Informação: Comunique-se - 31/05/2006
Eduardo Ribeiro
A Radiobrás publicou, dias atrás, um Protocolo de Eleições, pelo qual assume publicamente, com a sociedade, compromissos com uma cobertura apartidária e pluralista nas eleições presidenciais de outubro próximo. A iniciativa não chega a ser inédita, pois a própria Radiobrás já havia feito algo parecido, nas eleições municipais de 2004. O Protocolo de agora é muito mais abrangente e rigoroso sobre o comportamento da empresa e de seus funcionários em relação ao tema, não deixando dúvidas sobre o papel que terão de cumprir. Publicar um protocolo para garantir que vai fazer o que de fato deveria estar fazendo desde sempre não deixa de ser inusitado. Mas no Brasil, por incrível que pareça, uma atitude como essa é um avanço inestimável e merece, sim, ser celebrada e apresentada como exemplo para as demais instituições. Foi por esta razão que Jornalistas&Cia decidiu ouvir o presidente da Radiobrás, Eugênio Bucci, numa entrevista que ele concedeu numa tarde morna em seu gabinete, em Brasília, no último dia 24/05, acompanhado da assessora da Diretoria de Jornalismo e supervisora da Editoria Multimídia de Eleições 2006, Helenise Brant, e do chefe da Agência Brasil, Rodrigo Savazoni.
"Um protocolo como esse seria impensável para uma BBC", afirma Bucci, salientando que tudo o que o documento propugna faz parte do DNA dessa emissora, que é referência no mundo inteiro. "O contrário é que seria impensável, pois não passa pela imaginação deles que uma emissora pública possa defender interesses que não os da sociedade a que serve", enfatiza.
O presidente da Radiobrás não sabe se os avanços obtidos nos últimos três anos e meio resistirão à próxima administração e tampouco ao tempo, até porque ele deve deixar o cargo, conforme tem garantido a vários interlocutores, no dia 31 de dezembro, ao final desse mandato do presidente Lula. Mas, otimista, de uma coisa diz estar convicto: "A sociedade hoje está muito mais madura, atenta e exigente e a informação de qualidade, honesta, precisa, é um bem do qual as pessoas vão cada vez menos abrir mão".
Abaixo, a íntegra da entrevista.
J&Cia - A Radiobrás tem hoje um time que compartilha experiência e juventude. Foi difícil reunir essa gente em torno desse projeto?
Eugênio Bucci – Nós temos de fato profissionais de ponta e de competência notória na Radiobrás. Começa pelo Celso Nucci, ex-diretor de Desenvolvimento Editorial da Editora Abril e o maior especialista que conheci em planejamento editorial, o Henri Kobata, nosso diretor de Planejamento e Gestão, outro executivo de destaque que já foi também diretor da Abril, o José Alberto da Fonseca, que tem feito cada vez mais coisas aqui, já foi vice-presidente da Salles, tocou a Rádio Inconfidência agora recentemente. Passou por aqui o Carlos Knapp – que foi diretor de comercialização durante quase três anos –, temos o José Roberto Garcez, que foi presidente da TVE do Rio Grande do Sul e é o nosso diretor de Jornalismo, figura central na Radiobrás, que, aliás, só não está aqui nesta conversa porque está viajando, o Pedro Frazão, que é nosso diretor-Financeiro e que foi diretor-Financeiro da Abril também por muitos anos. Você vai encontrar Flávio Diegues, Paulo Montoya, a Helenise Brant, a Márcia Detoni, a Taís Ladeira, hoje chefe do rádio (uma grande liderança das rádios comunitárias que está comigo há três anos, e que é um talento formidável), a Maria Alice Boelhouwer Lussani, que trabalhou na tevê do Rio Grande do Sul e hoje é nossa chefe de Televisão, o Roberto Gontijo, diretor de Operações e que é funcionário de carreira da Radiobrás, o Cristiano Menezes, grande nome de rádio, que veio em 2003 ou 2004 para a Radiobrás, assumindo a Rádio Nacional do Rio, enfim, tenho medo de esquecer nomes, mas você vai encontrar um time que poderia estar em qualquer redação, em qualquer empresa jornalística hoje – e provavelmente em postos de comando.
