Bruno Rodrigues (*)
A Rede nasceu para todos, mesmo quando pertencia a militares americanos, nos idos dos anos 60, ou era a menina dos olhos de um círculo fechado de universidades, no início dos anos 90.
A internet foi criada para escorrer pelos dedos de quem tenta impingir-lhe cabresto, regras rígidas ou limites. A Rede é de quem quiser acessá-la - simples assim.
Desde o início, contudo, a noção de quem faz a internet e a de quem a utiliza se mescla o tempo todo. Aqueles que produzem conteúdo estimulam a interação com o visitante, que influi de imediato no que é produzido na Rede.
Por conta deste ping-pong, serviços são aprimorados e informações ficam mais completas, e uma quantidade cada vez maior de ferramentas de interatividade entre os 'produtores' de web e seus 'consumidores' é criada.
É perigoso? Sob o ponto de vista do que o ser humano pode produzir de pior, pedófilos e neonazistas estão na web para nos provar que sim - mas este não é um privilégio da internet, bem sabemos.
Se não é esta a questão, qual o problema entre a diminuição entre a distância entre 'produtores' e 'consumidores' de web? O respeito pelo que é produzido.
Quem até ontem era apenas usuário da web, hoje produz conteúdo. O blog, só para citar um exemplo, deu chance - e poder - a qualquer um que queira produzir informação na Rede. É muito fácil criar um blog, e você passa de receptor e emissor em um segundo.
Outro exemplo é o podcast. Para criar um programa de rádio, não é mais preciso dominar uma tecnologia até pouco tempo complexa. Basta um microfone na mão, uma idéia na cabeça e um software de edição no computador. E faz-se ouvir a voz do internauta.
O jornalismo, agora, é participativo, é 'cidadão'. Os veículos estão de portas abertas à persona jornalista dos usuários web sempre que ele tiver uma boa 'pauta' ou, no mínimo, um fato noticioso ao alcance dos olhos. É como uma 'Associação Mundial de Repórteres Amadores', sempre a postos.
Calma. Não levanto aqui uma bandeira para cercear a criação de blogs, podcasts ou um cidadão que testemunhe um fato noticioso. Como eu bem disse, a alma da web é seu usuário, e muito do que a Rede é hoje se deve justamente à 'simbiose' entre 'criador' e 'criatura'. Ganhamos com a interação com a web, e ela conosco - ponto pacífico.
Nós perdemos, sim, é com o descaso com o que é produzido na Rede.
Não se pode exigir que um adolescente mantenha atualizado um blog, mas não é de se esperar que um executivo, um consultor ou uma empresa o faça? A quantidade de blogs que é lançada a cada mês é absurda. Já ultrapassamos a casa dos 50 milhões de blogs há muito, e a luz de emergência já acendeu: a chamada 'blogosfera' corre o risco de se transformar em cemitério de informações em pouquíssimo tempo. Para quem acha blog 'besteira', 'coisa de adolescente', é um argumento contra e tanto. A situação dos blogs chega a envergonhar de tão constrangedora, e poucos ousam tocar no assunto.
O mesmo acontece com os podcasts. Eles são moda na internet desde que os mp3 players, como o iPod, popularizaram-se. Eu assino vários podcasts, e há meses percebo que grandes empresas que lançaram com estardalhaço seus podcasts, simplesmente os abandonaram na terceira ou quarta edição. Até conglomerados como a Disney, que tem na comunicação o seu foco e na mídia digital uma aposta, agora só produzem podcasts esporadicamente. Uma vergonha.
Quanto ao jornalismo 'cidadão', o que vejo é um material quase risível. No exterior, o 'repórter de casa' ainda é visto mais como uma experiência do que uma aposta. Já há casos em que a testemunha da notícia contribuiu muito mais para o jornalismo do que o 'Le Monde' ou o 'The New York Times' - mas ainda é exceção. Sou um grande defensor do jornalismo colaborativo, mas sempre coloco a mão na testa quando um veículo como o 'Globo Online' abre espaço em seu 'Eu, Repórter' para uma 'matéria' sobre o verão no Canadá, um galeria de fotos sobre o Jardim Botânico do Rio ou dá destaque à 'testemunha ocular'... de um acidente de trânsito!
Mais respeito com a internet. Ela ainda se sustenta em bases frágeis, por mais que tenha conquistado a mídia, corações & mentes. Há seis anos, o 'estouro da bolha' por pouco não a reduziu a cinzas, e essa não foi, nem será, a única crise.
A grande lição, após uma década de web, é que a Rede é um espelho do que somos. Se não quisermos ver refletida, sempre, a imagem de um adolescente desleixado no espelho, esta é a hora de amadurecer.
(*) É autor do primeiro livro em português e terceiro no mundo sobre conteúdo online, "Webwriting - Pensando o texto para mídia digital". Ministra treinamentos e presta consultoria em Webwriting e Arquitetura da Informação no Brasil e no exterior. Em seis anos, seus cursos formaram 1.200 alunos. Desde 1997, é coordenador da equipe de informação do website Petrobras, um dos maiores da internet brasileira, com 4.000 páginas em português e versões em inglês e espanhol e é citado no verbete 'Webwriting' do 'Dicionário de Comunicação' (Editora Objetiva, 2001), há três décadas uma das principais referências na área de Comunicação Social no Brasil.