|
Informação:
Observatório
da Imprensa - 28/12/2004
Ricardo
A. Setti
A
rejeição pelo Congresso da absurda e autoritária
criação de um Conselho Federal de Jornalismo para
"orientar, fiscalizar e disciplinar" a atividade dos
jornalistas é uma boa notícia de fim de ano. E
o presidente Lula, que formalmente apresentou o projeto ao Congresso
por solicitação da Federação Nacional
dos Jornalistas (Fenaj), autora da idéia, merece crédito
por haver sido sensível aos clamores que se levantaram
por todo o país contra a iniciativa e ter colaborado
para sepultá-la, via um acordo de líderes partidários.
Ainda
assim, o presidente termina o ano com um saldo negativo em suas
relações com a imprensa. O próprio Lula,
sem que nada lhe tivesse sido perguntado, admitiu-o implicitamente
durante a visita que fez dias atrás ao Comitê de
Imprensa do Palácio do Planalto, cujas instalações
acabam de passar por uma reforma. "Vocês podem ter
certeza", disse o presidente, "de que os erros que
aconteceram na nossa relação neste ano não
acontecerão no ano que vem, que os acertos serão
aprimorados (...)".
A
imprensa, Deus sabe, cometeu erros. Mas a idéia, aqui,
é focar nos do presidente. Nesse sentido, seu grande
"erro" em 2004 foi o mesmo de 2003: ele completa dois
anos de governo sem ter concedido uma única e escassa
entrevista coletiva à imprensa digna desse nome.
O
café da manhã em que ele recebeu três dezenas
de repórteres credenciados no Palácio –
pela primeira vez em dois anos, diga-se – não conta.
Lula falou sobre diversos temas, mas não chegou nem longe
de conceder uma entrevista coletiva.
O
próprio clima ameno de um café da manhã
em que o presidente era anfitrião colaborou para tanto.
Também não havia a presença da forte bancada
de colunistas políticos, comentaristas e editores que
certamente acorreria a uma coletiva. Além de tudo, o
encontro não pôde ser fotografado, nem e as respostas
do presidente puderam ser gravadas em vídeo ou áudio.
Lula, dessa forma, continua devedor.
Curioso
paradoxo. Temos, de um lado, o mais loquaz presidente a ocupar
o posto desde o fundador da República, marechal Deodoro
da Fonseca, em 1889: Lula fala sobre tudo e para todos, sob
qualquer pretexto, a qualquer hora e em qualquer lugar. Em geral,
de improviso – improvisos freqüentemente canhestros,
que abrigam, na peculiar gramática presidencial, as tradicionais
e paupérrimas metáforas ligadas ou ao futebol
ou à família. Quando tem diante dos olhos textos
previamente escritos por assessores, nem assim o presidente
se satisfaz – e, alegremente, abandona o trabalho árduo
de gente que mergulhou fundo no assunto para voejar sobre temas
nem sempre pertinentes à solenidade que está presidindo.
O
churrasco com Ratinho
Esse
presidente extraordinariamente falante, porém, vem sendo
de uma parcimônia notável quando se trata de cumprir
a obrigação de submeter-se a entrevistas coletivas
periódicas e livres de precondições, como
ocorre com os dirigentes de democracias de verdade.
Quando
conversa com jornalistas, Lula o faz com grupos previamente
selecionados – mesmo assim, em raríssimas ocasiões
– ou em curtos diálogos em intervalos de solenidades,
ou a caminho de algum evento, ou no exterior, muitas vezes na
presença (limitadora para os jornalistas, no caso) do
presidente anfitrião, e de olho no relógio. Entrevista
coletiva, que é bom, nada.
Lula
prefere, na verdade, "entrevistas" como a célebre
que concedeu ao apresentador Ratinho em meio a uma longa sessão
de churrasco e música sertaneja na Granja do Torto, exibida
a 30 de abril pelo SBT: estava ali, à mão, um
homem de TV dócil, compreensivo e "amigo",
cuja última prioridade era colocar Lula contra a parede
a respeito de qualquer questão relevante para a opinião
pública.
As
entrevistas coletivas, especialmente num regime presidencialista
como o nosso, são indispensáveis. No parlamentarismo,
o real detentor do poder – o primeiro-ministro –
é um parlamentar e, como tal, está diuturnamente
enfrentando o questionamento de seus colegas no Parlamento.
O público, como se dá no Reino Unido, assiste
a tudo pela televisão, muitas vezes ao vivo. Execução
do orçamento, prioridades do investimento público,
educação, segurança, rumos da política
externa, mancadas políticas, escândalos –
nenhum tema escapa aos parlamentares, nenhuma pergunta incômoda
deixa de ser feita ao governante. Sem contar, é claro,
que todos, sem exceção, falam regularmente com
a imprensa.
No
regime presidencialista brasileiro, o máximo a que se
chega nesse terreno são os depoimentos de ministros no
Congresso, sujeitos a tantas condicionantes constitucionais
e legais que são raros, e quase sempre anódinos.