J&Cia - E como se deu essa operação?
Eugênio Bucci – É muito interessante isso que aconteceu na Radiobrás. Esse pessoal todo veio para cá porque acreditava nesse projeto, sabia que isso poderia gerar um efeito positivo, como acabou gerando. Eu falo é que não são eles que são da minha confiança, mas que eu, por incrível que pareça, é que sou da confiança deles. Confiaram em mim e vieram. Além dos profissionais de grande experiência também reforçamos a equipe com jovens talentos. Trouxemos, por exemplo, Rodrigo Savazoni, que foi meu aluno na Cásper Líbero, André Deak, Aloízio Milani, Pedro Biondi, que é filho do Aloysio Biondi, a Milena Fiori, o Adriano de Angelis, que está na TV Brasil, a Lia Rangel (essa foi minha aluna também), que coordena a TV Brasil e é um grande talento.
J&Cia - Todos concursados?
Eugênio Bucci - Não, os profissionais que ocupam cargos de confiança não precisam ser concursados. Temos aqui, atualmente, cerca de 240 profissionais em cargos de confiança, contra 460 que existiam quando chegamos, entre estagiários e profissionais. Hoje, todos os estagiários são concursados. Antes, não eram. E alguns cargos que antes eram ocupados por profissionais sem concurso hoje são preenchidos por quadros concursados. Fizemos alguns concursos nesses três anos e meio.
J&Cia - E qual o regime de contratação?
Eugênio Bucci - São todos CLT.
J&Cia - Há muitos estagiários na Radiobrás?
Eugênio Bucci - Temos hoje perto de cem estagiários na empresa e todos são concursados. Você não encontra hoje dentro da Radiobrás um estagiário que não tenha feito concurso público.
J&Cia - Fale um pouco dessa experiência de reunir juventude com experiência.
Eugênio Bucci - Vamos pegar o caso do Rodrigo (Rodrigo Savazoni). Ele cresceu basicamente sob a orientação do Flávio Diegues, que era coordenador da Agência Brasil. O Flávio agora é coordenador de um novo núcleo que temos aqui, a Pauta Unificada, e o Rodrigo assumiu a Agência Brasil. Mas é um profissional à altura do desafio. Você sabe que os profissionais precisam se enquadrar nos desafios que eles têm; se o desafio é maior do que as competências já dominadas, ele quebra, na melhor das hipóteses; se o desafio é menor, cai no tédio. O Rodrigo, que tem um grande desafio à frente da Agência Brasil, tem se saído bem, além do que conta com orientação permanente do Celso Nucci. Um outro jovem talento que temos na Radiobrás é o diretor Jurídico, Bruno Vichi; ele acabou de defender tese de mestrado, já está no doutorado na PUC, é professor, fez uma carreira muito precoce no Direito e veio para cá também porque acredita no projeto.
J&Cia - No caso do Protocolo de Eleição, divulgado recentemente (www.radiobras.com.br), nos pareceu ser um desdobramento, uma etapa complementar de um planejamento feito para dar uma cara à Radiobrás. É isso mesmo?
Eugênio Bucci – É exatamente isso. O Protocolo está previsto desde 2004. Naquele ano, para cobrir as eleições, a Radiobrás publicou previamente um protocolo de compromisso. Mas eram eleições municipais e que, portanto, tinham impacto menor na nossa pauta, que é claramente uma pauta vocacionada para o tema da nacionalidade. Portanto, já tínhamos noção, naquela época, de que a cobertura de 2006 se daria nesses termos. Mas é claro que isso também é uma evolução. Hoje temos um plano estratégico baseado no atendimento do direito à informação e na objetividade do jornalismo. Isso está afixado em todas as paredes da Radiobrás e foi um trabalho feito ao longo de 2003 com todos os funcionários. Missão, valores, os nossos objetivos imediatos, a nossa visão de futuro, tudo isso foi trabalhado e inspirou, alimentou, abasteceu, informou todo o planejamento que veio depois. Nós temos, a partir daí, a estratégia editorial, as diretrizes do radiojornalismo e do telejornalismo.
