Destaques

Na guerra da convergência.


 

Informação: Revista Amanhã - Edição 221 - Junho 2006

A jornalista que comanda a área de conteúdo e inovação do Terra na América Latina diz que o consumidor ganha com a união de empresas de telecom e internet. Já a mídia convencional... Eugênio Esber e Marcos Graciani

Audioconferência, videoconferência, celular... A integração de meios não é apenas um assunto diário para a jornalista Sandra Pecis e, sim, uma forma – a única – que encontra para comandar uma área estratégica do portal Terra. “Assim é possível estar em contato com as pessoas, sem tanta necessidade de deslocamento”, explica a vice-presidente de conteúdo e inovação do portal Terra na América Latina. Mesmo assim, ao menos uma vez por mês a ex-editora de Informática do jornal Zero Hora precisa viajar para um dos 18 países da América Latina sob sua responsabilidade – especialmente México, Peru, Argentina e Chile. E há, ainda, as reuniões corporativas em São Paulo e Madri. Nesse ritmo, sobra cada vez menos tempo para as outras prioridades de Sandra – família, livros, bons filmes. Para descarregar a adrenalina, Sandra recorre a um esporte solitário: corre três vezes por semana nos parques de Porto Alegre ou da cidade em que estiver. Mas sua maneira de resolver um problema ou conceber um novo produto é coletiva: envolve todas as áreas-chave no desafio. “Esta coordenação entre as pessoas é fundamental”, diz Sandra. “No mais, é importante ser direta e transparente com a equipe.” Foi como a ex-diretora do ZAZ, portal adquirido pelo Terra da RBS, em 1999, revelou-se na entrevista reproduzida a seguir.

O comércio eletrônico, que este ano deve movimentar R$ 3,9 bilhões no Brasil, vai passar por um boom?
Sim, pois temos uma velocidade muito forte na adoção da internet. Todos os índices comprovam que o Brasil tem uma performance superior à de muitos outros países nessa área. Na América Latina, estamos muito acima de todos os demais países. Aqui há um mercado explosivo, crescente, de vendas via internet. As lojas on-line se consolidaram nas suas operações e representam filiais importantes com faturamento igual ao de lojas físicas – e em alguns casos até superior. Nenhum país tem grandes players locais como aqui. O usuário brasileiro tem um número de horas na internet e uma cultura de uso, inclusive de banda larga, acima da média da América Latina.

Os programas de inclusão digital engrossarão o comércio eletrônico ao inserir as classes D/E?
Inserir estas classes não é tanto uma questão de tecnologia. O problema é a compra e as formas de pagamento estarem restritas ao cartão de crédito, e isso não só na internet. Em resumo, a restrição à compra na web ocorre muito mais em função de a pessoa não ter um cartão de crédito do que do fato de não ter um computador em casa. Nem mesmo há um problema cultural nesse caso.

O fato de não ter um computador é secundário?
Sim, pois percebemos que as pessoas não precisam ter computador em casa para fazer uso intensivo da internet. As medições mais auditadas do nosso mercado só observam o mercado doméstico. Porém existe uma outra metade do mercado formada pelas pessoas que, durante o durante o horário comercial, estão conectadas nas escolas, nas universidades e principalmente em seus locais de trabalho. Isso não quer dizer que o país não tenha uma grande preocupação com a exclusão digital e com a educação. Mas houve uma popularização muito forte da internet no Brasil com o usuário de escritório. O Brasil tem um uso de internet no local de trabalho, incluindo atividades de lazer e serviço dos funcionários, acima do de outros países. Acompanho no Terra os gráficos de uso da internet e vejo que muita gente utiliza o horário do almoço e volta mais cedo para fazer o seu homebanking ou ler notícias, por exemplo.

Com este cenário favorável, você acha que as empresas já aprenderam a fazer da internet uma plataforma de negócios?
Cada vez mais, as empresas estão aprendendo a tirar proveito da web. Uma coisa clara é que a internet, como qualquer outra mídia, fixa na cabeça das pessoas no máximo dez marcas. As pessoas dificilmente vão ter uma multiplicidade de sites na cabeça. Nesse caso, existem duas formas de atuação das empresas na internet: gastar muito com marketing, como fazem as maiores marcas, ou então utilizar os sites de busca para ganhar visibilidade – um recurso que cresceu muito nos últimos anos. As companhias que usam essa ferramenta utilizam os anúncios pagos dentro dos buscadores. Essa foi a forma que as menores empresas encontraram de ganhar dinheiro. Claro, sempre associadas aos players globais, colocando suas marcas dentro dos grandes portais. Assim, estão conseguindo ter eficiência em seus negócios. Já aquelas que precisam ter uma atuação mais transnacional acabaram procurando, seja através de buscadores, anúncios e parceria com os portais, ter a sua marca presente ou, ainda, manter uma referência institucional na internet. Hoje é inconcebível pensar que uma empresa exista sem ter um site. Assim como o e-mail já faz parte dos nossos dados pessoais, ter uma página na internet também acabou sendo uma referência obrigatória para uma corporação.