O
presidente, excetuados casos extremos e dramáticos como
um processo de impeachment que requeira um depoimento de corpo
presente no Legislativo, só se explica à nação
em mensagens ao Congresso e em discursos, aos quais, naturalmente,
dá o tom que bem entender. Sabatina, de fato, para valer,
só ocorre diante de um bom magote de jornalistas independentes.
Apertando
George W. Bush
É
o que se dá com grande freqüência e regularidade
em países como o Chile, o México, a França
(com seu presidencialismo parlamentarista) e, claro, os Estados
Unidos, mesmo sob o império arrogante de George W. Bush.
Por sinal, quem assistiu ao documentário Fahrenheit 9/11,
do controvertido cineasta Michael Moore – em cartaz em
várias cidades brasileiras, e já disponível
em locadoras –, pôde testemunhar o desembaraço
com que os jornalistas apertam o inquilino da Casa Branca, inclusive
sobre sua propalada pouca disposição para o trabalho
duro.
A
certa altura aparecem cenas em que Bush, descansando em seu
rancho de Crawford, no Texas, é perguntado pelos jornalistas
exatamente sobre isso. O presidente sorri amarelo, procura desconversar,
diz que, ainda que esteja no rancho, trabalha. Um repórter
mais incisivo insiste: "Mas o que é que o sr. vai
fazer hoje?" Bush refere-se a "decisões importantes"
sem esclarecer sobre o quê, não consegue responder
nada concreto, e, naquele dia, o país acaba tendo uma
notícia importante sobre o poder.
É
desse tipo de embate que Lula tem, sistematicamente, fugido,
como já lhe foi cobrado muitas vezes por colegas jornalistas
e como se cobrou neste espaço, pelo mesmo signatário,
a 4 de maio de 2004, no extenso artigo "Lula está
se escondendo da imprensa".
E
é preciso que nós, jornalistas, continuemos insistindo
na necessidade do hábito das coletivas – neste
Observatório, em outros sites, nos jornais, nas revistas,
sempre que possível na TV e no rádio. Do círculo
de assessores do presidente não se deve esperar grande
coisa.
O
secretário de Comunicação da Presidência,
Luiz Gushiken, tem a cabeça em outra parte: sua prioridade
é como gastar a gorda verba pública destinada
à publicidade oficial (quase todos os governos assim
encaram a "comunicação"), com o que
chama de "parceria público-privada" em campanhas
cívicas curiosamente aparentadas às promovidas
durante a ditadura militar, com um planejamento estratégico
(parte de suas atribuições) que igualmente recende
a formulações da Escola Superior de Guerra no
período autoritário.
Não
se trata de privilégio da mídia
Aliás,
um parêntese: quais seriam, exatamente, as credenciais
de Gushiken – ex-bancário, ex-dirigente sindical,
ex-presidente do PT, formado em Administração
de Empresas, ex-consultor de fundos de pensão –
para dirigir a comunicação do governo? Como se
sabe, ele não se limita a tanto, e também costuma,
periodicamente, dar lições a respeito do assunto
aos profissionais de imprensa. De onde lhe viria a autoridade?
Se
nada se pode esperar de Gushiken quanto a uma mudança
de comportamento de Lula, certamente, e por outras razões,
é o que igualmente sucede com o novo secretário
de Imprensa da Presidência, Fábio Kerche, subordinado
ao secretário de Comunicação.
Jovem,
cheio de energia e, para quem o conhece, claramente bem-intencionado,
o cientista político Kerche, no entanto, não tem
ascendência sobre o presidente. Nem de longe desfruta
do acesso a Lula de que dispunha seu antecessor, Ricardo Kotscho,
jornalista competente e respeitado, velho amigo do presidente
e da sua família.
Kotscho,
que deixou o posto em novembro alegando "razões
pessoais", costumava dizer que Lula o cobrava por ser mais
um secretário "da" imprensa – ou seja,
promover os interesses da mídia junto ao governo –
do que um secretário "de" Imprensa da Presidência.
Mas nem sua proximidade com Lula levou o presidente a cumprir
o ritual democrático de submeter-se com regularidade
à mídia – e não são poucos
os colegas a se queixar de que o ex-secretário, apesar
da brincadeira presidencial, fazia justamente o contrário
do que Lula reclamava.
O
porta-voz da Presidência, André Singer, também
é, como Kotscho, profissional sério, experiente
e respeitado. No começo do mandato de Lula, falava com
desembaraço e pertinência sobre uma grande gama
de questões em andamento no governo. Além do mais,
tinha um grande acesso a Lula, participando da maior parte das
audiências do presidente, de modo a inteirar-se das entranhas
do governo. Mas, à medida que Lula se soltava em incontáveis
discursos e demonstrava crescente apreço à própria
voz, esvaziou-se, naturalmente, seu papel de porta-voz. Singer
desapareceu das emissoras da TV e é duvidoso que sua
influência sobre Lula vá ao ponto de levar o presidente
a mudar de curso.
E,
no entanto, o presidente deveria fazê-lo. Lula não
está, com sua atitude de fechar-se em copas, atingindo
privilégios da mídia como instituição
ou de nós, jornalistas, como profissionais: ao fugir
do questionamento independente da imprensa, ele sonega um direito
essencial à opinião pública.
|