J&Cia - A cobertura das últimas crises ajudou a amadurecer essas decisões?
Eugênio Bucci - Não há dúvida que sim. Foram momentos sempre muito delicados, mas enriquecedores. Publicamos ao todo, só na Agência Brasil, algo em torno de 3.500 matérias sobre a crise e seus desdobramentos. Em alguns casos, as nossas matérias deram informações em primeira mão e abasteceram todos os outros sites. Esses "testes" foram formando a massa crítica da Radiobrás, credenciando-a a dar novos passos. E o Protocolo de 2006 acabou sendo bastante diferente do de 2004 naquilo que ele tem de complemento, de detalhe, de profundidade. Não naquilo que ele tem de princípios. Os princípios são os mesmos, mas ele detalha muito mais, por exemplo, a aplicação da lei a essa questão. E detalha aquilo que é específico de uma empresa de comunicação, à luz da disposição legal. Então, em síntese, é um termo de compromisso com o público para tornar esse público fiscal do seu cumprimento, que garante o apartidarismo durante o processo eleitoral, tanto nas matérias que tratam do processo eleitoral em si, como nas matérias que tratam dos assuntos corriqueiros que a Radiobrás cobre e que fazem a maioria da sua pauta, e que continuarão fazendo a maioria da sua pauta. São assuntos de movimentos sociais, de ações de governo, da vida nacional, enfim. Esse termo de garantia de apartidarismo no processo eleitoral é uma coisa que consideramos uma contribuição de inovação na comunicação pública no Brasil.
J&Cia - Existe algum exemplo no cenário internacional que tenha servido de inspiração para vocês?
Eugênio Bucci – Eu não conheço. Porque, no cenário internacional, se olharmos as instituições que são paradigmas da comunicação pública, vamos ver que elas funcionam de uma tal maneira que seria apenas ocioso falar especificamente qual será o seu comportamento no período eleitoral. Mas para a Radiobrás, não é ocioso. E para a comunicação pública no Brasil – estou me referindo a todas as instituições, tevês e rádios públicas ou estatais – sempre há um grau de risco quando se entra num processo eleitoral. Ou as instituições evitam cobrir o assunto, quando é do seu dever tocar no assunto, ou omitem certos aspectos da cobertura que terminam por favorecer o partido do governo. E isso é um tema sensível no Brasil. Nós temos plena consciência de que esse é um tema delicado, suscetível de embaraço, de constrangimento. Mas, na coerência do que vem sendo feito, não poderíamos deixar de tornar públicas as nossas intenções e os nossos deveres.
J&Cia - Uma dos pontos do Protocolo é a determinação de regras rígidas para os funcionários no que diz respeito ao engajamento pessoal nas campanhas e o trabalho na Radiobrás. Como isso foi recebido? Nós que somos de uma geração que viu redações inteiras engajando-se no processo político...
Eugênio Bucci – Para mim é engraçado, porque nunca fui repórter, editor ou diretor de redação da área política, e sempre participei das campanhas, publicamente. Hoje, não posso participar. Sou presidente da Radiobrás, que cobre política, e não vou ter nenhum engajamento público na campanha de ninguém. Porque isso poderia suscitar dúvidas quanto à lisura com a qual tentamos conduzir a instituição. Esse é um caso típico, previsto na ética da administração pública, em que pode se instalar um conflito de interesses entre o exercício da função da autoridade pública – que, no caso, sou eu – e o engajamento político-partidário. Nesse caso a ética recomenda – e recomenda expressamente – que seja feita uma opção: ou você faz uma coisa ou faz outra - artigo 7º da Resolução do Conselho de Ética da Alta Administração Pública (ver íntegra ao final da entrevista). A Radiobrás, então, se baseia em disposições, em legislações que estão postas aí. Para melhor traduzir os princípios da ética pública, o presidente da Radiobrás não fará campanha, os diretores da Radiobrás não farão campanha, e os dirigentes dos veículos e alguns apresentadores não farão campanha. O que é fazer campanha, no nosso entendimento? É você, publicamente, assumir