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RÁDIO DIGITAL
UMA OUTRA OPÇÃO NÃO SERIA POSSÍVEL? (II)

HIGINO ÍTALO GERMANI - Engenheiro Eletrônico* - 29/11/2007

Em fevereiro de 2005, escrevemos um artigo (veja aqui) com o mesmo título acima. Passaram-se mais de dois anos e não vislumbramos no horizonte uma perspectiva de solução que satisfaça todos os aspectos da questão.

Ao contrário: aspectos, que antes haviam sido ignorados, assumiram grande importância, tornando a questão cada vez mais complexa.

Nesta nova abordagem, tentaremos considerar estes novos aspectos. 

A primeira pergunta que nos vem à mente é a seguinte:

Por que digitalizar ?

A transmissão digital dos sinais de áudio apresenta, dentre outras, duas grandes vantagens:

  1. eliminação do ruído radioelétrico na recepção;
  1. possibilidade de transmissão de mais informação (textos, mensagens, dados e outras informações complementares, juntamente com um ou mais sinais de áudio de alta fidelidade).

A eliminação do ruído será significativa quando da transmissão de música.

A transmissão de mais informação (ou mesmo multiprogramação) dependerá da largura de banda disponível.

Aqui já nos deparamos com dois pontos fundamentais:

- Com a evolução da “Radiodifusão” para “Radioinformação” e diante da abundância de meios existentes (e acessíveis) para se ouvir música de alta qualidade, a transmissão de músicas ocupa, no Rádio atual, um plano secundário.

- A transmissão de mais informação exige mais banda, o que implica em sérias dificuldades para os sistemas “in band”.

Desde os primórdios do Rádio Digital que se pesquisa em sistemas “in band”. Esta orientação deve-se, fundamentalmente, à inexistência de opção em termos de faixas disponíveis para colocar o Rádio Digital. 

Todavia, como já nos manifestamos no artigo anterior, não vemos como os reais benefícios da digitalização podem ser integralmente explorados nos sistemas “in band”, em especial na faixa de Ondas Médias.

Sem querer ser repetitivo e radical, ratificamos nossa posição de que consideramos a faixa de Ondas Médias absolutamente superada e inviável de ser utilizada pelo Rádio Digital. Os argumentos são abundantes:

- Propagação diurna dependente da condutividade do solo (cada vez menor devido à crescente urbanização);

- Propagação noturna extremamente variável (dependente do horário, atividade solar, estação do ano, etc.) que gera interferências a grandes distâncias;

- Ruído radioelétrico crescente (medidas mostram que chega a subir 1,0 dB ao ano).

Estes fatores exigem, para a manutenção da cobertura, o uso de potências cada vez maiores o que encontra obstáculos intransponíveis diante da saturação da faixa. A inserção de sinais digitais neste contexto resultaria em aumento do nível (já elevado) de interferências mútuas.

A opção “in band” somente seria válida se, efetivamente, não se tivesse mais nenhuma outra opção em termos de faixa. Todavia, apesar de mais complexa, a digitalização da Televisão está ocorrendo antes do Rádio, o que vem a tornar possível a criação de uma faixa exclusiva para o Rádio Digital diante da vacância de canais de TV na faixa de VHF.

As vantagens da criação de uma faixa exclusiva para o Rádio Digital são :

- nenhum conflito com a Radiodifusão atual (analógica);

- possibilidade de significativa redução do atraso (delay) na reprodução dos sinais digitais em decorrência do uso de banda mais ampla;

- possibilidade de efetiva e total exploração dos recursos da digitalização através da transmissão de mais de uma programação, telecomandos, dados, etc.

Qual seria a dificuldade maior desta opção ?

Na produção de receptores.

A digitalização possui múltiplas facetas sendo que cada uma apresenta dificuldades extras. A questão da recepção é um ponto crítico o qual não está sendo suficientemente  abordado, senão vejamos :

- somente será viável a implantação de um sistema digital que esteja alicerçado numa produção de receptores em alta escala (dezenas de milhões de unidades);

- a alta produção proporcionará uma economia de escala que tornará o preço acessível;

- a alta produção exige que vários países adotem o mesmo sistema caso contrário nenhuma grande empresa investirá o capital necessário em uma produção limitada de receptores.

