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IMPRENSA NO RIO
A lei (e o poder) do mais forte.


 

Informação: Observatório da Imprensa - 06/06/2006

Por Marinilda Carvalho

O lançamento no Rio do Expresso da Informação, em março, abriu velhas feridas na praça midiática carioca. O "popular-compacto", como define o novo tablóide a Infoglobo – braço das Organizações Globo que gerencia os jornais O Globo, Extra e Diário de S.Paulo e a Agência Globo –, não atingiu em abril nem 40 mil exemplares diários, segundo relatório do Instituto Verificador de Circulação (IVC). Mas foi o suficiente para preocupar os concorrentes O Dia e Meia Hora.

Na verdade, a preocupação na Rua do Riachuelo (onde se localiza a sede do Dia) vai além da circulação propriamente dita. O diretor-editorial de Mídia Impressa, Eucimar de Oliveira, levanta questão-chave há uma década debatida no Observatório da Imprensa: com tantos veículos das Organizações Globo, o Rio corre o risco da oligopolização da mídia, cuja conseqüência mais óbvia é a falta de diversidade de pensamento na comunicação. "A ausência do pluralismo e do contraditório é um problema gravíssimo", diz Eucimar. "Um mesmo assunto precisa de enfoques diferentes até para a população refletir."

Eucimar conta que o publisher do Dia decidiu há pouco mais de um ano "reposicionar" o jornal por uma razão de negócio – e também filosófica: não era aceitável que uma cidade como o Rio tivesse apenas um jornal formador de opinião, status que somente o Globo detinha após a decadência do Jornal do Brasil. É sabido, daí a menção às velhas feridas na abertura deste texto, que essa derrocada começou em fins dos anos 1980, quando o departamento comercial do Globo, muitas vezes com interferência pessoal do doutor Roberto Marinho, passou a pressionar os anunciantes do JB. O mesmo vem acontecendo no Dia.

Pois O Dia propôs-se a ocupar o espaço deixado pelo JB. Paralelamente, lançou um diário popular, o Meia Hora, atraindo uma "leva enorme de leitores que haviam abandonado o meio jornal" tanto pelo preço quanto pelo foco editorial, lembra Eucimar. Pelas contas do IVC de abril, o jornal vai indo bem (ver tabela abaixo). "Fui acusado até de copiar o Extra, mas como um tablóide copia um standard?"

Meia Hora

Dia da semana

Março/2006

Abril/2006

Exemplares

Domingo

47.745

50.021

2.276

4,8%

2ª feira

107.113

113.996

6.883

6,4%

3ª feira

112.855

116.652

3.797

3,4%

4ª feira

109.181

120.968

11.787

10,8%

5ª feira

112.659

123.729

11.070

9,8%

6ª feira

114.553

100.214

-14.339

-12,5%

Sábado

86.550

94.752

8.202

9,5%

Média 2ª/sáb

107.152

111.719

4.567

4,3%

Média 7 dias

98.665

102.905

4.239

4,3%

Total mês

3.099.017

3.026.101

-72.916

-2,4%

Por sinal, Eucimar comandou o projeto de criação do Extra em 1997, o primeiro popular da Infoglobo. Em três anos virou fenômeno de vendas. Apesar da forte queda de abril (tabela abaixo), continua líder aos domingos (seguido de Globo e Folha) e ocupa o terceiro lugar nos dias de semana, atrás de Folha e Globo, segundo o IVC.

Extra

Dia da semana

Março/2006

Abril/2006

Exemplares

Domingo

421.167

397.793

-23.374

-5,5%

2ª feira

267.487

214.972

-52.515

-19,6%

3ª feira

266.101

228.660

-37.441

-14,1%

4ª feira

289.386

243.127

-46.259

-16,0%

5ª feira

265.119

224.683

-40.436

-15,3%

6ª feira

251.077

215.395

-35.682

-14,2%

Sábado

264.695

230.213

-34.482

-13,0%

Média 2ª/sáb

267.311

226.175

-41.136

-15,4%

Média 7 dias

289.290

250.692

-38.598

-13,3%

Total mês

8.905.710

7.647.378

-1.258.332

-14,1%

Globo (dom)

376.270

376.469

199

0,1

Folha (dom)

369.477

372.273

2.796

0,8

Fonte: IVC abril de 2006

Nos gráficos abaixo, o percentual dos populares e dos quality papers no mercado:



Fonte: IVC abril de 2006

De surpresa, entretanto, a Infoglobo jogou o Expresso nas bancas. O jornal não tem anúncio na TV Globo, como Extra e Globo, e não dá brindes.