uma posição a favor ou contra um candidato, entrar em programas de televisão... Esse cuidado está tomado. Além disso, há outros cuidados: nenhum funcionário, durante o horário de trabalho, tenha a função que tiver, poderá portar ou trajar material de propaganda política. O que está por trás disso? A compreensão de que a instituição empresa pública é uma instituição que pertence à sociedade, no sentido de que pertence ao público, ao cidadão; ela é do Estado, mas se presta a atender aos direitos do público. Portanto, ela não pode se prestar a projetar a campanha de um candidato ou de uma parte do público. A partir do momento em que isso acontece, ela deixa de ser do público e se torna de uma parte do público. E isso geraria distorções. Portanto, nas paredes da Radiobrás não vão ser afixados cartazes, nos automóveis a serviço da empresa não haverá adesivo, nenhum apresentador de rádio ou de televisão fará menção a favor ou contra candidaturas, e no horário de trabalho nenhum profissional poderá distribuir panfletos, fazer propaganda. É claro que asseguramos, garantimos e estimulamos a participação política dos cidadãos. Mas, no caso do funcionário, não enquanto ele estiver investido de uma função pública. Fora do horário de trabalho ele pode se engajar em campanhas, militar. Isso é positivo. Também não é indicado que um funcionário da Radiobrás concilie o seu trabalho na empresa com o trabalho em um comitê eleitoral. Isso está indicado como uma prática que não será aceita aqui; se quiser trabalhar regularmente num comitê eleitoral, ele precisa se licenciar. Todos esses dispositivos, todas essas recomendações têm por objetivo preservar a credibilidade da informação que produzimos e publicamos. Não apenas naquilo que é feito, como também naquilo que aparentemente é feito ou deixado de fazer. Estamos tomando conta dos procedimentos da Radiobrás e também da imagem que têm esses procedimentos junto ao público, para que esse mesmo público possa efetivamente confiar no que a Radiobrás divulga.
J&Cia - Houve resistências?
Eugênio Bucci – Foi aceito, aliás, muito bem. E por que foi muito bem aceito? Porque não é uma coisa que cai do céu. Isso já aconteceu em 2004, num grau menor, porque era uma eleição municipal. Mas não é uma medida estranha para o público interno a publicação de um protocolo. Depois, isso eleva o valor, e o valor percebido, tanto da Radiobrás como daquilo que ela produz. E isso faz crescer a importância, ou a presença da empresa, e a auto-estima de cada funcionário. Estamos conduzindo uma empresa que pode ter a cabeça erguida. Não estamos a serviço de nenhuma força estranha; a única força é a de atender o direito à informação do cidadão. Para fazer melhor esse serviço, precisamos tomar cuidado para que o que se faz não seja visto como um conteúdo partidário.
J&Cia - E o que dizer das eventuais pressões por favorecimentos?
Eugênio Bucci – Esse é um ponto crucial. Esses princípios, como eles se materializam? Como eles se traduzem na prática? Adotamos a seguinte orientação: criamos uma editoria especial multimídia para cobrir eleições. Veja só, a Radiobrás cobre, cotidianamente, uma série de processos a partir dos fatos do dia-a-dia. Processos que têm a ver com o meio ambiente, com o mundo do trabalho, com a participação política, com os níveis de decisão da administração pública. Tudo isso continua sendo coberto nas editorias regulares da empresa, isso no rádio, na tevê, na agência de notícias, na internet. A eleição é um episódio especial, não é continuado, tem data para começar e para acabar. Nós criamos uma editoria especial que vai cobrir esse processo. Todo assunto, matéria ou notícia relativa à eleição será processada por essa editoria. Pode ser que a pauta não seja gerada por essa editoria, mas obrigatoriamente o assunto passará por ela e será publicado com um identificador – Radiobrás Eleições 2006. Ou seja, o público, sempre que aparecer esse identificador, saberá que aquela matéria se refere às eleições. E ela será processada por uma editoria que