais que foram condenados pelo
que pensavam, por seus ideais e princípios.
Portanto,
esperamos que as novas gerações brasileiras valorizem
esta conquista e se inspirem para criar um país melhor,
mais igualitário, fraterno e que não se cale diante
das atrocidades.
Podemos
nos apropriar da célebre frase de Marx, usada como título
de um livro de Marshall Berman: Tudo que é sólido
desmancha no ar – adaptando ao triste período vivido
no Brasil. Felizmente os anos de chumbo acabaram e que as cicatrizes
das feridas do passado sejam parâmetro para o presente
e o futuro da nação brasileira.
(*)
Escritora e jornalista
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