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UM CONTO DE NATAL.

(A natividade na visão do pastor que apascentava suas ovelhas na noite do grande evento) 

Sérgio Nascimento


A noite finalmente chegou depois de um dia exaustivo. Zedequias, o pastor de ovelhas, comeu a frugal refeição que trouxera e iniciou os preparativos para a vigília da noite.

Belém, nesta época do ano, não é nem muito fria nem muito quente. Nesta noite, em especial, soprava uma brisa fresca anunciando o inverno que se avizinhava.

O local onde os pastores normalmente levavam seus rebanhos para passar a noite, nesta época do ano, situava-se ao pé de uma pequena elevação, distante alguns poucos quilômetros de Belém.

Após guardarem seus rebanhos, os pastores se reuniam para fazerem sua refeição, aproveitando a ocasião para conversar a respeito dos acontecimentos do dia. Nesta noite, o tema central das conversas era o grande recenseamento decretado por César Augusto. O Imperador queria saber quantos eram os habitantes daquela região sob domínio romano. O tema tornava-se ainda mais atraente, pois até esta data nunca houvera um evento desta envergadura. Em toda a história deste povo era o primeiro grande recenseamento que se realizava, fazendo com que as pessoas convergissem para as cidades onde foram instalados postos de alistamentos. Portanto, nestes últimos dias muitas pessoas e famílias dirigiram-se para a pequena Belém, que não possuía alojamentos suficientes para todos. Por esta razão, algumas pessoas se viam obrigadas a procurarem abrigo em paióis nos fundo das casas, ou mesmo em grutas que ficavam nos arredores da cidade, a beira das estradas, e que normalmente serviam para abrigar animais ou viajantes. Nesta noite, portanto, todas as estalagens de Belém estavam lotadas.

Excepcionalmente, nesta noite, Zedequias não se sentia bem para participar da reunião dos amigos pastores. Nos últimos dias encontrava-se tremendamente preocupado com a saúde de sua esposa e de seu filho, nascido há alguns dias atrás, após um parto muito difícil e sofrido. Por esta razão se recolheu mais cedo na pequena tenda, armada para passar à noite nos momentos que não estava cuidando do rebanho.

Procurou seu ajudante e lhe deu as últimas instruções sobre o rebanho, pois descansaria no primeiro quarto de hora. Então se deitou, cruzou os braços sob a cabeça e ficou a admirar o céu.

Parecia-lhe que o céu, sem nuvens, estava mais estrelado do que de costume. Não era apenas sua impressão. O céu estava, realmente, mais iluminado. E aquela nova estrela estava maior e mais brilhante. Não tinha certeza se era, também, apenas impressão sua, mas somente começou a notar aquela estrela há alguns dias atrás. Era capaz de jurar que ela nunca estivera ali antes. Naquela noite, em especial, ela parecia estar maior e mais brilhante. Não era impressão sua não. Tinha certeza que o céu estava, realmente, mais iluminado e aquela nova estrela estava maior e mais brilhante.

Suas pálpebras começavam a pesar e naquele entorpecimento que antecede o sono vieram-lhe a mente as lembranças das primeiras horas do dia, quando se dirigiu, sozinho, ao posto de controle do Império para o tão anunciado recenseamento, atendendo ao decreto de César Augusto. As pessoas se aglomeravam e se espremiam, vindas de todas as pequenas vilas dos arredores de Belém. Os sons de suas vozes misturavam-se aos berros dos animais e as ordens dos recenseadores que tentavam, de todas as maneiras, organizar as filas. A sua frente estava um casal. A jovem esposa grávida, estava montada em um burrico conduzido pelo seu marido. Pareciam exaustos da viagem. Tentou adivinhar de onde vinham, mas somente quando o marido chegou diante do recenseador é que ficou sabendo que vinham da Galileia, da cidade de Nazaré. Alguém na fila o empurrou e Zedequias, sem querer, esbarrou no burrico. A jovem fitou-o e Zedequias pode observar a brancura do seu rosto, os olhos serenos, um sorriso cândido nos lábios e uma mecha de cabelos negros cobertos por um lenço de um azul muito suave. Zedequias responde-lhe ao sorriso, desculpou-se e pensou na sua própria esposa, recolhida no seu pequeno quarto, restabelecendo-se do difícil parto que sofreu, tendo aos braços o seu bebê doente. Não havia sido um bom parto. Seu filho nasceu com problemas gravíssimos. Ficava imóvel o tempo todo e não enxergava. O Prático que realizou o parto deu-lhe poucos dias de vida. Ao responder ao sorriso da jovem esposa montada no burrico, uma lágrima brotou nos olhos de Zedequias que desejou, em pensamento, que ela tivesse melhor sorte na sua hora.

Aos poucos seus olhos se fecharam e seus pensamentos se anuviaram. Adormeceu.

2

Acordou-se de sobressalto com seu ajudante gritando ao seu lado.

- Zedequias, acorde! Zedequias! Olhe a estrela, esta claridade.

Meio zonzo, Zedequias abriu os olhos e viu que os outros pastores corriam em direção ao pequeno monte. Olhou para o céu e notou uma claridade intensa como se já houvesse amanhecido. Então olhou a misteriosa estrela. Sua claridade era ofuscante e iluminava toda uma pequena elevação abaixo dela, para onde se dirigiam os pastores correndo.

Ainda entorpecido pela maneira súbita com que foi acordado, Zedequias levantou-se. Enquanto passava as mãos nos olhos, recomendou ao seu ajudante que ficasse ali e cuidasse das ovelhas até ele voltar. Depois  correu na direção dos demais pastores.