produzirá reportagens para todos os veículos, daí ser uma editoria multimídia. Dentro dela, teremos um controle estrito para assegurar que todos esses cuidados venham a ser observados. Isso vai se verificar no dia-a-dia. Aí você pergunta: mas... e as pressões? Eu acredito, hoje, depois de três anos e meio de Radiobrás, implementando uma série de mudanças, que existe uma sensibilidade muito grande na administração pública para o valor do que está sendo feito aqui. Há uma compreensão de que, para qualquer governo, não há valor maior – se ele tem uma instituição que veicula informações jornalísticas – do que a confiança do público. Não é verdade que seja negativo uma emissora de rádio da Radiobrás dizer que está sendo investigada a autoridade tal por conta de uma denúncia tal. Isso não deve ser escondido da opinião pública. O governo, quando tem uma emissora de rádio que noticia isso normalmente, ganha em credibilidade. Noticiar uma verdade não é ruim para o governo, é bom. Mesmo quando essa verdade aponte um problema na gestão. Por que isso é bom? Da mesma forma que é bom um hospital dar um atendimento decente para os seus pacientes, rápido, eficiente. Da mesma forma que é bom uma escola com bom nível de ensino, com bons professores. O nosso negócio é prestar informação para o público. Essa informação precisa ser boa, respeitando o direito à informação do público. Isso acaba resultando em mais credibilidade para as próprias instituições públicas. Nesse universo, acho que uma cobertura equilibrada, apartidária, não apenas será aceita como estimulada pelas autoridades do Governo. O fato é que o Protocolo é uma medida que pode surpreender pelo seu ineditismo, mas ele é a culminação de uma grande transformação de fundo que já aconteceu na Radiobrás. A surpresa, hoje, para quem conhece o que está sendo feito, seria se a cobertura eleitoral fosse diferente.
J&Cia - E como você tem atuado em relação à área política? Tem se comportado como um embaixador da Radiobrás?
Eugênio Bucci – Eu tento ser. De que forma? Sempre que a Radiobrás toma medidas importantes, tentamos fazer com que isso seja do conhecimento do maior número de pessoas, inclusive dentro do Governo. Fizemos isso em alguns momentos. Agora, por exemplo, mandamos esse Protocolo para todos os partidos políticos, eu recebi várias reações favoráveis de ministros aos quais também mandamos, e ainda vou enviar para mais gente. A reação, por exemplo, no Conselho de Administração, que tem integrantes designados pelo Governo, foi excelente. Inclusive, a sugestão de que nós mandássemos isso para os partidos políticos foi do Antonio Lassance, que é o presidente do nosso Conselho de Administração. Existe, portanto, uma percepção, que cresce a cada dia, de que este caminho é o mais compatível, o mais adequado ao momento da democracia brasileira. Nós vivemos num país em que isso precisa ser feito; é preciso sinalizar sempre que a informação, dentro das instituições públicas que têm o dever de informar, é tratada com respeito, com obstinação pelo direito à informação e não pelo partido ou pelas preferências de quem eventualmente ocupe os cargos mais altos na administração do Estado.
J&Cia - Já está definida a equipe que vai atuar na cobertura?
Eugênio Bucci - Essa é uma equipe que vai ter momentos de crescimento. Para a Radiobrás – uma coisa importante –, a campanha eleitoral começa depois do dia 5 de julho, que é quando o Tribunal Superior Eleitoral recebe as inscrições e o processo de definição de candidaturas está definitivamente encerrado. Nós nos pautamos pelas agendas oficiais. Isso é uma característica e um diferencial da Radiobrás e uma vantagem quando se trata de informação sobre Estado e Governo. Não cobrimos especulações eleitorais... e isso tudo, inclusive, é dito no Protocolo. Quando a cobertura começar efetivamente, teremos uma editoria com outra configuração. O trabalho atual, comandado pela Helenise Brant, é de planejamento. Mas a editoria já está instalada.
J&Cia - E em relação à cobertura dos demais temas, muda algo?
