| Informação:
Folha de São Paulo - Opinião - 12/12/2004
Uma
série de casos judiciais está testando os limites
da liberdade de imprensa nos EUA, país que se caracterizou
por ter ajudado a consagrar o princípio segundo o qual
a sociedade tem o direito de ser informada sobre as atividades
do governo. Há no momento na América dez casos
de jornalistas que podem ser encarcerados por terem se recusado
a revelar suas fontes. O mais rumoroso deles é o que
envolve o promotor federal Patrick Fitzgerald e os jornalistas
Judith Miller, do "The New York Times", e Matthew
Cooper, da revista "Time".
Fitzgerald
investiga se membros do governo vazaram a identidade de Valerie
Plame como uma espiã da CIA -o que é um crime
nos EUA. A notícia da identidade de Plame saiu na coluna
de Robert Novak, publicada por dezenas de jornais norte-americanos.
Há quem afirme que o vazamento foi uma retaliação
da Casa Branca ao marido da agente, o ex-embaixador Joseph Wilson,
que assinou artigo na "Time" contrário aos
interesses da administração.
A
questão que se coloca é se os jornalistas têm
ou não o direito de proteger suas fontes. A Primeira
Emenda da Constituição dos EUA garante a liberdade
de expressão e de imprensa, mas não desce a detalhes.
Pelo
menos desde o caso Watergate, nos anos 70, vinha-se consolidando
o princípio de que jornalistas não estão
obrigados a revelar em juízo seus informantes, salvo
em casos especiais e só quando todos os outros caminhos
para chegar à informação tivessem sido
esgotados.
Há
dúvidas sobre o trabalho de Fitzgerald. Embora ele não
pertença aos quadros do governo, há quem afirme
que o promotor vem se afastando do fulcro do caso para atacar
a imprensa, especialmente veículos com posições
independentes em relação à Casa Branca.
Não se sabe, por exemplo, se o próprio Novak,
um conservador, foi intimado a depor.
Também
se pode questionar o alcance da proteção dada
aos jornalistas quando se pretende dispensá-los de dizer
tudo o que sabem em juízo. Será que ela não
é exagerada? Aliás, o que são jornalistas?
Pessoas que mantêm páginas noticioso-opinativas
na internet teriam o mesmo direito? São questões
pertinentes para as quais não existem respostas definitivas.
O que parece claro é que, no contexto da retração
nos direitos e garantias fundamentais verificada após
o 11 de Setembro, a imprensa também experimenta dissabores.
Em
parte ela é responsável, pois foram poucos os
órgãos que se levantaram com veemência contra
as medidas de exceção adotadas pelo governo do
presidente George W. Bush. Parece crível, porém,
que a vigorosa democracia americana saberá resistir a
mais esse teste e manterá os mecanismos que garantem
o direito de a sociedade receber informações,
principalmente sobre fatos que o governo preferiria manter ocultos.
Não
por acaso foi Thomas Jefferson, um dos "founding fathers"
(pais fundadores) dos EUA, quem escreveu: "Se me fosse
dado decidir se devemos ter um governo sem jornais, ou jornais
sem um governo, não hesitaria um momento em preferir
a última". Definitivamente, George W. Bush não
é nem uma sombra de Thomas Jefferson.
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