O receptor deverá ter características muito especiais:

- possibilidade de decodificar vários sinais e não apenas o sinal de áudio principal;

- portabilidade (reduzido peso e tamanho);

- atraso “tolerável” na decodificação (o delay atual dos sistemas “in band” inviabiliza o uso do receptor em eventos “ao vivo”, esportes em especial);

- baixo consumo de energia que viabilize a portabilidade (o decodificador consome uma energia adicional a qual, na atualidade, inviabiliza os rádios portáteis, colocando sob risco o futuro da digitalização).

Diante deste quadro, constatamos que, antes de se decidir a respeito de qual sistema adotar tem-se que fazer uma avaliação da viabilidade industrial e comercial da digitalização do Rádio, pois vivemos na era das grandes possibilidades técnicas e das grandes inviabilidades econômicas.

Se for feito um levantamento da realidade econômica das emissoras de AM e FM no Brasil, constataremos que a esmagadora maioria não possui nenhuma capacidade de investimento para fazer frente aos custos da digitalização e não pode repassar estes custos para os anunciantes.

Tradicionalmente, o meio Rádio no Brasil não se distingue pelo arrojo empresarial ou pela busca da excelência. A grande maioria das emissoras opera com grandes deficiências técnicas e, para a digitalização seria necessária uma grande mudança de paradigma no meio. Experiências fracassadas no passado (AM Estéreo, por exemplo) e falta de iniciativa e criatividade (uso dos canais secundários das atuais FM’s) nos fazem ter uma perspectiva pessimista com relação ao futuro, pois o momento histórico não é favorável.

“Tecnologia avançada aplicada a uma operação eficiente, aumenta a eficiência. Tecnologia avançada aplicada a uma operação ineficiente, aumenta a ineficiência”. (Bil Gates)  

Diante de tantas pressões para decisões açodadas e grandes interesses comerciais envolvidos, cabe ao Governo Federal a tarefa de defender os interesses das emissoras e do público, pois o que for decidido agora terá repercussão e conseqüências por décadas. Deve, portanto, por um “pé no freio” no assunto e passar a olhar a questão de forma mais ampla.

A missão mais importante do Governo seria, ao nível de OEA, CITEL, etc., mobilizar todas as nações da América do Sul (ou pelo menos as que tem fronteira com o Brasil), a padronizarem o Rádio Digital, o que viabilizaria a produção de receptores em larga escala e de baixo custo para todos.

Como a TV Digital também está sendo implantada nas demais nações, a adoção de uma mesma faixa de VHF para o Rádio Digital por todas não é nenhum sonho impossível. O tempo necessário para estas negociações provavelmente coincidirá com o cronograma de implantação da TV Digital e com a gradual liberação das faixas de interesse.   

Decidir agora, de imediato, qual o sistema a ser adotado irá comprometer todo o futuro do Rádio Digital. Se desejarmos efetivamente criar uma NOVA RADIODIFUSÃO é necessário e indispensável que o seja em nova faixa e com possibilidades plenas de exploração do serviço. No outro extremo da digitalização, temos que pensar no receptor para a viabilidade do qual o sistema não é decisivo, mas sim a dimensão do mercado. Para tanto, a participação da área diplomática das nações será fundamental.

nov/07.


* HIGINO ÍTALO GERMANI - Engenheiro Eletrônico. Exerceu atividades profissionais no Departamento Nacional de Telecomunicações-DENTEL e na Diretoria Técnica da Rádio Nacional de Brasília -atual Radiobrás. Projetou e implantou a TV Guaíba e Rádio Guaíba FM de Porto Alegre. Em 1991 assumiu a Diretoria Técnica da TV Educativa, cargo que voltou a ocupar em 2005. Projetou e implantou o primeiro sistema radiovias do país - BR 290. Fez parte do Conselho Técnico da ABERT e AGERT.