Destaques

A TV brasileira no segundo governo lula.

Informação: Comunique-se - 30/10/2006

Antonio Brasil (*)

O presidente Lula foi reeleito pela grande maioria dos brasileiros. Mais uma vez, os brasileiros demonstraram que preferem evitar “mudanças”. É a velha teoria, produto de muitos anos de crises e decepções com o novo: “Está ruim, mas pode ficar pior”.

Para variar, a televisão brasileira teve um papel fundamental nas campanhas eleitorais. Quem soube fazer TV com um mínimo de competência foi eleito. Televisão no Brasil é mais importante do que a maioria das nossas instituições políticas. Televisão no Brasil é mais poderosa do que qualquer partido político. A TV não elege. Mas, no Brasil,  influencia a opinião pública e pode “derrubar” presidentes.

Até aí, tudo bem. O problema é que no Brasil, a TV se confunde com uma única empresa. a Rede Globo. Ela não elege presidente. Mas nesses últimos dias, na virada do primeiro turno, deu uma demonstração inquestionável da sua força. No momento, está meio adormecida, mas não está morta. Ainda digere as vantagens e os privilégios obtidos com a “providencial” decisão do governo Lula pela implantação de um sistema de TV digital no últimos dia do seu primeiro mandato.

Pode ser mera coincidência. Mas essa decisão “política”no apagar das luzes de um governo em crise, também pode ter sido mera coincidência ou até mesmo produto de negociações secretas. O tempo, a história ou o jornalismo investigativo se encarregará de revelar a verdade. Afinal, o que não falta nesse governo, são vazamentos de informações de “inteligência” consideradas estratégicas e confidenciais. Tem muitos “meninos aloprados” soltos por aí tentando ajudar o governo a governar. 

E a TV brasileira? Como será no próximo governo Lula? Quem será o próximo todo poderoso ministro das comunicações que terá como tarefa implantar a TV digital no país?

Creio que o ministro Hélio Costa já está em campanha para permanecer no cargo. Normalmente, os assessores do ministro ligam para “criticar” a crítica.  Já estou acostumado. Mas, esta semana, Hélio Costa, experiente jornalista e na velha tradição dos políticos mineiros, fez questão de ligar para o “crítico” pessoalmente.

Reuniões e decisões
Se eu entendi bem, ele ligou para dizer que não gostou do último artigo desta coluna onde o Boni “critica”  a implantação da TV digital brasileira. Sobre a questão mais importante das reclamações do Boni, que declarou durante a sua palestra na UniverCidade que os empresários do setor não teriam sido ouvidos pelo governo, Hélio Costa citou um número impressionante de reuniões que foram organizadas pelo ministério das Comunicações para “ouvir” todas as partes envolvidas.

Na oportunidade, relembrei ao ministro, que o próprio Boni em seus tempos de “superintendete” da TV Globo costumava dizer (ou assim diz a lenda) que “toda a vez que você não quiser tomar uma decisão, convoque uma reunião”. É a nossa velha e tradicional tendência da administração brasileira para formar grupos de trabalho ou comissões executivas e no final do processo, uma única pessoa, muito poderosa e apoiada por grupos ainda mais poderosos, acaba decidindo tudo sozinho mesmo.
Hélio Costa discorda. Diz que a decisão pela implantação de um sistema híbrido japonês e brasileiro, ou seja, único para o Brasil, foi democrática. Todos foram ouvidos e a maioria apoiou a decisão do governo Lula.

“Passa lá em casa”
Para comprovar, o ministro fez questão de me convidar para uma visita ao seu gabinete em Brasília. Conheço Hélio Costa há muitos anos. Somos velhos colegas. Trabalhamos na implantação dos escritórios da Globo em Nova Iorque e em Londres no final dos anos 70. O político Hélio Costa sabe como lidar com os jornalistas. No telefone, foi cordial, “quase”simpático. Fez questão de citar muitos dados, demonstrou segurança e insistia que a decisão da TV digital brasileira não teria sido feita de forma “apressada” ou para beneficiar determinado grupo econômico. Mais uma vez, reiterou o “convite” para conversarmos pessoalmente.

Lidar com jornalistas quase sempre é muito bom.  Mas não é tão fácil lidar com políticos. Políticos jornalistas devem ser ainda mais difíceis. Eles conhecem os segredos da nossa profissão. E nem todos os jornalistas conhecem os segredos da política.

No dia seguinte, liguei para a assessoria do ministro. Queria saber se o tal convite era “pra valer”, se era conversa de político em campanha para permanecer no cargo de ministro das comunicações, ou se era daqueles convites bem brasileiros no estilo “passa lá em casa”. Esses convites não acompanhados de dia e hora, normalmente significam um mero cumprimento e não um compromisso. Os pobres estrangeiros que visitam nosso país costumam ficar muito confusos como esse convite “passa lá em casa”.

Pergunte ao ministro
Estava disposto a ir do Rio à Brasília para “conversar” sobre TV digital com  o ministro. Por motivos éticos, faço sempre questão de pagar todas as minhas despesas quando recebo esse tipo de “convite”.

A assessoria do ministro Hélio Costa, como sempre, foi muito gentil. Mas, infelizmente, e para minha surpresa, fui informado que o ministro não poderia me receber nesta segunda, terça ou sequer na quarta. O ministro estaria de viagem marcada para o exterior.

Pena. Acho que era um convite no gênero “passa lá em casa” mesmo. Mas vou continuar aguardando a oportunidade para conversar com o ministro Hélio Costa. Quem sabe? Também aproveito, para solicitar a colaboração dos nossos leitores. O que você gostaria de perguntar ao ministro das Comunicações Hélio Costa? Prometo repassar as perguntas. Um ministro das comunicações precisa se comunicar.

Afinal, com o apoio dos amigos e aliados certos, de ministro do governo Lula para o governo de Minas Gerais ou quem sabe, para a presidência da república, é só mais um passo de uma longa jornada.

(*) É jornalista, professor de jornalismo da UERJ e professor visitante da Rutgers, The State University of New Jersey. Fez mestrado em Antropologia pela London School of Economics, doutorado em Ciência da Informação pela UFRJ e pós-doutorado em Novas Tecnologias na Rutgers University. Trabalhou no escritório da TV Globo em Londres e foi correspondente na América Latina para as agências internacionais de notícias para TV, UPITN e WTN. Autor de diversos livros, a destacar "Telejornalismo, Internet e Guerrilha Tecnológica" e "O Poder das Imagens". É torcedor do Flamengo e não tem vergonha de dizer que adora televisão.