Informação: Direto da Redação - 06/11/2006
Eliakim Araujo
Quando o ex-âncora do Jornal da Record, Boris Casoy, foi afastado da emissora, no final do ano passsado, pouca gente se deu ao trabalho de questionar as razões pelas quais o patrocinador, Banco do Brasil, estava tirando o time de campo. Num ano eleitoral, era bem mais interessante acusar o governo de “censura”, de ter ”pedido a cabeça” do apresentador.
O próprio Boris desmente essa versão. Em entrevista ao site www.comunique-se.com.br, em 22 de março deste ano, ele fez questão de afirmar que meu contrato previa independência e a Record respeitou isso religiosamente. Perguntado se gozava de liberdade editorial na emissora do Bispo, Boris foi categórico nunca houve nenhuma interferência. No caso do dinheiro transportado de avião, pusemos tudo no ar. Eu errei ao tirar a manchete sobre o assunto. No Jornal da Record sempre tudo foi coberto com liberdade. Muitas vezes, reconheço que a Igreja Universal é vítima de preconceito.
Na mesma entrevista, mais adiante, Boris afirma que não há censura na mídia brasileira: há uma carga imensa de publicidade governamental, principalmente nos meios eletrônicos.Na minha opinião, os grandes jornais e revistas vivem a plenitude de sua liberdade, mesmo com problemas financeiros.
Ou seja, Boris nunca teve problemas de relacionamento pessoal ou editorial com a emissora e sua saída, pode-se deduzir de suas declarações, se deu por motivos meramente comerciais. Apesar do carisma e do prestígio profissional do jornalista, seu telejornal não vinha apresentando bons indices de audiência.
O problema é como distribuir entre os veículos essa “carga imensa de publicidade governamental”, como lembra Boris. O critério deveria ser eminentemente técnico-científico, conduzido por um profissional especializado em mídia. Na prática, entretanto, isso nunca funcionou. Privilegiam-se veículos de acordo com interesses politicos. Cortar verbas publicitárias de um veículo poderoso é temerário. Ele pode se voltar contra o governo e aí um deus-nos-acuda, lá vem a artilharia pesada.
Assim, a relação cliente/agência/veículo, sobretudo quando o cliente é o governo e suas empresas, pode tornar-se promíscua, com perigosos meandros que facilitam uma troca de interesses, caminho aberto para a corrupção.
A propósito desse assunto, leio no blog Conversa Afiada, de Paulo Henrique Amorim, que o governo está começando a mudar as regras desse jogo injusto. O governo tem poder de fogo para enfrentar e acabar com antigos privilégios na distribuição de suas verbas. PHA cita o caso da TV Globo, que tem 50 por cento de audiência e recebe 75 por cento de toda receita do mercado.
Algumas dessas regrinhas, tremendamente importantes por se tratarem de dinheiro público, são: 1) A verba do governo será distribuída segundo a audiência; 2) A Secretaria de Comunicação vai comprar toda a mídia de todos os órgãos do governo e, dessa maneira, vai conseguir negociar descontos muito maiores.
A democratização da mídia brasileira passa, sem dúvida, por uma distribuição mais justa das verbas publicitárias do governo. Privilegiar veículos ou jornalistas apenas porque gozam de prestígio politico não é a postura correta de um governo. O bolo deve ser repartido de maneira equânime e rigorosamente de acordo com a audiência.
Agora é torcer para que o governo Lula, através da SECOM, consiga ganhar essa difícil batalha contra os poderosos da mídia. Não vai ser fácil.
Sobre o autor: Ancorou o primeiro canal internacional de notícias em língua portuguesa, a CBS Brasil. Foi âncora dos Jornais da Globo, da Manchete e do SBT e noticiarista da Rádio JB. Tem uma empresa de assessoria em jornalismo e marketing.
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