O mundo pode presenciar um novo boom das pontocom, como ocorreu no fim da década de 90?
Daquela maneira... acredito que não. Existem hoje dois mercados muito fortes: um ligado aos celulares e outro relacionado à internet-tv, que busca trazer uma programação de televisão cada vez mais perto da internet de banda-larga. Isso é uma tendência mundial, e existe muita coisa nova nessa área. Há empresas abrindo o capital e se lançando no mercado como provedores de soluções nessas duas áreas. Porém não vejo nada parecido com uma bolha igual àquela que a gente viu entre 1999 e 2000. Ao contrário, hoje vemos uma consolidação de players, o aumento da publicidade on-line e o comportamento das pessoas que adotaram a internet como parte do seu dia-a- dia. Mas a internet ainda tem muito espaço para experiências e inovação.

E como ficam as empresas de telecom perante ameaças da web? Partirão para um movimento de compra de empresas de internet?
Sim. A gente vê que os grupos de telecomunicações estão investindo muito na alavancagem da banda larga e que ter uma empresa de internet como parte do grupo é algo muito estratégico e importante. Dentro do grupo Telefonica, do qual o Terra faz parte, também há essa visão de negócio.

Somente empresas com grande escala de capital sobreviverão à batalha da internet?
Qualquer organização com o mínimo de dinheiro pode colocar a sua homepage na rede. O grande desafio de quem faz uma página na internet é ser conhecido pelos usuários da internet. Como meio democrático, a rede mundial de computadores permite essa utilização. Caso você queira, vai lá e publica. Claro que um site como o Terra, que é formado por uma grande equipe, com 150 jornalistas e 300 técnicos, por exemplo, é obrigado a ter um ritmo de atualização bem maior. Essas diferenças sempre existirão, mas o que não muda é que determinada página vai ter a mesma capacidade de ser acessada do que o endereço de um site maior.

O radical barateamento e expansão que se prevê na banda larga pode reinstituir a expectativa de uma revolução digital?
A banda larga vai crescer muito com a oferta de produtos convergentes. Ela vai fortalecer a própria internet. Com isso, será possível ter um aumento da capacidade de tráfego, ou seja, de “largura de banda”. É algo para os próximos meses. A gente vai conseguir cada vez mais passar vídeos pela internet, por exemplo. A grande revolução no momento é a inserção cada vez maior do conteúdo de vídeo na internet. Para esta Copa, por exemplo, o Terra realizou massivamente a transmissão de vídeos da Copa do Mundo com qualidade excelente, em tela cheia, no computador. Não se trata, exatamente, de uma competição direta com a televisão porque a internet vai agregar aquela promessa de interatividade que a TV não cumpriu. Dentro de um ano e meio, vai ser possível baixar vídeos inteiros através da internet. Na verdade, isso será uma grande ameaça para as videolocadoras. A convergência entre televisão e internet vai ser muito forte e permitirá que o usuário decida se vai ver o filme no computador ou se passará para a televisão. Isso não é coisa futurista.

Operadoras de telecom, portais de internet, empresas de TV paga e grupos de mídia. Quem absorverá quem na dança da convergência? Quais os pontos fortes e fracos de cada um desses players?
Vivemos numa época de convergências e de pacotes tecnológicos para os consumidores. Já é possível comprar conteúdo e conectividade de um mesmo provedor, com a ampliação de ofertas de triple play, ou seja, voz, internet em banda larga e conteúdos (TV e web). As novas tecnologias, como Voip (voz via internet) e WiMax (wireless de alto alcance), permitem que se rompam barreiras.Para a telecom, é cada vez mais importante ter conteúdo; para a empresa de mídia, é importante ter acesso ao consumidor final, com canais de distribuição. Nós, do Terra, tratamos de liderar essas ofertas com produtos como o Terra Voip, TV Terra com conteúdos de televisão interativa (por exemplo, direitos do Mundial 2006 para internet) e experimentos de acesso em WiMax.

