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Comunique-se - 22/12/2004
Eduardo
Ribeiro
Era
uma aula até certo ponto despretenciosa de Rádio-jornalismo,
com o professor chileno Júlio Zapata.
Vivíamos
tempos bicudos (1977 se a memória não me falha)
e víamos sombras em tudo e em todos. E com Zapata não
era diferente: um chileno no Brasil, em plena ditadura, dando
aulas no curso de jornalismo numa faculdade, digamos assim,
burguesa, era, no mínimo, muito estranho. Mas como suas
aulas situavam-se entre as mais agradáveis e mobilizadoras
do curso, passávamos por cima de eventuais desconfianças,
com participações sempre marcantes.
Naquela
aula Zapata fez uma revelação que deixou a todos
atônitos e incrédulos: o rádio não
havia sido inventado pelo italiano Guglielmo Marconi, como até
os livros de história brasileiros ensinavam, e sim pelo
padre e cientista gaúcho Roberto Landell de Moura, em
fins do século XIX, aqui mesmo no Brasil, em transmissões
feitas (algumas delas) entre a Avenida Paulista e o Morro de
Santana.
Ficamos
chocados e desconcertados com aquela revelação
e mais ainda por ela ter sido feita por um professor estrangeiro,
que certamente conhecia mais de nossa história do que
qualquer um de nós.
Pela
nossa cabeça passou de tudo, inclusive a idéia
de ser aquela uma farsa ou uma brincadeira de mau gosto. Como
poderia o rádio ter sido inventado no Brasil, por um
cientista brasileiro, e ninguém, no próprio País
saber disso? Se na época já fossem conhecidas
as tais pegadinhas, sem dúvida alguma aquela seria uma
delas, para testar nossa capacidade de reação.
Porém
o professor Zapata, no curso, deu evidências mais do que
suficientes para que todos nós deixássemos de
duvidar de suas afirmações e foi além:
indignado com o desconhecimento (e desprezo) dos brasileiros
com um de seus mais ilustres filhos, lançou na sala de
aula um desafio: que o grupo tomasse para si aquela causa resgatando
o padre gaúcho para a história. E certamente o
fez por dever de ofício, como já devia ter feito
inúmeras vezes, em outros ambientes profissionais e acadêmicos,
sem muita esperança de que a provocação
tivesse algum resultado prático.
E
estava certíssimo, a não ser pela presença,
entre nós, de um tal Hamilton Almeida, que, à
época, chamávamos de Benê, apelido tirado
de seu primeiro nome, Benedito.
Hamilton
comprou a pauta, foi à luta e decidiu que ela seria a
grande reportagem de sua vida. Faz mais de 20 anos que pesquisa
a vida e a obra de Roberto Landell de Moura, padre cientista,
renegado e perseguido pela Igreja Católica, que esteve
à frente de seu tempo, com experimentos que anteciparam
algumas das mais importantes invenções do século
XX.
Duas
décadas depois de ter editado no Brasil os livros "O
outro lado das telecomunicações - A saga do Padre
Landell" (Editora Sulina) e "Landell de Moura"
(Editora Tchê/RBS - coleção Esses Gaúchos),
ele foi lançado na Alemanha pela Editora Debras Verlag,
da cidade de Konstanz. O nome do livro é "Pater
und Wissenschaftler" (Padre e cientista) e o lançamento
ocorreu durante um evento para radioamadores realizado nos dias
4 e 5 de dezembro deste ano na cidade de Dortmund. Um segundo
e maior lançamento será realizado em junho de
2005, provavelmente com a presença do autor, numa exposição
mundial de radioamadores - a Hamradio -, na cidade de Friedrichshafen.
Hamilton
precisou ser lançado na Alemanha para ganhar reconhecimento
no Brasil. Suas primeiras obras, editadas no Sul, não
conseguiram romper a barreira geográfica e desse modo
perderam o efeito multiplicador tão necessário
para o reconhecimento de um trabalho dessa magnitude.
Mais
do que ele, obviamente perdeu o Brasil e, claro, a História,
que continuou, por mais este período, ignorando as peripécias
de um dos maiores gênios dos séculos XIX e XX.