Eugênio Bucci - Considero importante reafirmar que esse Protocolo não tem apenas o objetivo de deixar claro que não haverá partidarismo na cobertura das eleições; ele tem o objetivo de deixar claro que não haverá partidarismo na cobertura das outras matérias ou em qualquer programa ou material produzido pela empresa. E isso não é pouco, tendo em vista que o tema eleições ocupará apenas um pequeno espaço da cobertura total. Somos, hoje, uma empresa integrada por cinco emissoras de rádio – que em breve serão seis, com a inauguração da rádio de Tabatinga –, e por duas emissoras de tevê; temos a TV Brasil em conjunto com Senado, Câmara e Supremo Tribunal Federal; e temos duas agências de notícias. Todas funcionando 24 horas por dia.
J&Cia - Você tem idéia da audiência?
Eugênio Bucci – Nós não pagamos Ibope. É uma deficiência da Radiobrás. Não temos recursos para pagar relatórios do Ibope. Mas as nossas duas emissoras de rádio em Brasília - Nacional AM e FM - estão bem posicionadas e a TV Nacional, mesmo tendo uma audiência menor, comparável às audiências das emissoras públicas nas diversas cidades, é uma emissora de um certo prestígio em Brasília.
J&Cia - Como é ser uma emissora do Estado, que faz comunicação do Estado?
Eugênio Bucci - Calma lá, vamos devagar! A Radiobrás é uma empresa pública, regida pela Lei das S.A. – portanto uma empresa pública de direito privado – e que tem no Estado o seu único acionista. Mas o que é comunicação de Estado? As pessoas confundem comunicação de Estado com propaganda de governo e com propaganda de governantes. Isso, em nenhum momento, jamais na história, foi atribuição da Radiobrás. Relações públicas de governo, assessoria de imprensa do presidente da República, propaganda de atos de governo, isso é incumbência da administração direta, não é da administração indireta, onde está a Radiobrás. Ela não tem essa função. Aí as pessoas dizem: “Mas comunicação de governo, empresa de governo ou emissora do governo pode falar bem do governo”. Não pode, não senhor. Ela só pode trabalhar para atender ao direito à informação do cidadão. Ela deve se abster de falar bem ou de falar mal. No que se refere à informação, ela tem que dar a informação. E tentar não ter uma opinião, que fique martelando na cabeça do ouvinte ou do telespectador. Ela está a serviço da formação da opinião do cidadão, mas não pode estar propensa a dirigir a formação da opinião do ouvinte, do telespectador ou do internauta. O que estamos tentando construir aqui é a clareza de que todos os que trabalham com informação precisam exercitar todos os dias o espírito público. Aliás, eu diria que estamos fazendo com que a Radiobrás chegue mais perto daquilo que a lei sempre desejou para ela.
J&Cia - E a Helenise já tem uma idéia do tamanho da equipe?
Helenise Brant – Estamos na fase final do planejamento. A equipe vai crescer à medida que a eleição se aproximar. Hoje temos oito pessoas trabalhando no planejamento. Não temos um número exato, mas acho que vamos chegar a uns trinta.
J&Cia - Virá gente de fora.
Eugênio Bucci – Não, vamos montar a editoria com gente da casa mesmo. Queremos ter nela alguns dos nossos melhores profissionais, porque sabemos das dificuldades e das complexidades desse processo. Vamos ter uma tropa de elite de excelente qualidade.
J&Cia - Como é que vocês vão exercer a crítica desse processo?
Helenise Brant – Isso já faz parte da nossa prática. É permanente. Aliás, já começou na editoria, por incrível que pareça. Nem começamos a trabalhar e já estamos fazendo a crítica. (risos) Como temos duas reuniões diárias, uma às 10h da manhã e outra às 7 e meia da noite, aproveitamos os dois momentos para também discutir toda a cobertura. O que estamos fazendo, o que vamos fazer e uma avaliação do que passou.
Eugênio Bucci – Isso já está implantado. É o nosso método de trabalho, com planejamento da qualidade editorial. Tem alguns pontos de apoio. Vou falar três. O plano editorial, que é elaborado com a colaboração da equipe envolvida – temos mais de vinte planos editoriais, para veículos, para programas, coisas assim. Tem o que chamamos de audiência crítica ou leitura crítica, que é um serviço interno e que acompanha um determinado veículo durante X dias ou acompanha um determinado programa, produz um relatório a partir do que se vê nele, frente ao que prevê o plano editorial daquele programa. E um terceiro ponto são as reuniões de qualidade, ou reuniões de crítica. Isso é rotina na Radiobrás há uns dois anos e meio. Todos os veículos vivem isso. Tentamos não estabelecer distinção entre pensar, criticar e fazer, porque o nosso é um trabalho de produção "intelectual". Todas as pessoas são desafiadas a pensar, criticar e fazer. Essas reuniões de que a Helenise falou acontecem todos os dias. E essas críticas fluem dessa forma.
