Informação: Direto da Redação - 21/10/2006
Roberto Porto
Há razoavelmente pouco tempo, apesar dos baixos salários de repórteres e comentaristas – mais daqueles do que destes – era uma boa trabalhar no rádio esportivo do Rio de Janeiro. O surgimento do Campeonato Nacional, em 1971, e mais tarde Brasileiro veio, digamos assim, dar um grande impulso à profissão de radialista. Por quê? Porque apesar de um clube grande – Vasco, Flamengo, Fluminense ou Botafogo – estar sempre no Maracanã, os demais jogavam fora, seja em São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre e Salvador. E a partir da administração do almirante Heleno Nunes – 'Onde a Arena vai mal, mais um clube no Nacional' – a festa foi completa. Havia jogos praticamente todos os dias para dar conta de fechar uma tabela com 100 clubes inscritos. Os jogos de futebol não saíam das rádios.
O que ocorria naquela época quando a Rede Globo ainda não havia descoberto o filão futebol e não dispunha de tecnologia? Como diria Nélson Rodrigues (1912-1980), simplesmente o óbvio ululante. Ou seja: repórteres, comentaristas, narradores e operadores – era sempre um equipe de quatro integrantes – não paravam de viajar Brasil a fora – Fortaleza, Curitiba, Goiânia, Recife, etc. E qual era a vantagem? Os radialistas, do repórter ao operador, recebiam diárias, das quais, a maioria das vezes, não precisavam prestar contas. Resultado: a patota hospedava-se em hotéis baratérrimos (verdadeiros furdunços, na gíria radiofônica), comia em restaurantes bisonhos e, ao final da viagem, trazia para casa uma bela soma em dinheiro, acrescida ao salário. Não havia um único e escasso radialista que se queixasse da profissão, por mais vôos que fizesse, por mais sufocos que passasse em supostos hotéis e restaurantes de comidas ruins.
O Campeonato Carioca – mais tarde Estadual – não valia a pena. Ninguém recebia um mísero tostão para cobrir jogos em Bangu, Madureira, Olaria, Campo Grande, Bonsucesso ou Cabo Frio. O carro da emissora levava e trazia a turma de volta. As coisas só mudaram um pouco quando foram incluídos clubes de Campos, Itaperuna e Volta Redonda – mesmo assim pouca coisa. Diária, diminuta, só quando a equipe necessitasse de pernoite. Apesar disso, havia uma briga de foice no escuro na hora do chefe fazer a escala. Mas com a alta da inflação, a primeira consequência dessas incontáveis viagens foi o surgimento do repórter-cabo-longo. O que era isso? O repórter fazia ao mesmo tempo o papel de repórter (durante o jogo) e comentarista (no intervalo e no final). O comentarista foi para o espaço estratosférico. E o cabo-longo foi o único a deitar e rolar.
O golpe mortal nas transmissões radiofônicas veio quando a Rede Globo adotou no Brasil o pay-per-view. É óbvio que a televisão aberta ainda mantém a maioria dos torcedores. Não são todos os que podem pagar uma mensalidade, que fará falta no final do mês, só para ver futebol. Em compensação, não há no Rio uma emissora de rádio que não assine o pay-per-view da Rede Globo. Em poucas e resumidas palavras, assim como no passado surgiu o repórter-cabo-longo, nas emissoras de rádio nasceu o geladão (ou o mais chique off-tube). Ou seja, narrador e comentarista, diante de um telão (ou telinha, de acordo com os recursos da rádio) transmitem a partida que quiserem, fingindo que estão no local. O máximo que ocorre – percebe-se pelo som arranhado – é a presença de um repórter ao vivo no local, fazendo entrevistas e dando notícias.
A própria televisão faz isso – ou seja, adota o geladão. Só que vez por outra, narradores e comentaristas confessem que estão mesmo no estúdio, como ocorreu recentemente nas peladas que o Brasil disputou no kuwait e em Estocolmo. Mas, sem sombra de dúvida, o maior prejudicado foi o rádio, que reduziu drasticamente suas equipes. Particularmente, eu que já trabalhei nas três mais expressivas emissoras radiofônicas do Rio, assino em baixo no belíssimo e irretocável filme de Woody Allen – A Era do Rádio. Infelizmente – eu que pertenço a essa época – sinto saudades de Ary Barroso (1903-1968), Oduvaldo Cozzi (1915-1979), Valdir Amaral (1926-1997), Jorge Cury (1920-1985) e Antônio Maria (1921-1964), entre muitos outros. E até de César de Alencar (1920-1990), ponta (atrás do gol) na Copa do Mundo de 1950.
Sobre o autor - Jornalista há 43 anos (atualmente na ESPN Brasil), com passagens pelo Jornal do Brasil, O Globo, Correio da Manhã, O Dia, BlochEditores e rádios Nacional, Tupi e Globo. Publicou 'História Ilustrada do Futebol Brasileiro', com João Máximo, 'Botafogo - 101 anos de histórias, mitos e superstições' e 'Gírias do Futebol', com Carlos Leonam.
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