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Boni critica a TV digital brasileira.

Informação: Comunique-se - 23/10/2006

Antonio Brasil (*)

“A TV digital é uma imposição da industria de TV. É inevitável. Mas a sua implantação não é tão simples. Sou a favor de uma discussão do modelo de negócio. Os empresários brasileiros do setor deveriam ter sido consultados sobre o modelo de negócios para a TV digital brasileira. Serão investido mais de 2 bilhões de dólares com nenhuma vantagem para as TVs brasileiras e para o público. A televisão brasileira ficou engessada. Melhora o padrão da TV Globo. Estamos melhorando as condições da TV Globo. A Globo analógica será a mesma da TV Globo digital”. 

O velho Boni continua o mesmo. Com mais de 70 anos, ainda é a pessoa que mais conhece televisão no Brasil. Essa semana tive o privilégio de ouvi-lo no teatro lotado da UniverCidade aqui no Rio de Janeiro. Em uma noite chuvosa, valeu a pena ter esperado por mais de uma hora para o início da palestra. Foi uma verdadeira aula de TV. Na platéia gente que se interessa pelo futuro da nossa TV como grande diretor de TV Fernando Barbosa Lima e o apresentador de TV Roberto D’Avilla.

Você pode concordar ou discordar das opiniões, visões e previsões sobre a TV digital no Brasil do ex todo poderoso diretor da Globo. Mas Boni tem todas as credenciais para ser ouvido sobre o futuro da TV e da propaganda no Brasil. E pelo jeito, deixaram de consultá-lo sobre a implantação “apressada” da TV digital em nosso país.

Ironias e interatividade
Em sua palestra, Boni desmentiu algumas das previsões do ministro Hélio Costa: “Celular nunca vai pegar TV. O sistema digital adotado pelo Brasil anda não está concluído. Estamos criando um modelo híbrido com o MPEG-4 e o sistema digital japonês. É algo semelhante com o sistema a cores Pal M que criamos no passado. Um sistema digital brasileiro”.

Mas apesar das expectativas, Boni faz questão de dizer que no Brasil, o impacto da tv digital será muito menor do que foi a implantação da tv a cores: “O futuro não é digital. O futuro está no interior, na flexibilização das ações e na proximidade do público”.

 “Ninguém vai operar computador na TV e ninguém vai assistir TV no celular. TV é um ato coletivo. Computador é uma atitude solitária. TV no computador é só consulta. Interatividade pra quê? Há mais ficção do que realidade. Em vez de interatividade continuaremos tendo intervenção. O controle remoto é um instrumento de intervenção. Não há interatividade sem um meio de pagamento”. 

E o futuro?
Em defesa do futuro da TV, Boni foi categórico e apresentou dados de pesquisas recentes nos EUA: “Sincronia é TV. A web é assincronia. Mas os veículos não ficarão simplesmente isolados. Os meios de comunicação continuarão tendo as suas próprias identidades.

Mas a variação das verbas publicitárias entre a TV e as novas mídias nos próximos anos ainda é favorável à TV.” 

TVs por assinatura
Boni sempre foi um homem sério.  Nunca seguiu os passos e os excessos do seu colega de Globo, Walter Clark. Boni trabalhava muito enquanto Walter Clark aproveitava a vida e ficava cada vez mais famoso. Aos 70 e tantos anos, Boni ainda está por aqui, é sócio de uma rede de TV no interior de São Paulo, a TV Vanguarda.

Durante a sua palestra, em um raro e precioso momento de revisão histórica, Boni assumiu parte da culpa pelo fracasso das TVs por assinatura no Brasil: “Eu coloquei  quatro canais por assinatura no ar sem ter nenhum assinante. Eu também declarei logo no início das TVs por assinatura que elas não deveriam ter departamentos comerciais porque elas simplesmente não teriam comerciais”. Risadas gerais no auditório. “Eu errei. A TV a cabo no Brasil está saturada de comerciais. Mas elas não deveriam ter comerciais”.

 “O futuro da TV está na produção de conteúdos. Há dois modelos: segmentação versus formatos globalizados. Mas é preciso uma revisão urgente na idéia de segmentação na TV. A segmentação tende a ser reduzida. Deveria ser por faixa etária, sexo e poder aquisitivo”.

Sempre seguro e polemico, Boni diz que não é pessimista em relação ao futuro da TV e das novas mídias. Mas não perdeu a oportunidade para criticar o modelo atual. “O último programa de TV a fazer algo de novo nos EUA foi produzido pelo Bin Laden”. Mais risadas e aplausos.

Mas ele também faz questão de nos alertar sobre os riscos: “Vamos ter que conviver com idéias mais sérias. É difícil botar dinheiro numa mídia [Internet] que não conhece o seu target. Precisamos de avaliações mais precisas para garantir esses investimentos”.

Boa viagem!
E sobre a relação dos jovens de hoje com as novas mídias e a TV, Boni não poderia ser mais o velho Boni dos tempos da Globo: “Só temos uma certeza: um dia os jovens ficarão velhos”!

E para concluir, fez mais previsões sobre o futuro: “Vamos viver em um mundo de contradições e tensões onde o dinheiro não é jogado no lixo. Embarcamos em um veículo. Mas não sabemos para onde ele vai. Ninguém sabe onde fica o futuro. De qualquer maneira, desejo a todos uma boa viagem”.


(*) É jornalista, professor de jornalismo da UERJ e professor visitante da Rutgers, The State University of New Jersey. Fez mestrado em Antropologia pela London School of Economics, doutorado em Ciência da Informação pela UFRJ e pós-doutorado em Novas Tecnologias na Rutgers University. Trabalhou no escritório da TV Globo em Londres e foi correspondente na América Latina para as agências internacionais de notícias para TV, UPITN e WTN. Autor de diversos livros, a destacar "Telejornalismo, Internet e Guerrilha Tecnológica" e "O Poder das Imagens". É torcedor do Flamengo e não tem vergonha de dizer que adora televisão.