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"O Brasil é 'excrusividade' da Globo".


 

Informação: Comunique-se - 05/06/2006


Antonio Brasil

O que você pensaria de uma democracia onde o mesmo partido político vencesse todas as eleições para presidente nos últimos 30 anos? No mínimo, você ficaria intrigado e preocupado. Seria mesmo uma democracia? Alguns alegariam “competência” do governo ou do partido. Outros diriam que é armação e ameaça à democracia. E os conformistas resignados, no entanto, anunciariam que “a vida é assim mesmo”.

Pois bem. Então me explique por que há décadas a Rede Globo tem exclusividade nas transmissões da Copa do Mundo e de quase todos os eventos esportivos e não esportivos do País? Seria questão de “competência” e grande poder financeiro, apesar de enfrentar grave crise? Ou seria pobreza, descaso ou incompetência das demais redes competidoras?

Para a musa da Copa, Fátima Bernades, em entrevista recente à FSP (ver aqui) a resposta é simples: “Olha, isso é em qualquer lugar do mundo, gente. Você pagou pelo evento. Muita gente poderia ter pago junto. Eu, sinceramente, nem sei como é todo esse mecanismo de negociação”.

Será mesmo? Não tenho tanta certeza. Segundo dados do Portal UOL Copa, em 2002, a Rede Globo pagou US$ 450 milhões pela exclusividade em TV aberta das Copas de 2002 e 2006. A emissora não teria conseguido revender os direitos para nenhuma das concorrentes e teve um prejuízo de US$ 210 milhões. Será mesmo?

Em outros lugares do mundo, nos EUA, por exemplo, as grandes redes de TV se revezam na “exclusividade” dos grandes eventos esportivos. Há órgãos de proteção ao consumidor e agências reguladoras como o FCC que ficariam muito “intrigadas” se uma única rede de TV ganhasse os leilões e garantisse uma espécie de monopólio da transmissão todos os eventos esportivos americanos e internacionais.

Nenhuma economia de mercado ou mesmo qualquer democracia deveria permitir tanta “competência” ou poder. O pior é que no Brasil do conformismo e da falta de curiosidade alega-se até mesmo “prejuízo” financeiro com a exclusividade na Copa e todos aceitam. Não seria a hora de investigar esse tal prejuízo?

Altíssimos índices de audiência, quase um monopólio de comunicação durante semanas e venda de todas as cotas publicitárias a preços extorsivos dariam mesmo prejuízo às contas da emissora? E o prejuízo financeiro das demais redes? Como foram conduzidas as negociações para repartir essa exclusividade?

Loterias duvidosas
As negociações nebulosas que sempre garantem exclusividade de eventos esportivos no Brasil nos fazem lembrar os resultados sigilosos das loterias brasileiras como a Mega Sena todas as semanas. Será que ninguém, nenhum jornalista fica curioso para descobrir a verdadeira identidade do ganhador da Mega Sena acumulada? Questão de segurança para o vencedor? Então, não jogue! Mas eu tenho o direito de saber se o vencedor, morador em Deus me livre, não é senador da República ou mesmo presidente da Caixa Econômica Federal. Afinal, essa mesma instituição centenária, idônea e inquestionável não teve problema de quebrar o sigilo bancário de um caseiro de Brasília.

E a quebra do sigilo do painel eletrônico do Congresso Brasileiro há alguns anos? Perceberam o risco de simplesmente aceitarmos negociações ou declarações que envolvem interesses estratégicos nacionais? Resultado de loteria e transmissão de Copa do mundo, no Brasil, são questões de segurança nacional. Surpreende-me que ninguém duvide de ambas.

Em verdade, adoramos cobrar transparência de governos e políticos. Mas os negócios que envolvem televisão, digital ou analógica, em eleições ou Copas do Mundo primam pelo segredo, respostas e explicações evasivas. 

Cobertura exclusiva
O problema é que, infelizmente, essa “exclusividade” não se limita às transmissões dos jogos da Copa. Também inclui a própria cobertura do evento e causa ainda mais polêmica entre os jornalistas. Segundo o noticiário: “A TV Globo é a única empresa, em todo o mundo, com direito de entrar no Park Hotel Weggis, local de concentração da seleção. Foi constrangedor, segundo alguns membros da imprensa brasileira, ontem, ver repórteres da emissora entrevistando jogadores, como ocorreu com o volante Gilberto Silva, enquanto todos os outros tinham de ficar do lado de fora, sem nenhum contato. Este tem sido um problema recorrente, pois a Rede Globo tem exclusividade até mesmo em imagens do Campeonato Brasileiro”.

Ainda tem dúvidas? Tem mais. Na “exclusividade”, nem mesmo escapam os treinos da seleção brasileira.

Em excelente matéria publicada no Observatório da Imprensa (ver aqui) a nossa colega Marinilda Carvalho denuncia: “A Globo tentou impedir a ESPN Brasil de transmitir até os treinos-treinos dos brasileiros na Thermoplan Arena, onde a seleção se prepara... Por acordo que alguns descrevem como 'secreto' entre Globo, CBF e Thermoplan, fabricante suíço de cafeteiras que financiou a estada brasileira em Weggis (como se os 'acordos' CBF-Globo fossem alguma vez transparentes), esse jogo-treino foi classificado de 'amistoso': o time usa uniforme de jogo, as estatísticas da partida contam como oficiais. E Galvão Bueno transmite ao vivo”.

Perceberam a extensão e gravidade do problema? Querem mais?

Em outra matéria, no Estadão desta segunda (ver aqui), intitulada "Net corta BBC e TV5": “Quem quiser continuar assistindo à BBC, à TV 5 e também à TVE pela Net terá de se curvar ao sistema digital... Face ao tamanho que a Net tem de assinantes, o número de interessados nesses canais (TV5 e BBC) era mínimo. Assim disse o diretor de Produtos e Serviços da operadora, Márcio Carvalho”.

Eu bem que avisei.

Mas o problema das TVs abertas brasileiras tende a se repetir no mercado de TVs por assinatura. Esta semana, o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação alerta para a mais nova ameaça do acordo das empresas do megaempresário Murdoch com a Globo:

"O FNDC manifesta-se publicamente contrário à forma como o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), órgão do Ministério da Fazenda, autorizou a junção da operadora de TV paga por satélite DirecTV com sua concorrente Sky Brasil, no último dia 25/5, deixando o país em situação vulnerável ao grupo de mídia mais conservador e agressivo do planeta". (ver aqui)

Em tempos de frenesi patriótico pela Copa do Mundo, além de torcer pelo Brasil, também deveríamos refletir sobre o poder exagerado da televisão brasileira e fraqueza da nossa democracia. Pode não ser tarde demais.

Ou talvez o meu velho porteiro, gente simples, pouco letrada, mas que sabe tudo de vida e futebol tenha razão: “Não tem jeito. O Brasil é ‘excrusividade’ da Globo”.