Laura
Schenkel e Svendla Chaves
Interação,
alta qualidade, inclusão social. É impossível
enumerar todas as vantagens anunciadas pelos pesquisadores
sobre a televisão digital. A expectativa sobre o impacto
da nova tecnologia é ainda maior no Brasil, onde são
poucos os que têm acesso a canais por assinatura –
há televisores em 90% dos domicílios e 80% só
recebem os canais abertos – e a televisão é
a principal fonte de informação.
Entre
as possibilidades, destacam-se a imagem em alta definição,
o áudio com qualidade, a recepção móvel
e em telefones celulares da terceira geração
de aparelhos, a transmissão simultânea de diversos
programas ou de vários ângulos de um programa.
Também poderão surgir canais virtuais de venda
de produtos pela televisão (o t-commerce) e serviços
de homebanking, contando com a criptografia para assegurar
as operações.
No
campo do jornalismo, a maior diferença está
na possibilidade de obter mais informações sobre
um assunto, utilizando links como os existentes na Internet
para saber mais sobre uma matéria veiculada. “Poderemos
oferecer mais conteúdo, quebrando a regra de que reportagens
de TV devem ter entre um minuto e 32 minutos. Talvez elas
até continuem com esse tempo para serem veiculadas,
mas pode haver outra versão maior, mais completa, com
mais fontes, um anexo com a íntegra de entrevistas
e as imagens captadas”, ressalta Aline Dallago, professora
do curso de Jornalismo da PUCRS e editora do jornal SBT Rio
Grande. “Isso vai depender muito dos produtores da informação.”
Aline
considera que fazer previsões sobre as mudanças
para os jornalistas é “futurologia”. “A
tendência é haver uma reconfiguração
das funções do jornalista que trabalha em televisão.
Hoje, a digitalização do processo de produção
está provocando acúmulo de funções.”
Por outro lado, ela aponta a criação de novos
cargos, citando a TV Globo, em que surgiu a figura do editor
de Web no telejornal.
O
sistema está em fase de implantação nos
Estados Unidos, Europa e Japão – cada um operando
com seu próprio padrão. No Brasil, foi publicado
em 2003 o Decreto 4.901, tratando da criação
de um Sistema Brasileiro de Televisão Digital, o SBTVD.
O programa de desenvolvimento do sistema de TV digital é
formado por um grupo de trabalho interministerial, com apoio
técnico e administrativo da Finep e da Fundação
Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações
(CPqD), que determinará o padrão a ser adotado,
levando em conta as prioridades estabelecidas no decreto,
como a inclusão social, o acesso à Internet,
o ensino à distância e o baixo custo. Universidades
e centros de pesquisa de todo o país, reunidos em consórcios,
estão criando propostas para o sistema.
“No
final de um ano vamos gerar recomendações sobre
o Sistema Brasileiro baseado em experimentos técnicos,
simulações, eventualmente alguns protótipos,
que vai nos dar uma visão mais clara de todos os sistemas”,
afirma o professor Dario Azevedo, diretor do Instituto de
Pesquisas Científicas e Tecnológicas da PUCRS,
que coordena os estudos da televisão digital na Universidade.
Adaptação
Apesar de todas as possibilidades que surgem com a nova tecnologia,
há algumas dificuldades pelo caminho. “A diferença
é que o poder de compra dos habitantes dos países
que já têm a TV digital é bem maior do
que o dos brasileiros, o que implica que eles podem trocar
de televisão com muito mais facilidade. Hoje a maioria
dos lares tem TV colorida em vez de preto e branco. Esta transição
demorou mais a acontecer no Brasil do que nos países
ricos”, observa o coordenador do Grupo de Pesquisa em
Mídia do Instituto de Informática da UFRGS,
professor José Valdeni Lima.
Para
usufruir da interatividade da televisão digital sem
trocar o aparelho televisor, será vendida uma Set Top
Box, decodificador que transforma o sinal digital em analógico,
a exemplo do que é feito em outros países. Nessa
caixa, estará embutido o canal de retorno, que permite
a interatividade.
A
mudança dos sistemas de transmissão de analógicos
para digitais aumenta a quantidade de canais, já que
o sinal digital ocupa menos espaço no espectro que
os analógicos. Não será fácil
promover essa tecnologia a baixos custos. De acordo com estimativas,
a implantação da TV digital vai gerar negócios
da ordem de US$ 6 trilhões. “Deste montante,
pelo menos US$ 100 bilhões são referentes ao
Brasil” comenta Aline. A Associação Brasileira
de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) prevê
que os investimentos das estações de televisão
do Brasil em infra-estrutura cheguem a US$ 1,7 bilhão,
só na troca de antenas.
Lançando
polêmica, o professor da PUCRS Francisco Menezes Martins,
doutor em Ciências da Informação, adverte:
“O lado ruim da TV digital é que ela concentra
os mais favorecidos e acaba gerando uma distribuição
quase como caridade para os menos favorecidos. O impacto ainda
é imprevisível, do ponto de vista publicitário
e do ponto de vista do comportamento das pessoas. É
realizável porque não depende de nenhuma ação
governamental, é puro investimento das empresas, o
governo é um mero facilitador.”
Outro
perigo é alertado por Aline: “O telespectador
vai poder escolher o horário e o conteúdo do
que vai assistir. Isso já é conhecido e bem
legal, mas em termos de jornalismo pode provocar uma alienação.
Se eu posso escolher as reportagens e eu só gosto de
esporte, por que vou assistir às matérias sobre
política e economia, por mais importantes que sejam?”.
(*)
Da equipe do site Bem
Informado.