Informação:
Comunique-se
- 25/11/2004
Pedro
J. Bondaczuk (*)
A
Rede Globo de Televisão engajou-se, tempos atrás,
em uma meritória e louvável campanha, com a ajuda
de desportistas, principalmente de jogadores de futebol famosos,
para incentivar a população a ler. Nada mais nobre
e pertinente! Não sei se a campanha acabou ou se teve,
apenas, uma pausa. Deveria ser permanente.
A Globo usou, como mote, a afirmação de que a
leitura “também é um exercício”.
E como é! Ela abre ao leitor amplos horizontes de conhecimento
e reflexão e torna-o, sem dúvida, melhor, caso,
é claro, leia o texto certo, no momento adequado, e saiba
extrair as lições que ele contém.
Milhões
de pessoas, pelo mundo afora, todavia, estão condenadas
a vegetar, para sempre, nas trevas da ignorância. E não
é por vontade própria, por indolência ou
por má fé. É em decorrência da terrível
situação social de vastas regiões e de
inúmeros países em que vivem, que são economicamente
inviáveis. São homens, mulheres e crianças
segregados e tratados como membros de uma subespécie,
abaixo até dos animais irracionais. Há cães
e gatos que vivem infinitamente melhor do que esses excluídos.
São
seres humanos que já nascem liminarmente condenados ao
fracasso, à semi-escravidão, à miséria
e a todas as suas seqüelas. E não sou eu que afirmo,
mas são frios e detalhados relatórios de órgãos
sérios, como a Organização das Nações
Unidas para a Educação, Ciência e Cultura
(Unesco) que comprovam essa dura realidade. A entidade alerta
continuamente para o problema, mas suas advertências caem,
via de regra, salvo honrosas exceções, em ouvidos
absolutamente moucos.
Em
levantamento divulgado no dia 22 de novembro de 2003, por exemplo,
o organismo da ONU constatou que “mais de cem milhões
de jovens e crianças estão presos num ciclo de
pobreza, doenças e exploração sexual, por
estarem longe da escola”. No Brasil, esse contingente
de deserdados, felizmente, diminuiu bastante nos últimos
tempos, mas não o suficiente para que deixasse de existir.
E
a Unesco denuncia: “O número total de crianças
e adolescentes que crescem sem freqüentar nenhum tipo de
educação formal chega a 123 milhões. Só
na África Subsaariana o número é de 46
milhões”. Isso acontece, é mister frisar,
em pleno século XXI, o das comunicações
em massa, da televisão, do celular, da internet e de
outras tantas preciosas ferramentas de informação
e de instrução. Ocorre em um mundo globalizado,
onde mirabolantes fortunas circulam diariamente nos mercados
financeiros, mas onde não sobram, a esses infelizes,
a esses excluídos, a esses rejeitados da espécie,
sequer míseras migalhas.
E
pensar que a Declaração Universal dos Direitos
Humanos preceitua que “todos os homens nascem iguais,
com os mesmos direitos e deveres”. “Words, words,
words…”, diria, não sem razão, o velho
bardo William Shakespeare. É de se estranhar que nessas
circunstâncias haja tanta violência no mundo? Claro
que não!
Violentos são aqueles que, por pura e estúpida
ganância (já que vão morrer, como todos),
privam tanta gente, não somente de comida, que a terra,
generosa, provê o homem, mas do alimento espiritual: o
do saber! Se sobrassem ao menos migalhas, para os quase dois
terços da humanidade que vegetam na miséria, ou
que estão muito próximos dela, não haveria
tantas mortes causadas pela fome e por suas terríveis
seqüelas, quando se sabe que as potências econômicas
“pagam” aos seus agricultores para que deixem de
produzir alimentos. Por que? Por uma razão bastante “objetiva”.
Para evitar que a oferta se torne maior do que a procura e os
preços, por conseqüência, despenquem, seguindo
a inflexível lei natural do mercado. Esses são
os autênticos “idiotas da objetividade”, tomando
emprestada a expressão cunhada pelo poeta Affonso Romano
de Sant`Ana, sequiosos unicamente por crescentes lucros. Não
têm a mínima noção do real significado
da vida.
Este
tremendo desnível, essa aberração contra
a espécie, por mais nociva e estúpida que seja
(anomalia tão grande que não encontra paralelo
no mundo das feras ditas irracionais), tem, ainda, defensores,
e que não são poucos! E os que não defendem
explicitamente esse sistema, fazem vistas grossas a ele, como
se não tivessem nada a ver com isso. Mas têm. Todos
temos!
Vendo
as imagens dos dramas cotidianos e me informando sobre todas
essas aberrações, patifarias e mazelas, que os
meios de comunicação, notadamente a TV, jogam
com fartura, da manhã até a noite, bem no meio
da minha sala de jantar, e sobre as quais sou instado, a todo
o momento, a emitir opiniões, para pequenos, médios
e grandes jornais e home pages da Internet, não posso
me furtar de desabafar, como o escritor argentino Jorge Luís
Borges um dia fez, por idêntico motivo: “a vida
não pode ser só isso que se vê!”.
Ou, pelo menos, não deve ser!.
(*)
Jornalista e escritor
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