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TELEJORNALISMO SEM SAL.

Informação: Direto da Redação - 12/11/2006

Leila Cordeiro

O público está precisando de mais ação jornalística na TV, pois estamos em período de entressafra desde a derrota do Brasil na Copa. O brasileiro ficou órfão de emoção desde então e a audiência dos telejornais ficou mais fraca.

O telespectador, exigente, não agüenta a rotina diária. Prova disso são os números do Ibope que despencam quando a novela das oito está morna e sem movimentação dos personagens. Tanto que dois milhões de pessoas, segundo o Ibope, deixaram de assistir Páginas da Vida há mais ou menos um mês, quando a personagem Marta ficou mais “boazinha”.

No jornalismo também é assim. Depois do fiasco da seleção, veio uma nova safra de escândalos, o que já deixou de ser novidade, porque o telespectador que há muito tempo não acreditava nos políticos, está deixando também de acreditar na mídia. Com a chegada da eleição, esperava-se a volta de uma boa dose de emoção. Mas nem isso funcionou. O horário eleitoral foi “um breve” para a audiência. Para escapar do blá-blá-blá de sempre boa parte do público abandonou a tela da TV fugindo para a tela dos computadores.

É nos grandes eventos que as principais emissoras colocam em ação um desfile de alta tecnologia, desde sofisticados microfones sem fio até iluminação à base de filtros especiais que deixam qualquer um com pele de bebê. Nas mulheres, o figurino impecável e a maquiagem esmerada são o destaque, nos homens os ternos bem cortados combinando com gravatas modernas e coloridas.

Foi assim na cobertura das eleições. Na Globo, os ensaiados debates pareciam uma encenação de mais “um caso especial”. Ficou a impressão de que, após o show frente às câmeras, cada um dos participantes foi para casa com a sensação de ter representado bem seu papel como protagonistas de uma novela. Na Record, que teima em imitar a fórmula global que se mostra esgotada, apesar de cenários e figurinos irrepreensíveis, o conteúdo deixou a desejar exatamente por estar ainda mais ensaiado do que o original.

É claro que telejornalismo não é novela. Não se pode ter uma emoção diferente a cada edição, a não ser pelas próprias notícias. Mas ultimamente não se tem visto, no dia a dia, nada de novo na maioria dos telejornais. Parece que algumas emissoras acomodaram-se em seus formatos "consagrados" e estão oferecendo ao telespectador pouco mais do que um feijão com arroz de gosto duvidoso.

Hoje, a Band é que está mais perto da verdade em termos jornalísticos. Sem se preocupar muito com a fórmula global - carinhas sempre jovens, bonitinhas e bem penteadas -, ela vem priorizando o conteúdo. Suas notícias têm um tom mais analítico, graças à presença de apresentadores mais experientes que transmitem credibilidade ao comentar os fatos. A Globo, que “arriscou” ter em seus quadros por algum tempo o ex-guerrilheiro Franklin Martins, deu um passo atrás ao demiti-lo. Sem as amarras globais, Franklin agora está no lugar certo, com mais liberdade para opinar e entrevistar. Ele está mostrando sua verdadeira cara, sem ter que ensaiar as perguntas com apresentadores e entrevistados como fazia na antiga emissora.

Sei que não é fácil inventar formatos diferentes ou eventos emocionantes a cada dia. Mas alguma coisa nova podia ser feita para acabar com esse marasmo. Como acontece nos Estados Unidos, por que os nossos apresentadores não deixam suas bancadas e saem às ruas, para estar mais perto do público e da notícia? Mas é preciso ter espontaneidade para isso, não vale aquela coisa ensaiada e asséptica como costuma ser.

Talvez seja por isso que Ana Paula Padrão esteja querendo deixar o comando do SBT Brasil para voltar a fazer reportagens. Pode ser. Mas como na emissora de Silvio as mudanças acontecem de um dia para o outro, pode ser também que ela tenha entendido que as luzes do estúdio poderiam se apagar para ela a qualquer momento já que a audiência do seu telejornal, segundo as pesquisas, não passa de quatro pontos.

Sobre o autor: Começou como repórter na TV Aratu, em Salvador. Trabalhou depois nas TVs Globo, Manchete e na CBS Telenotícias Brasil, como repórter e âncora. É também artista plástica e tem dois livros publicados.