| Informação:
Comunique-se - 06/12/2004
Antonio
Brasil
A televisão é acusada de causar quase todos os
males da sociedade moderna. Assistir televisão em demasia
pode ser considerado um vício. Mas também pode
ser um dos pequenos prazeres da vida. Um ótimo remédio
para a solidão. Esta é uma das conclusões
mais interessantes de uma pesquisa recente publicada aqui nos
EUA pela revista Science e divulgada pelo New York Times (ver
aqui).
Um
grupo de psicólogos e economistas americanos investigou
o cotidiano das pessoas. Quais seriam aquelas pequenas coisas
que tornam nossa vida mais feliz, ou, pelo menos, suportável?
Quais são as nossas atividades diárias que preferimos?
O que será que nos incomoda no nosso dia-a-dia? Os pesquisadores
procuraram respostas e avaliaram as alternativas que dispomos
para enfrentar rotinas cada vez mais complicadas e incompreensíveis.
A idéia é definir e estabelecer graus de satisfação
para essas atividades e, quem sabe, buscar soluções
ou “remédios” para as nossas vidas.
A
grande surpresa dos pesquisadores foi descobrir que muitos entrevistados
ainda preferem assistir televisão a muitas outras opções
que pesquisas anteriores sempre consideraram mais importantes
e óbvias.
TV
individual e o poder do controle remoto
Outra
“surpresa” destacada na pesquisa é a preferência
por assistir televisão “sozinho”. Em um mundo
cada vez mais “segmentado”, o hábito de assistir
televisão deixa de ser um evento social, familiar para
ser uma atividade privada, única, solitária. Pelo
jeito, com a diversidade de opções, principalmente
em televisões por assinatura, as disputas diárias
pelo poder supremo, o poder de manusear o controle-remoto, parece
justificar os novos hábitos. O público de TV é
exigente, individualista e não parece disposto a negociar
suas “preferências”. Muitas residências
nos EUA e no Brasil já evitam os conflitos familiares
com diversas televisões espalhadas pela casa. Assim como
temos as nossas próprias “escovas de dente”,
temos as nossas próprias TVs onde assistimos a uma programação
pessoal e restrita. O resultado e o problema dessa escolha são
óbvios. A família perde mais um de seus elos de
comunicação e afeto. Para o jornalismo de TV,
a opção e a competição se tornam
ainda mais grave. Como diria o poeta, “para que tantas
'más' notícias!
Mas,
para aqueles que já vivem sozinho, longe dos conflitos
familiares, a televisão se torna uma alternativa positiva.
Evita o mal maior: a solidão. A TV é uma boa companheira.
Está sempre “disponível”, costuma
ser “leal”, meio “temperamental”, mas
pode ser “desligada” a qualquer momento. O problema,
infelizmente, é a “dependência”. Viver
sem TV é difícil.
Mulheres
também preferem a TV
Segundo a mesma pesquisa, outras atividades do nosso cotidiano
continuam sendo consideradas importantes e prazerosas. Shopping,
encontrar com os amigos ou “sexo” ainda são
consideradas “boas” opções. Menos
mal. Mas em um mundo cada vez mais “individualizado”
e perigoso, essas opções tendem a se tornar cada
vez mais inacessíveis.
A
questão financeira também foi investigada nessa
pesquisa. No entanto, não houve uma grande diferença
entre o poder aquisitivo de diversos setores. Em um país
onde a maioria das pessoas não tem mais que se preocupar
com a mera “sobrevivência”, as opções
de entretenimento entre os diversos segmentos da classe média
se assemelham. A renda financeira das pessoas não parece
ser o principal fator ao apontar as atividades consideradas
mais aborrecidas ou agradáveis.
Mas
revelação mais perturbadora da pesquisa é
confirmar uma tendência que já percebemos há
muitos anos, mas que não gostamos de admitir. Uma parte
significativa das mulheres pesquisadas fez questão de
dizer que prefere assistir televisão a lidar com as suas
próprias crianças. O relacionamento com os filhos
é considerado mais uma daquelas “árduas”
tarefas domésticas. Para essas mesmas mulheres, o tempo
gasto com as crianças não é muito diferente
com as “obrigações” domésticas
como limpar a casa ou preparar a comida.
A
mesma pesquisa revela que as mulheres americanas também
consideram “dormir bem” como uma atividade prazerosa
e importante na busca diária da tal “felicidade”.
Apesar
de ainda considerarem importantes outros prazeres como falar
ao telefone, sexo ou shopping, as mulheres entrevistadas fazem
questão de destacar o hábito de assistir televisão
como algo positivo e prazeroso, mas, assim como os homens, de
preferência sozinhas, longe dos maridos e, principalmente,
das crianças. Faz sentido. Resta saber, o que acham essas
mesmas crianças. Provavelmente, elas também preferem
assistir aos seus próprios programas infantis, jogar
videogames ou dedicar-se a outras atividades solitárias,
longe dos pais, dos amigos e das constantes ameaças de
um mundo cada vez mais hostil. Talvez, seja mera falta de opção.
Mas, para muitos americanos e, certamente, brasileiros, a busca
da felicidade ainda está na televisão.
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