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Dona Maria e o rádio, por Alexandre Pelegi.


 

Informação: RA RÁDIO AGÊNCIA - 29/11/2004

A primeira fase do vestibular 2005 da Unicamp usou o rádio como tema principal da redação e das 12 questões dissertativas. Quando li esta notícia me senti alegre. Afinal, até que enfim alguém dava algum valor para o rádio brasileiro.

Mas minha alegria foi logo substituída por uma reação formada por um misto de espanto e incredulidade quando li que a escolha fora "bastante criticada pela coordenadora do laboratório de redação do Objetivo, Maria Aparecida Custódio. "Dona Maria afirmava, entre outras pérolas, que "a presença do rádio é pequena entre os jovens".

Fiquei imaginando o que esta senhora faz de manhã quando liga o carro. Ou como se informa quando está longe dos aparelhos de TV e computadores de Internet. Ou ainda, se cansada do trânsito, como faz para ouvir aquela música relaxante ou alegre. Tudo bem, talvez ela não seja jovem, mas deveria ao menos saber a importância que este veículo tem. E como ele pode ser fundamental para o jovem, como ademais é fundamental há décadas para todas as pessoas, independente de idade, sexo, religião...

Talvez se a prova de redação fosse sobre a importância da obra de Machado de Assis, ou ainda sobre João Ubaldo Ribeiro, o que ela diria? Desancaria a Unicamp com o argumento de que o hábito da leitura é pequeno (eu diria quase inexistente) entre os jovens? Isso lá é justificativa, Dona Maria?

Sei que os jornais, muitas vezes, distorcem o que as pessoas falam. Talvez Dona Maria não tivesse sido bem compreendida pelos jornalistas que a entrevistaram. Ou ainda, coisa comum, arrependeu-se do que disse logo depois... Concedo-lhe o benefício da dúvida, mas mantenho minha indignação. O argumento é pernicioso, ainda mais vindo de alguém cuja função é ensinar jovens a redigir.

Até onde sei, a gente escreve para construir nossa identidade. E muitas vezes esse ato mágico se torna uma forma sublime de prazer. Escrever é um ato vital por isso mesmo e não importa o tema, afinal é uma prova, pois não? Se eu sei escrever, dê-me um tema qualquer que eu seguramente saberei dizer algo a respeito, até mesmo narrar o tamanho desmedido de minha ignorância...

"No princípio era o Verbo...", já lemos isso na Bíblia. E não há Internet que acabe com o prazer e a necessidade da escrita. Da mesma forma, não haverá TV ou qualquer engenhoca milaborante que irá acabar com a importância do rádio.

Que ele seja ignorado, até entendo, apesar de não aceitar. Mas pelo menos não nos neguem o direito à existência. E por último, mas não menos importante: jovem ouve rádio sim! É só perguntar a eles.

Alexandre Pelegi é produtor e comentarista do programa Fique por Dentro, da Rádio Metropolitana FM SP.