Isso
pode estar agora mudando, graças à edição
alemã. Por conta dela, Hamilton ganhou um espaço
privilegiado na mídia brasileira e a saga do Padre Landell,
pelo visto, começa a ser recontada. Jornais, sites e
agências de todo o País abriram espaço para
o livro e isso despertou o interesse de dezenas de pesquisadores,
cienteistas e professores que procuraram o autor para saber
outros detalhes dessa história desconcertante que quase
ninguém conhecia.
Está
aberto, portanto, o caminho para que novos pesquisadores se
debrucem sobre o Padre Landell de Moura e sua obra e, mais do
que isso, para que a História do Brasil possa ganhar
esse importante reforço, ainda que tardiamente. Se isso
ocorrer, logo logo Padre Landell estará sendo ensinado
nos cursos básicos e também na Universidade, ganhando,
quem sabe, o mundo, como nosso reconhecido Santos Dumont.
Para
contar a história do Padre Landell, Hamilton pesquisou
durante vários anos em diversas cidades brasileiras.
Revirou bibliotecas, entrevistou familiares e pessoas que tiveram
algum tipo de envolvimento com Padre Landell ou seus inventos,
manuseou jornais e revistas daquele período, checou,
enfim, como bom repórter, todas as pistas e evidências
que obteve. E fez tudo isso com dinheiro do próprio bolso
e nas horas vagas, sem qualquer apoio oficial.
Desconhecido
da mídia e do grande público, o trabalho de Hamilton
circulava com certa desenvoltura entre radioamadores por razões
óbvias. Um desses radioamadores era o editor alemão
Heinz Prange, e ele ficou simplesmente fascinado com a história.
Nascia, desse modo, em meados do ano 2000, a decisão
de publicar uma nova obra de Hamilton sobre o Padre Landell,
porém em alemão e na Alemanha. Trata-se, portanto,
de uma obra nova, que atualiza e amplia significativamente os
dois livros escritos anteriormente.
Nela
se descobre que Padre Landell foi precursor não só
do rádio, mas também da televisão e do
teletipo, entre outras descobertas. E que, apesar da sua genialidade,
o padre cientista não recebeu apoio de ninguém,
tendo sido, ao contrário, ignorado e perseguido. Quis
unir a religião à ciência e acabou acusado
de ter pacto com o diabo. Patenteou seus inventos no Brasil
e nos Estados Unidos, realizou experimentos e, ainda assim,
não foi reconhecido em sua época. No Brasil, chegaram
a destruir os seus aparelhos e impedir seus estudos, por considerá-lo
uma espécie de bruxo.
Padre
Landell também aperfeiçoou o sistema de telegrafia
sem fio e transmitiu pela primeira vez no mundo em ondas contínuas,
que são superiores às ondas amortecidas utilizadas
nos primeiros tempos das radiocomunicações por
outros cientistas. Recomendou o emprego das ondas curtas para
aumentar as distâncias das transmissões quando
elas não eram sequer cogitadas pelos outros cientistas.
Para a transmissão de mensagens, ele também se
utilizava da luz, o mesmo princípio que aperfeiçoou
as comunicações modernas, empregando-se o laser
e as fibras ópticas. Numa época em que as telecomunicações
eram precárias até mesmo entre cidades vizinhas,
ele já acreditava na possibilidade das comunicações
interplanetárias.
Morreu no anonimato e sua obra até hoje é pouco
conhecida. Com o tempo, as suas invenções acabaram
sendo reinventadas por outros cientistas, que ficaram com a
fama e a glória.
O
jornalista Hamilton Almeida, nascido na cidade de Guarulhos
(São Paulo), começou sua carreira em revistas
técnicas na capital paulista, e em meados dos anos 80
mudou-se para Porto Alegre. Ali trabalhou por vários
anos na editoria de Economia do Zero Hora, sendo posteriormente
transferido para Buenos Aires, como correspondente. Ficou cerca
de oito anos na capital argentina, os últimos pela Gazeta
Mercantil Latino-americana. Em 2000, regressou ao Brasil deixando
pouco depois o jornal, num dos cortes feitos pela empresa, àquela
altura já em crise. Atualmente, ele integra a equipe
do Departamento de Análise Editorial da CDN - Cia de
Notícias. Seu e-mail pessoal é hamilton_xxi@yahoo.com
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