Como o Terra tem encarado o desafio da convergência digital?
O grupo Telefonica faz isso na Espanha, através do grupo Imagenium, oferecendo, por exemplo, uma TV por ADSL. Essa convergência vai acontecer cada vez mais em todos os mercados. Acho que a internet vai ter cada vez mais vídeo e áudio. Além do mais, ela estará cada vez mais presente em dispositivos que são como nosso computador ou celular. E a razão é simples: para uma empresa de telecomunicações será cada vez mais importante ter conteúdo. No caso da empresa de mídia, é importante ter acesso ao consumidor final, com canais de distribuição. Nesse cenário, o Terra se vê como uma empresa que oferecerá internet, ou essa mídia interativa que se chama internet, em qualquer dispositivo. Ofereceremos sempre conteúdos como ferramentas de comunicação e notícias. Tudo a partir da instantaneidade, que é a marca da internet, e da interatividade através de qualquer um desses aparelhos..

Você se sente, hoje, com um bom arsenal de argumentos para convencer um anunciante a privilegiar a internet e não concentrar tanto suas verbas em TV?
Tranquilamente. Só na parte de televisão em banda larga do Terra, por exemplo, temos 2,8 milhões de usuários únicos. Esse número é muito mais do que o público de muitos canais de TV paga. O Terra, como portal, tem hoje 12 milhões de usuários únicos, e eles funcionam como uma espécie de leitores mensais.

A publicidade e os investimentos em marketing já estão migrando fortemente para a web?
Em geral, o bolo total de publicidade não cresce. O que tem acontecido é que cada vez mais o investimento vem para a internet. É uma guerra. Na verdade, os meios de comunicação brigam sempre pelo mesmo bolo. Acho que o desafio maior, atualmente, é tirar uma fatia maior do investimento da publicidade feito em televisão e não no jornal diário.

Com o avanço significativo da internet, o jornal em papel, como o conhecemos, está ameaçado?
Isso me preocupa. As gerações mais jovens se mostram menos atraídas pelo papel – pelo jornal, principalmente. Cada vez mais cedo, as pessoas fazem uma combinação entre TV e internet. O jornal é relegado. O que para os adultos é a primeira opção, para os jovens está entre a terceira e a quarta opções. Isso não quer dizer que as pessoas estão menos informadas, mas o jornal realmente não é mais tão lido por esta nova geração. Não tenho acesso a essas pesquisas de queda, mas acho até que nos EUA a situação dos jornais é mais grave que a do Brasil. Tivemos o surgimento dos blogs, que mostram que as pessoas querem fazer seus próprios jornais on-line. Essa é uma outra tendência muito forte e na qual o Brasil é campeão. Veja o sucesso que faz o Orkut aqui...

Mas os jornais estão migrando para a web com a distribuição eletrônica dos seus conteúdos...
Os jornais daqui não têm muita força nesse sentido. O Brasil tem um jornalismo on-line muito ativo que até criou novas marcas e não se construiu em cima daquelas marcas de jornais que já existiam. As marcas da internet brasileira, e me refiro aos dois principais players, Terra e UOL, sempre se preocuparam em ter atualização forte. Em outros países, essa dinâmica é menor.

Que trunfo resta aos jornais?
O jornal tem outras atratividades que a internet não tem. Ele pega o leitor pela área de opinião e tem outro tipo de grafismo... No entanto, o resultado do futebol pode ser buscado na web, em tempo real. Nossas estatísticas mostram que temos muitos acessos no final da tarde de domingo. Todos acompanhando seu time...

A proliferação de blogs inaugura a era do jornalismo feito por conta própria?
Esta é uma discussão muito forte. Nos Estados Unidos, esse debate sobre jornalismo cidadão é até mais intenso do que no Brasil. Lá as pessoas têm preocupação de fazer dos seus blogs um espaço que não seja da mídia tradicional. Existe essa mística, principalmente entre os norte-americanos, de que os blogs têm um jornalismo que não está cerceado por uma grande imprensa. Isso é discutido lá, todos os dias, e cada vez mais esse tipo de jornalismo ganha importância. Eu estive em Las Vegas, no encontro da indústria de televisão americana – e lá todos estão preocupados com esses efeitos. Vejo que nos EUA as pessoas se preocupam com as questões de credibilidade ou de como noticiar nos blogs. Já aqui no Brasil é diferente. As pessoas usam blogs, fotologs, Orkut... Tudo para conhecer gente, tudo com um objetivo comunitário.  