Rodrigo Savazoni – Esses relatórios são diários, em relação à cobertura da Agência, por exemplo. E eu os utilizo para acompanhar o comportamento da cobertura.
J&Cia - Você não teme pela descontinuidade do projeto, independentemente de quem vença as eleições?
Eugênio Bucci – Essa pergunta é dolorosa. Vou te falar uma coisa: eu desafio qualquer instituição pública de comunicação, hoje, a fazer o contrário do que o nosso Protocolo garante que nós vamos fazer. Quer dizer, se alguma instituição pública hoje no Brasil fizer uma cobertura partidarizada, ela terá problemas com a opinião pública. Dou essa resposta inicial para dizer que a maior força a garantir que o que está sendo feito aqui, de alguma forma, continuará é a força da exigência democrática. A consciência democrática no Brasil vem se aprofundando. Antes, era comum que um sujeito chegasse numa escola, desse uma “carteirada” e furasse a fila para matricular o sobrinho. Antes, se aceitava como um dado da normalidade que um cacique político manipulasse a distribuição de algum direito como se fosse privilégio. Hoje, quando falamos desse tipo de distorção em Saúde e Educação, a opinião pública se levanta. Já existe consciência disso. Em pouco tempo, a mesma coisa vai acontecer quando estivermos falando de informação. É que o Brasil é um país que ainda não tem tradição de transparência de informação. Se você quer saber quanto o Ministério está gastando, é uma dificuldade. Se quer saber se o dinheiro saiu daqui e chegou na ponta, lá em tal cidade, é uma dificuldade. A administração pública começou a se preocupar com isso há pouco tempo. Não temos nem transparência na administração pública; que dirá transparência da informação em emissoras públicas! Mas a democracia é que exige isso. O que temos feito aqui está muito afinado com essas novas demandas. Pode amanhã tudo ser revertido? Em alguns termos, isso é possível. Pode-se fechar a Radiobrás... o que seria um erro. A Radiobrás tem contribuições que podem ser transformadas, tem áreas que podem ser profundamente renovadas – nós estamos fazendo isso em algumas medidas; em outras é preciso ir além -, mas a organização presta um serviço essencial, em vários níveis, para a sociedade brasileira. Simplesmente extingui-la seria um erro; mas isso pode acontecer. Tornar a cobertura partidária, ou tornar a cobertura um serviço de propaganda de governo, como foi nos piores anos da ditadura militar, pós-ditadura militar, isso muito dificilmente vai acontecer. A conquista, na Radiobrás, não é uma conquista para se deixar escrita nos termos da lei. Mesmo porque a lei nunca a obrigou a fazer comunicação partidária, proselitismo, propaganda ou assessoria de imprensa. A conquista aqui é a mudança da prática, do hábito interno rotineiro da empresa. Isso é que foi transformado e isso é que tem grande chance de prosperar. Isso é muito aceito nas outras instituições de comunicação.
J&Cia - A propósito, como a Radiobrás tem-se relacionado com as outras instituições públicas de comunicação?
Eugênio Bucci – Olha, há alguns fatos que ilustram isso muito bem. Por exemplo, criamos, junto com o José Alberto da Fonseca – que na época era o presidente da Rádio Inconfidência, em Minas Gerais – a Associação das Rádios Públicas do Brasil, a Arpub. Não existia. Hoje já existe uma grande articulação de rádios públicas; ainda engatinhando, mas que dá um bom sinal de como é a nossa relação com outras emissoras. Na televisão, a Radiobrás estava fora da Associação Brasileira das Emissoras Públicas Educativas e Culturais; pedimos o ingresso, entramos na associação e hoje sou vice-presidente dela. