Informação: Comunique-se - 26/11/2007
Antonio Brasil (*)
Faltam só seis dias para a estréia da TV digital no Brasil. Na mesma data também deve ser inaugurada a rede de TV pública do Brasil. Pelo jeito, o governo tem muita pressa para aproveitar a onda de novidades digitais. E isso certamente não é mera coincidência. Há um clima de muitas expectativas onde predominam as promessas e incertezas. Muitas promessas e ainda mais incertezas.
Pela Medida Provisória assinada pelo presidente Lula, a Empresa Brasil de Comunicação, responsável pela gestão da TV Brasil, será uma empresa pública vinculada à Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, com a finalidade de prestar serviços de radiodifusão pública para "complementar os sistemas privado, público e estatal".
O documento também estabelece que a EBC terá "autonomia em relação ao governo federal" e que seus recursos sairão de dotações orçamentárias, da exploração dos serviços de radiodifusão, de doações de pessoas físicas ou jurídicas, de publicidade institucional e de outras fontes. Promessas de autonomia financeira e independência na produção de conteúdo. Grandes promessas.
Só depois da CPMF
O problema é que essas “promessas” contidas na Media Provisória do governo precisam ser aprovadas no congresso para deixarem de serem “provisórias”. Mas considerando a recente derrota da proposta de um Ministério do Futuro e as atuais dificuldades para a renovação da CPMF, pode-se dizer que a TV Brasil corre o sério risco de “cair do telhado”. No alto telhado, já está há muito tempo.
A oposição garante que vai bloquear mais esse mega projeto do governo. Pelo jeito, eles não acreditaram nas “promessas” da TV Brasil.
Segundo O Globo deste sábado, “PSDB encerra convenção e anuncia que vai contestar na Câmara a criação da TV pública. Um dos novos alvos do partido será a Empresa Brasileira de Comunicação (EBC). A Medida Provisória que criou a TV pública terá que ser votada na Câmara semana que vem. O PSDB acusa Lula de criar um instrumento de manipulação”.
Por outro lado, Tereza Cruvinel, diretora- presidente da EBC, é mais otimista. Ela acredita que a Medida Provisória que cria a TV Brasil será aprovada pelo Congresso Nacional, logo após a votação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira. “Tenho conversado com os parlamentares e já senti muitas mudanças, pois muitas pessoas não compreendiam o projeto de televisão pública. A diferença é que ela não está sob o controle do governo em sua gestão de comunicação. Ela deve prestar contas ao governo dos recursos públicos que recebe, mas do ponto de vista de sua programação, linha editorial e política de conteúdo estará subordinada ao Conselho Curador, composto majoritariamente por representantes da sociedade civil”, afirmou Cruvinel.
Parece claro e fácil. Mas será mesmo? Como serão indicados os membros desse conselho curador? Como foram selecionados os atuais diretores da EBC e da TV Brasil? Teriam sido indicados pelo “governo” ou pela sociedade”? Pouco tempo e muitas dúvidas no ar.
A gestão de uma televisão pública é algo muito delicado. Há uma grande diferença entre as promessas de uma TV estatal, uma TV partidária ou do governo, e a realidade de uma TV pública de verdade. Um projeto público demanda a participação intensa da sociedade e excelência da programação. Como diz o crítico Gabriel Priolli, “O modelo tem de ser muito bom, para que, grosso modo, resulte numa BBC, e não numa RAI tupiniquim”.
Além disso, acrescento: Será que o tal “público” realmente quer ou precisa de uma TV pública? Entre tantas outras, essa seria uma prioridade tão urgente da sociedade brasileira?
Telejornais piores?
Para conferir, esta semana fui ouvir as “promessas” do Orlando Senna, diretor-geral da TV Brasil, durante os Encontros do Festival Internacional de TV. Foram muitas promessas. A TV Brasil será uma rede completamente diferente. Haverá de tudo. Até experimentação de linguagens audiovisuais com muitas inovações.
Mas perguntado sobre os riscos de um jornalismo chapa-branca, Orlando Senna fez questão de garantir a qualidade e independência da TV Brasil. Ele foi taxativo: “o nosso jornalismo não será chapa-branca”. Mais uma promessa.
O problema é que os programas jornalísticos e os telejornais da TV Brasil serão produzidos pela… Radiobrás. Aquela empresa estatal que produz a famigerada Voz do Brasil. Mera coincidência? Claro que não. Jornalismo, principalmente em tempos de eleições, é sensível ou perigoso demais para ser deixado nas mãos das experiências de independentes ou da tal “sociedade”. Aos independentes, estão reservados espaços menos “problemáticos” como programas de entretenimento, documentários ou ficção.
Está decidido. O telejornal da TV Brasil será produzido pela Radiobrás e estamos conversados. A inovação e experimentação ficam para outras áreas. Pelo menos, uma certeza. Afinal, jornalismo de TV no Brasil ganha ou perde eleições.
Assim como as promessas da televisão digital, será que essa tal TV Brasil é realmente “pra valer” ou mais um mero projeto de marketing político? Muitas promessas e ainda mais dúvidas.
E como já dizia o velho Boni, “no Brasil fazem as coisas na ordem inversa. Em vez de se discutir primeiro o negócio, começou-se a discutir a tecnologia. Pode-se melhorar o som e a imagem, mas a programação vai ser a mesma”.
Será mesmo? E os telejornais? Pelo jeito, eles não serão os mesmos. Podem ser piores. No ar, a Voz do Brasil Digital.
(*) É jornalista, professor de jornalismo da UERJ e professor visitante da Rutgers, The State University of New Jersey. Fez mestrado em Antropologia pela London School of Economics, doutorado em Ciência da Informação pela UFRJ e pós-doutorado em Novas Tecnologias na Rutgers University. Trabalhou no escritório da TV Globo em Londres e foi correspondente na América Latina para as agências internacionais de notícias para TV, UPITN e WTN. Autor de diversos livros, a destacar "Telejornalismo, Internet e Guerrilha Tecnológica" e "O Poder das Imagens". É torcedor do Flamengo e não tem vergonha de dizer que adora televisão.
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