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Informação:
Observatório
da Imprensa - 07/12/2004
Nelson
Hoineff
A
Folha de S.Paulo de domingo (5/12) acertou em editar lado a
lado as matérias sobre a ascensão da Fox News
("Nova fórmula da Fox muda a TV americana",
pág A32) e a aposentadoria de dois dos três principais
âncoras dos telejornais das grandes redes norte-americanas
("TVs aposentam os âncoras da era dourada",
pág A33). Acertou porque uma e outra falam sobre a mesma
coisa: telejornalismo e credibilidade.
O
espantoso crescimento da Fox News, particularmente nos últimos
três anos (a rede foi criada há oito), vem sendo
acompanhado há algum tempo com a inquietação
que o caso exige. A rede noticiosa de Rupert Murdoch surgiu
para enfrentar a CNN e disposta a abrir mão do que até
então se considerava clausula pétrea nos princípios
jornalísticos das grandes redes de televisão:
a isenção.
A
verdade é que o público comprou, sabendo o que
estava comprando, uma cobertura jornalística em que a
imparcialidade não fazia parte do jogo. A perplexidade
não é apenas em torno da escalada de audiência
da Fox News, mas da possibilidade de que o princípio
da isenção não queira dizer nada para o
público que hoje se instalou diante da TV. Se Deus e
a isenção jornalística não existem,
tudo é permitido.
"Nova
era"
A
"era de ouro" que o título da Folha refere
teve seu apogeu bem antes que esse público usasse fraldas.
Dan Rather, hoje com 73 anos, e que anunciou sua aposentadoria
para 9 de março do ano que vem, foi o sucessor, no CBS
Evening News, de Walter Cronkite, que moldava a opinião
pública dos Estados Unidos e definiu os rumos da guerra
do Vietnã quando Nixon admitiu que "se perdemos
Walter, perdemos a América".
Âncora
do telejornal das 18h30, Cronkite era, para o cidadão
americano, a única pessoa em todo o país que jamais
lhe diria uma mentira. Uma confiança tão ampla
não se forja com uma bela estampa (nenhum apresentador
é particularmente bonito e dificilmente atinge o apogeu
antes dos 60 anos), mas se constrói todos os dias. É
um trabalho penoso e difícil, que junta talento jornalístico
e carisma pessoal.
Na
escala de prioridades das divisões de notícias
das grandes redes norte-americanas, o furo de reportagem vem
muitos pontos abaixo da manutenção da credibilidade
de quem está apresentando a notícia. Para o público,
ele é o fiador da própria emissora. Por isso ganham
quase um milhão de dólares por mês e também
por isso são tão importantes para divisões
que faturam mais de 2 bilhões de dólares por ano.
Os
números do mercado, reproduzidos na matéria da
Folha, mostram a derrota que a Fox News vem impingindo à
CNN (que, como as grandes redes abertas, vende o princípio
da independência, ao lado da abrangência e permanência
de sua cobertura) e também o surpreendente desempenho
da cobertura das eleições presidenciais de 3 de
novembro, quando a rede fechada atingiu 8,1 milhões de
espectadores, contra 9,5 milhões da emissora aberta CBS.
Tais
números devem-se ao fato de que grande parte do público,
naquele dia, não procurava uma rede que permanecesse
eqüidistante, mas sim que, como a maioria dos eleitores,
tivesse feito sua opção por Bush. Naquela noite,
pelo menos 8 milhões de norte-americanos buscavam na
sua televisão qualquer coisa, menos isenção.
Se
isso configurar uma tendência, todo o modelo do telejornalismo
norte-americano, no que ele tem de melhor, terá de ser
revisto – e o sucessor de Rather, por exemplo, já
não será um espelho de seu antecessor, como Rather
foi de Cronkite.
É
possível que seja isso o que Brian Williams, o sucessor
de Tom Brokaw, por 23 anos à frente do atual líder
NBC Nightly News, estivesse querendo dizer quando afirmou, em
sua estréia há poucos dias, que "nessa noite
começa uma nova era nessa emissora".
O
pilar da isenção
É
compreensível que o público que está hoje
diante de um aparelho de televisão não veja os
mesmos programas, não tenha os mesmos valores e nem use
a sua televisão da mesma maneira com que o fazia o público
que dependia de Rather, Brokaw e Cronkite para ter certeza de
que não lhe estavam dizendo mentiras. O que temos que
tentar entender agora é o que este público está
procurando num noticiário.
Adesão
e cumplicidade seriam respostas insatisfatórias. Podia
ser no último dia de uma eleição disputada,
onde se havia criado o clima de um jogo de futebol. O público
prefere o comentarista que fale bem de seu time. Mas os telejornais
das três grandes redes norte-americanas, que há
30 anos tinham mais de 70% de toda a audiência, hoje têm
perto de 20%.
É
certo que, a partir dos anos 1980, o ambiente de TV por assinatura
roubou quase 60% dos espectadores da TV aberta nos EUA. Mas
a pergunta que está no ar é se a isenção
ainda pode se sustentar como o principal produto de venda dos
noticiários de TV – e se não puder, pelo
que ela estará sendo substituída.
Sensação
de credibilidade
No
Brasil, isenção é um prato relativamente
novo no cardápio do telejornalismo. Extraordinários
lampejos de independência já existiam desde os
anos 1960 em produtos como o Jornal de Vanguarda, até
hoje uma experiência singular de jornalismo em televisão
por qualquer padrão internacional.
Os
avanços da Rede Globo neste campo são notáveis.
A grande rede brasileira pratica hoje um jornalismo que em nada
lembra o dos tempos em que a própria população
reagia à presença de equipes de reportagem da
emissora nas ruas. Mas não há dúvida que
apenas Boris Casoy expressa plenamente a concepção
norte-americana de um âncora que não deixa que
mintam para o seu público – e que para isso seja
fiador da própria emissora.
Há
diferenças, é claro. A primeira é que é
bem mais complicado ser fiador da credibilidade da Record que
da CBS. Para vencer isso, Casoy conseguiu fazer com que na Record
– como no SBT – a sua própria divisão
de notícias (há outras na Record, como havia outras
no SBT) tenha estrutura própria e uma forte desvinculação
editorial da emissora. A segunda é que Boris, ao contrário
dos grandes âncoras americanos, opina no ar. Ambas as
diferenças apontam para uma personalização
muito forte dos telejornais conduzidos pelo único âncora
brasileiro a lembrar o modelo dos âncoras que hoje estão
passando o bastão nos telejornais norte-americanos.
O
público brasileiro comprou esta sensação
de credibilidade? Em parte sim, se formos comparar o desempenho
do Jornal da Record, particularmente o seu faturamento, com
o de outros produtos dentro da mesma emissora e com a incapacidade
de sua redação gerar tantos fatos jornalísticos,
denúncias comprovadas e furos de reportagens quanto a
da Globo.
Mas
se se ampliarem as dúvidas que se instalam no modelo
gerador de tudo isso, então todo o telejornalismo que
se pratica à luz do modelo estará em risco. A
questão a se pensar é se existe a imagem de um
modelo melhor nas novas formas de organização
da mídia eletrônica – ou para onde quer que
se procure enxergar.
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