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Festival internacional discute o futuro da TV brasileira.

Informação: Comunique-se - 27/11/2006

Antonio Brasil (*)

Gostar de televisão é como gostar de uma pessoa. A gente descobre as qualidades, aceita os defeitos e até acredita nas suas mentiras. Há muitos anos vivemos a ilusão de que a televisão brasileira é excelente, uma das melhores do mundo. Não é verdade. Trata-se de mais uma dessas mentiras convenientes que adoramos acreditar. Quem tem a oportunidade de pesquisar, ver bons programas produzidos por diversas TVs do mundo,  sabe que a nossa televisão é muito limitada. Em geral, estamos entorpecidos pelas  mentiras oficiais e por uma programação medíocre que insiste em mesmices e baixarias.

Estamos preocupados com o destino mais do que previsível e anunciado da Ana Paula Padrão e testemunhando outra série de trapalhadas de ministro das comunicações em defesa dos monopólios televisivos (ver aqui Costa tentará barrar projeto de TV da empresa ). Em verdade, pouco ou quase nada fazemos para exigir qualidade e diversidade no nosso principal meio de comunicação.

Nem sequer sabemos muito bem o que é qualidade na TV. Defendemos a produção televisiva brasileira porque o  meio hegemônico de comunicação se encarrega de nos convencer dessa mentira televisiva: a melhor TV do mundo. Muitas vezes, importamos o pior da produção mundial para reafirmar a nossa primazia de qualidade. Ademais, uma das principais razoes que sustentam essa ilusão televisiva é porque não temos acesso regular aos bons programas internacionais. O monopólio da televisão brasileira odeia competição.

Festival dos Festivais
Para tentar remediar esse cenário, profissionais, pensadores de televisão brasileiros e internacionais, além de um bom público de estudantes e telespectadores insatisfeitos se reuniram no Rio de Janeiro na semana passada para pensar uma nova TV e assistir a mais de 200 programas de cerca de 40 países. O Festival Internacional de TV, encontro promovido pelo Instituto de Estudos de TV do jornalista Nelson Hoineff foi uma ótima oportunidade para buscarmos novos caminhos e constatarmos como a nossa televisão é ruim.

Um dos módulos mais importantes da mostra é o Festival dos Festivais que apresenta os melhores programas premiados nos principais festivais internacionais de TV como o Banff do Canadá, Shanghai na China e FIPA na França. Dentre os selecionados e premiados para a mostra não constava nenhum programa brasileiro. Faz sentido.

Nossa produção televisiva reflete a situação econômica e cultural do país. Ainda estamos em estado de choque, inertes com as nossas próprias mazelas. Preferimos formar alianças para não mudar nada.

As únicas novidades nas nossas grades de programação televisiva – tanto nas TVs abertas como por assinatura - são as baixarias dos pastores ou os leilões de tapetes, bois e anéis. No mais, é sempre a repetição de fórmulas falidas com estrelas decadentes. Insistimos nas péssimas novelas de sempre porque é sempre mais cômodo e lucrativo apostar na inércia do público.

Em outros países é diferente. O público insatisfeito exige bons programas, mas está disposto a pagar de alguma forma por eles.
Aproveito para destacar um dos melhores programas do festival, a série 21 Up América.

Baseado em uma série Britânica de muito sucesso, 21 Up América é a terceira de uma série de viagens pelos EUA retratando a vida de jovens que foram inicialmente filmados aos 7 anos de idade. O diretor de filmes Michael Apted começou a série 7UP no Reino Unido durante a década de 60.
Em 1991, a Granada acreditou nos riscos de um projeto a longo prazo e investiu pesado na série. Os produtores filmaram crianças de 7 anos de idade de diversas raças, culturas e classes econômicas. A série faz um retrato dos EUA através do olhar crítico de suas crianças. Os mesmos produtores retornaram 7 anos mais tarde para 14UP, e em 2005, filmaram a terceira parte.

21UPAmérica é um programa de TV sério, instigante e bem-humorado. Em vez de fazer as mesmas novelas de sempre, produtores independentes procuraram revelar os dramas do dia-a-dia de jovens diante dos desafios da adolescência e da vida adulta. A série tenta desvendar o que a vida aguarda para essas crianças agora que tem 21 anos. A maioria já teve grandes experiências de vida. Um teve colapso nervosa, outro um bebê, dois estão prestes a casar, e um deles está na prisão.

Suas mudanças, suas vidas, ansiedades e frustrações refletem melhor do que muitas reportagens ou pesquisas acadêmicas, a verdadeira situação dos EUA nos últimos anos.  Trata-se de um bom exemplo de televisão levada a sério.
Algo parecido no Brasil seria genial, mas impensável. Preferimos investir nas certezas do próximo Big Brother Bial.

Novas Plataformas
Durante um dos módulos do Festival, o V Encontro Internacional de TV, participei da mesa sobre novas plataformas com o jornalista e diretor da AllTV Alberto Luchetti. Creio que fizemos uma boa dupla. Falamos das novidades e oportunidades criadas pelas TVs na Internet.

Procurei concentrar a minha apresentação nas inovações e desafios dos novos sites de conteúdo de vídeos como o YouTube ou MySpace. Uma parte considerável do público se rebela contra o “emburrecimento” diante da TV e migra para a Internet. Eles não aceitam ser mera audiência e querem produzir conteúdo. “Se a TV tradicional não reagir, não sobrevive os próximos 10 anos”, declara o pensador italiano Umberto Eco. A televisão do futuro deve se tornar um portal de opções que valorize a escolha do público. É preciso investir em novas linguagens e conteúdos. Se continuar insistindo na produção de baixarias, mesmices, acreditando no poder divino da comunicação de massa, vai se tornar meio obsoleto ou curiosidade saudosista restrita a alguns velhos acomodados. Aqueles que adoram ver as mesmas novelas de sempre.

Para Nelson Hoineff, idealizador do festival, “o reconhecimento da capacidade de inovar está na base da construção de uma televisão mais nobre e arrojada. O objetivo do Festival é extrair da televisão o que ela pode ter de grandiosa”.

Nossa televisão está no fundo do poço, mas ainda conta com bons recursos e excelentes profissionais. Precisa ter o direito de ousar e errar. Talvez o slogan do Festival Internacional de Televisão 2006 indique esperança ou ameaça: “Você vai se surpreender com o que a televisão é capaz de fazer”.

(*) É jornalista, professor de jornalismo da UERJ e professor visitante da Rutgers, The State University of New Jersey. Fez mestrado em Antropologia pela London School of Economics, doutorado em Ciência da Informação pela UFRJ e pós-doutorado em Novas Tecnologias na Rutgers University. Trabalhou no escritório da TV Globo em Londres e foi correspondente na América Latina para as agências internacionais de notícias para TV, UPITN e WTN. Autor de diversos livros, a destacar "Telejornalismo, Internet e Guerrilha Tecnológica" e "O Poder das Imagens". É torcedor do Flamengo e não tem vergonha de dizer que adora televisão.