Destaques

O impacto da TV digital.


 

Informação: Comunique-se - 29/12/2004

Laura Schenkel e Svendla Chaves

Interação, alta qualidade, inclusão social. É impossível enumerar todas as vantagens anunciadas pelos pesquisadores sobre a televisão digital. A expectativa sobre o impacto da nova tecnologia é ainda maior no Brasil, onde são poucos os que têm acesso a canais por assinatura – há televisores em 90% dos domicílios e 80% só recebem os canais abertos – e a televisão é a principal fonte de informação.

Entre as possibilidades, destacam-se a imagem em alta definição, o áudio com qualidade, a recepção móvel e em telefones celulares da terceira geração de aparelhos, a transmissão simultânea de diversos programas ou de vários ângulos de um programa. Também poderão surgir canais virtuais de venda de produtos pela televisão (o t-commerce) e serviços de homebanking, contando com a criptografia para assegurar as operações.

No campo do jornalismo, a maior diferença está na possibilidade de obter mais informações sobre um assunto, utilizando links como os existentes na Internet para saber mais sobre uma matéria veiculada. “Poderemos oferecer mais conteúdo, quebrando a regra de que reportagens de TV devem ter entre um minuto e 32 minutos. Talvez elas até continuem com esse tempo para serem veiculadas, mas pode haver outra versão maior, mais completa, com mais fontes, um anexo com a íntegra de entrevistas e as imagens captadas”, ressalta Aline Dallago, professora do curso de Jornalismo da PUCRS e editora do jornal SBT Rio Grande. “Isso vai depender muito dos produtores da informação.”

Aline considera que fazer previsões sobre as mudanças para os jornalistas é “futurologia”. “A tendência é haver uma reconfiguração das funções do jornalista que trabalha em televisão. Hoje, a digitalização do processo de produção está provocando acúmulo de funções.” Por outro lado, ela aponta a criação de novos cargos, citando a TV Globo, em que surgiu a figura do editor de Web no telejornal.

O sistema está em fase de implantação nos Estados Unidos, Europa e Japão – cada um operando com seu próprio padrão. No Brasil, foi publicado em 2003 o Decreto 4.901, tratando da criação de um Sistema Brasileiro de Televisão Digital, o SBTVD. O programa de desenvolvimento do sistema de TV digital é formado por um grupo de trabalho interministerial, com apoio técnico e administrativo da Finep e da Fundação Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD), que determinará o padrão a ser adotado, levando em conta as prioridades estabelecidas no decreto, como a inclusão social, o acesso à Internet, o ensino à distância e o baixo custo. Universidades e centros de pesquisa de todo o país, reunidos em consórcios, estão criando propostas para o sistema.

“No final de um ano vamos gerar recomendações sobre o Sistema Brasileiro baseado em experimentos técnicos, simulações, eventualmente alguns protótipos, que vai nos dar uma visão mais clara de todos os sistemas”, afirma o professor Dario Azevedo, diretor do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas da PUCRS, que coordena os estudos da televisão digital na Universidade.


Adaptação
Apesar de todas as possibilidades que surgem com a nova tecnologia, há algumas dificuldades pelo caminho. “A diferença é que o poder de compra dos habitantes dos países que já têm a TV digital é bem maior do que o dos brasileiros, o que implica que eles podem trocar de televisão com muito mais facilidade. Hoje a maioria dos lares tem TV colorida em vez de preto e branco. Esta transição demorou mais a acontecer no Brasil do que nos países ricos”, observa o coordenador do Grupo de Pesquisa em Mídia do Instituto de Informática da UFRGS, professor José Valdeni Lima.

Para usufruir da interatividade da televisão digital sem trocar o aparelho televisor, será vendida uma Set Top Box, decodificador que transforma o sinal digital em analógico, a exemplo do que é feito em outros países. Nessa caixa, estará embutido o canal de retorno, que permite a interatividade.

A mudança dos sistemas de transmissão de analógicos para digitais aumenta a quantidade de canais, já que o sinal digital ocupa menos espaço no espectro que os analógicos. Não será fácil promover essa tecnologia a baixos custos. De acordo com estimativas, a implantação da TV digital vai gerar negócios da ordem de US$ 6 trilhões. “Deste montante, pelo menos US$ 100 bilhões são referentes ao Brasil” comenta Aline. A Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) prevê que os investimentos das estações de televisão do Brasil em infra-estrutura cheguem a US$ 1,7 bilhão, só na troca de antenas.

Lançando polêmica, o professor da PUCRS Francisco Menezes Martins, doutor em Ciências da Informação, adverte: “O lado ruim da TV digital é que ela concentra os mais favorecidos e acaba gerando uma distribuição quase como caridade para os menos favorecidos. O impacto ainda é imprevisível, do ponto de vista publicitário e do ponto de vista do comportamento das pessoas. É realizável porque não depende de nenhuma ação governamental, é puro investimento das empresas, o governo é um mero facilitador.”

Outro perigo é alertado por Aline: “O telespectador vai poder escolher o horário e o conteúdo do que vai assistir. Isso já é conhecido e bem legal, mas em termos de jornalismo pode provocar uma alienação. Se eu posso escolher as reportagens e eu só gosto de esporte, por que vou assistir às matérias sobre política e economia, por mais importantes que sejam?”.

(*) Da equipe do site Bem Informado.