Chegando ao topo da pequena elevação Zedequias olhou ao redor e, à margem de um estreito caminho, a sua frente, divisou uma pequena gruta com um aglomerado de pastores na sua entrada. Uma claridade brilhante provinha do seu interior. Zedequias desceu apressadamente a pequena elevação tropeçando em alguns galhos secos e dirigiu-se, também, para a pequena gruta, cuja entrada estava praticamente obstruída pelos outros pastores que se acotovelavam para poderem enxergar o seu interior.

 Com algum esforço, Zedequias foi se introduzindo entre os outros pastores até que conseguiu ver o interior da gruta.

Então ele viu o motivo de toda aquela correria e alarde. No fundo da gruta encontrava-se uma pequena família. De costas para ele um homem sentado, tendo ao lado uma jovem deitada sobre uma manta. A moça ergueu a cabeça e sorriu para Zedequias. Então ele a reconheceu. Era a jovem grávida sobre o burrico que ele havia visto pela manhã do dia anterior, na fila do recenseamento. Zedequias respondeu ao sorriso. Abaixando os olhos viu um lindo bebê deitado em um berço improvisado coberto de palhas. Mais ao fundo alguns animais comiam indiferentes a toda aquela movimentação.

O homem de costas, que afagava o bebê, voltou-se. Reconhecendo Zedequias e notando sua curiosidade fez sinal para que ele se aproximasse. Zedequias ajoelhou-se diante daquela pequena família e sorriu para  os novos amigos. Depois voltou a olhar o infante. A criança, com os olhos muito arregalados, olhou fixamente para Zedequias. Então esboçou um breve sorriso enquanto mexia com as mãozinhas e pèzinhos.

3

O sol já estava alto quando Zedequias deixou a pequena gruta. Seu rosto resplandecia de uma felicidade que ele não conseguia compreender.

Chegando ao aprisco abraçou demoradamente o seu ajudante. Após passar-lhe algumas ordens, dirigiu-se, às pressas, para sua casa.

Pelo caminho ele ia pensando na maravilhosa cena que havia presenciado. Sentia no peito o desejo ardente de encontrar sua esposa, abraçá-la, contar-lhe sobre aquela experiência que havia passado. Ao mesmo tempo pensava no seu filho que, ao contrário daquele infante saudável que acabara de ver, jazia enfermo ao lado da mãe.

Ao chegar ao portão de sua pequena casa sua criada Lia veio recebê-lo esfuziante.

- Zedequias, venha ver com seus próprios olhos. Aconteceu um milagre, venha logo.

Sem entender o que se passava, Zedequias correu atrás de sua criada e parou diante de sua esposa. Deitada em sua cama ela sorria. Então, Zedequias notou que seu filho também sorria para ele enquanto lhe estendia os bracinhos.

Emocionado e sem acreditar no que estava acontecendo, tomou o bebê nos braços, ajoelhou-se ao lado da cama e abraçou sua esposa. Não pode conter a forte emoção e chorou. Chorou, chorou muito como nunca havia chorado. Enquanto apertava seu filho contra seu próprio peito, senti-lhe a vida palpitar nos seus movimentos desajeitados. Seu filhinho estava curado.

Então contou para Rute tudo o que havia lhe acontecido. Contou sobre a luminosidade do céu, sobre a nova estrela, como foi acordado abruptamente enquanto os outros pastores corriam e, finalmente, sobre o que viu e o que aconteceu no interior da gruta à beira da estrada.

Rute ouvia a tudo atentamente, sorrindo e chorando ao mesmo tempo.

- Quando eu me abaixei para melhor ver aquele lindo bebê... ele sorriu para mim. Uma alegria imensa tomou conta do meu coração e eu senti uma paz, uma felicidade que nunca havia sentido antes. Eu fiquei ali, imóvel e não senti as horas passarem. Parecia que o mundo a minha volta havia parado e somente ele e eu existíamos. Rute, ele não é um bebê como os outros. Ele estava envolto em uma luz brilhante que iluminava toda aquela pequena gruta. Aquele berço, coberto de palhas, parecia mais um berço de ouro.  Parecia-me que ele estava rodeado de dezenas, centenas... milhares de anjos. Não se ouvia um ruído naquela gruta. Num dado momento os animais que estavam no fundo da gruta se aproximaram e todos, sem exceção, deitaram-se ao seu redor como se já conhecessem aquela criança. Foi maravilhoso, Rute. Quando saí da gruta me sentia como se alguma coisa tivesse mudado dentro de mim. Senti uma vontade imensa de abraçar a todos que encontrasse e contar-lhes sobre o que eu tinha presenciado. Queria que todos vissem e sentissem o que eu estava sentindo. Queria encontrar você, nosso filho e abraça-los. Rute, aquela criança é especial.

Lia, pensativa, ouvia atentamente as palavras do seu senhor. Então Zedequias estendeu o braço e chamou-a para junto de si, Rute e do pequeno Jonas.

Permaneceram, os quatro, abraçados e em silêncio por um longo tempo.

Então, ainda sob forte emoção, Zedequias fechou os olhos. Enquanto afagava sua querida esposa e seu filho, lembrou-se das antigas histórias que seu avô, e depois seu pai, lhe contavam. Histórias sobre uma criança muito especial que nasceria entre seu povo, com a missão única de apaziguar os homens, ensinado a todos a se amarem mutuamente. Curaria enfermos e traria sobre si próprio todos os sofrimentos dos homens.

Então, em um esforço de memória lembrou de uma frase que seu pai sempre repetia quando contava estas histórias, dita por um antigo profeta chamado Isaias:

“Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da paz.”

FIM