Expresso da Informação

Dia da semana

Março

Abril

2ª feira

32.243

3ª feira

36.331

4ª feira

36.278

5ª feira

  –

39.115

6ª feira

  –

31.644

Média 2ª/sáb

  –

35.122

Total mês

  –

702.444

Fonte: IVC abril de 2006

"Não faz sentido nem comercial nem jornalístico", entende Eucimar. "Há uma intenção nítida de dominar o mercado, que impede qualquer confronto de opiniões, de pluralidade de idéias", afirma. "Não tenho conhecimento da existência, em outro lugar, de uma empresa com três jornais, rádios, uma rede de TV aberta, outra de TV fechada." Segundo o executivo, há três, quatro anos isso não aconteceria. "Já estive do outro lado e conheço: é uma visão de gestão."

A pressão se manifesta também na área comercial. Se uma agência de automóveis anuncia no Globo ganha desconto de 70%, conta. Se resolve anunciar no Dia, perde o desconto. O Dia sente (ver tabela abaixo): "Estamos com ação no Cade por conta dessa e outras práticas, como venda casada de classificados", diz. "É asfixia da concorrência, e isso exige ampla discussão na sociedade."


O Dia

Dia da semana

Março/2006

Abril/2006

Exemplares

Domingo

241.989

234.715

-7.274

-3,0%

2ª feira

109.836

105.959

-3.877

-3,5%

3ª feira

115.481

110.458

-5.023

-4,3%

4ª feira

128.021

119.159

-8.862

-6,9%

5ª feira

143.452

138.411

-5.041

-3,5%

6ª feira

121.310

118.974

-2.336

-1,9%

Sábado

128.139

124.582

-3.557

-2,8%

Média 2ª/sáb

124.373

119.591

-4.783

-3,8%

Média 7 dias

141.175

136.037

-5.139

-3,6%

Total mês

4.345.695

4.168.329

-177.366

-4,1%

Do jeitinho que está

"Sinceramente, não sei como comentar essas declarações", foi a primeira frase de Agostinho Vieira, diretor-executivo da Infoglobo. "É difícil." Segundo ele, o Expresso começou a ser estudado na empresa quando Eucimar de Oliveira ainda estava à frente do Extra, porque se percebia o potencial de um jornal mais barato e mais simples para as classes C e D, que se tornaram compradoras pós-Plano Real. "Não sei o que dizer. O Dia contratou o designer espanhol Roger Vallès, redesenhou, fez campanha... não funcionou, então bota a culpa no juiz, no gramado..." Em janeiro de 2001, o Extra vendia 190 mil exemplares e o Dia, 222 mil, lembra. "Em abril de 2006, O Dia vendeu 136 mil, e o Extra, 250 mil; então, é desespero".

O Meia Hora é cópia do Extra? "O Extra é standard com cadernos em formato tablóide; se se colocar o Meia Hora junto não se distingue." Sobre a asfixia comercial: "Nossos preços são muito mais altos que os do Dia, do JB, e ainda assim anunciam conosco porque o concorrente não tem qualidade nem circulação – Dia mais Meia Hora não dão um Extra". E a queda do Dia é ruim para o mercado", afirma.

À vontade em seu posto, Vieira não vê monopólio nem asfixia no mercado carioca. "Estamos num país capitalista, ninguém é proibido de comprar o Meia Hora ou obrigado a comprar o Extra, não impusemos ao cidadão, olha, a partir de hoje você só pode ler tal jornal", diz. "No fundo eu fico triste, porque meu concorrente é a TV, a internet, mas culpam o monopólio... Isso é ingênuo, parece coisa de movimento estudantil."

Um observador do mercado carioca acha que, apesar dos pesares, são boas as perspectivas para os diários da Rua do Riachuelo. Primeiro, não vê no Expresso – que, segundo ele, não tirou leitores nem do Dia nem do Extra – perigo maior para o Meia Hora – "um bom projeto" –, o que deixa "gordura" para se mexer no Dia. Afinal, são 50 repórteres para 20 páginas, e o jornal precisa é de grandes matérias, muita reportagem. O que fica difícil com o jornal apoiando a candidatura do ex-governador Anthony Garotinho. Quanto à asfixia comercial, "não tem jeito, é o mercado": aqui é com o Dia, e o JB morreu assim; em São Paulo, a Folha e o Estadão fazem o mesmo com o Diário, que é do Globo. O
monopólio da informação também fica do jeitinho que está: "Não há lei que impeça."