Informação: Comunique-se - 24/11/2006
Da Redação
A morte da modelo Ana Carolina Reston, decorrente de complicações de uma anorexia, colocou a doença em evidência na mídia. Subitamente o problema foi redescoberto pela imprensa nacional e Ana Carolina estampou as capas das três semanais de maior circulação do país – Veja, IstoÉ e Época –, fato que não ocorria desde que Paulo Coelho lançou seu “O Zahir”, em 2005. Mas decorre que a mesma mídia que euforicamente passou a atentar para o problema é uma das engrenagens que produz, difunde e sustenta um padrão de beleza inalcançável para boa parte da população.
Um dos sintomas da complexidade deste problema é apresentado por Renata Leão, redatora-chefe da TPM. Renata conta como a revista buscou fazer uma edição sobre moda com pessoas "normais" no lugar de modelos. “Foi um problema arrumar fotógrafo, produtora... Ninguém queria fazer, visualmente não fica bom, as assessorias de imprensa das marcas não querem mandar roupas. Só mandam peças manequim 34, virou uma indústria da anorexia”, disse. O caso rendeu até um desabafo editorial nas páginas da revista.
A TPM, irmã da Trip, possuí uma preocupação editorial única no mercado brasileiro no que tange beleza e estética feminina. A revista, que está no número 61, adota uma postura de não oferecer fórmulas prontas para modelar o corpo de suas leitoras e de não ostentar fotos de mulheres com Índice de Massa Corporal (IMC) - uma relação entre altura e peso - menor do que 20, o que já pode ser considerado magro. “As matérias mais legais, que concorreram a prêmios e que foram as mais comentadas da história da revista são as sobre 'imagem não é tudo'”, apontou a redatora-chefe.
Renata também antecipou que a próxima edição da revista vai abordar a questão da auto-estima e da imagem que as mulheres tem de si mesmas. Segundo ela, um estudo apontou que a enorme maioria das mulheres possui algum nível de distúrbio de imagem, doença que faz com que se tenha uma visão irreal de si mesmo e que, em casos extremos, podem acarretar anorexia e bulimia. “Isso é muita culpa da mídia. Você cresce e é educado vendo pessoas lindas nas novelas, na televisão, nos outdoores, nas revistas e aí começa a olhar no espelho”, analisa.
Fitness, alimentação e beleza
A diretora de redação da revista Boa Forma, Cecília Reis, concorda que a mídia exerce influência na definição de um padrão de beleza, mas relativiza seu poder frente à ação das indústrias da moda, da publicidade, da alimentação, da dieta e da farmacêutica. Apontou também que a mídia impressa tem sim seu papel na definição de padrões de beleza, mas que a influência exercida pela televisão, principalmente por novelas, é muito maior. “A moda na novela é muito democrática, você tem a cafona, a grã-fina, a de estilo que veste roupas alternativas”, considerou, avaliando que atualmente diversas personagens carismáticas desses programas são interpretadas por atrizes fora de padrões olimpianos de beleza, muitas vezes com alguns quilos a mais.
Segundo ela, a linha editorial de sua revista está fundamentada em três pilares: fitness, alimentação e beleza, sempre com a preocupação de fazer suas leitoras se sentirem bem consigo mesmas. Cecília aponta que o padrão de beleza refletido nas páginas de Boa Forma não é o do universo da moda: “O padrão esquelético das modelos não serve para nossas leitoras, que têm um padrão brasileiro e querem ser bonitas e gostosas. Elas querem ter curvas e para isso é necessário gordura no corpo”. Prova disso, argumenta a diretora de redação, é que as poucas edições que apresentaram modelos em suas capas tiveram uma venda mais baixa do que as que apresentavam mulheres com formas mais voluptuosas.
Sobre dietas, Cecília aponta que sua revista tem uma proposta de oferecer planejamentos de longo prazo, com uma média de perda de 1kg por mês: “A gente conta para a leitora que se ela levou quatro anos pra juntar cinco quilos, não dá para querer perder isso em uma semana”, aponta. Apesar disso, reconhece que a revista publica sim dietas de emergências, com uma proposta de perder peso rapidamente e como “forma de estímulo” para as mulheres desenvolverem preocupação e disciplina estéticas.
Ela também afirma que sua revista não é contra cirurgias, mas sim contra seu uso exagerado. “Na fórmula da Boa Forma, a cirurgia entra como um recurso de arremate. A gente não acredita na transformação via cirurgia. Seios caem; você amamenta dois bebês e eles caem mesmo. Fazer um implante mamário, desde que não seja para uma forma artificial, para Boa Forma, tudo bem". No quesito cirurgia, Cecília aponta uma questão mais grave do que a preocupação com o peso: o envelhecimento. “Uma obsessão pior que a magreza é a de não querer ficar velhas nunca. Uma coisa é o padrão de beleza, outra é negar o envelhecimento”, avalia.
Questão global
Focado no universo adolescente, o programa Malhação, da Rede Globo talvez seja hoje a atração com maior ascendência sobre padrões de beleza e moda entre seu público alvo. Há 11 anos no ar, a atração é definida pelo site da Globo como "teledramaturgia voltada para o público jovem" e, segundo informa a Central Globo de Comunicação (CGCOM), que respondeu por email as perguntas enviadas pelo Comunique-se, é a atração campeã de cenas de conteúdo sócio-educativo dentre as novelas da emissora.
A mesma fonte assegura que o critério estético não entra em questão no processo de seleção dos artistas que realizam o programa, mas sim que seu foco é a adequação do ator/atriz ao perfil dos personagens. “A emissora não segmenta nem seu elenco, nem seu público por etnia, classe social, sexo ou religião”, complementa a CGCOM.
Sobre a influência que o programa e a Rede Globo exercem sobre a definição dos padrões de beleza, a emissora afirmou que “a televisão faz o papel de janela e espelho da sociedade, sendo influenciada por ela o tempo inteiro. Mas é importante lembrar que uma novela ou minissérie é uma obra de ficção e como tal deve ser tratada e entendida por todos. É grande a preocupação da TV Globo com o conteúdo do que exibe. Por isso, a emissora tem diretrizes e códigos internos que servem de balizadores para todas as suas equipes de criação e produção”.
O fator Photoshop
“Quando uma mulher folheia uma revista de moda hoje depara com um ideal feminino absurdamente irreal. As modelos dos anúncios e dos editoriais em fotos incrivelmente retocadas despertam na leitora um sentimento de incapacidade e insatisfação”, avalia Heloísa Marra, repórter de moda do Caderno Ela, de O Globo. Por outro lado, ela entende que essas publicações estão atuando cada vez mais com consciência em relação ao culto à beleza, uma vez que abordam também a necessidade de saúde conjugada com a estética.
Para Heloísa, são em suas as capas que as revistas oferecem maior resistência para adotar um padrão editorial realista, retocando e reconstruindo digitalmente rostos e corpos de suas modelos. “Recentemente entrevistei a Condessa d´Ornanos, dona da Sisley, a marca de cosméticos mais cara e luxuosa do mundo. Aos 70 anos, ela me disse que nunca fez plástica mas se surpreende ao ver sua foto nas revistas, onde aparece com o rosto liso, totalmente retocado. O próprio método de trabalho da mídia, apagando qualquer imperfeição da fotografia, colabora para a construção de um universo perigosamente distante da realidade”, avalia.
Glamourização do fashion
Em uma reação recente à “ditadura da magreza” no mundo da moda, a edição de Madri do Fashion Week, um dos maiores eventos do setor do mundo, deste ano proibiu o desfile de meninas com o IMC inferior à 18, com o objetivo de não influenciar modelos mais novas a seguir a tendência. Gisele Bundchen, por exemplo, não poderia desfilar no evento. Na edição parisiense, o estilista Jean Paul Gautier colocou uma modelo obesa para desfilar com uma peça sua, abordando novamente o tema. Segundo algumas análises, o ato foi para desmoralizar a decisão de Madri; segundo outras, seu objetivo foi ampliar o protesto. De qualquer forma, a discussão está lançada no meio.
“O perigo está na leitora acreditar nesse mundo [glamourizado pela mídia]”, diz Heloísa sobre a cobertura daquilo que envolve a moda. “Mas acho que ela está ficando esperta”, diz, lembrando da campanha publicitária da marca Dove que, ao lado de outras, como as da marca Natura, buscam valorizar a auto-estima e a beleza única de cada ser humano. A “Campanha pela Real Beleza”, da Dove, produziu o vídeo “Evolution”, onde expõe como a computação gráfica transforma uma mulher real, com imperfeições em sua aparência, numa modelo publicitária, plastificada e próxima do considerado perfeito. O vídeo finaliza com os dizeres “não é à toa que nossa percepção de beleza é distorcida. Toda mulher tem o direito de se sentir bela do jeito que ela é”.
“No terreno das modelos, o perigo está no stress de ter que corresponder a um padrão de medida ditado pelo quadril número 90. Nem todas têm esse biotipo e podem emagrecer demais sem alcancá-lo. Nesse caso, além da mídia, cabe à família e à agência [a responsabilidade de] alertar a profissional. Se pensarmos bem, a anorexia e a bulimia são reflexos dessa auto-estima aniquilada por um mundo hiper-perfeito, longe do que vivemos”, analisa e conclui Heloísa.
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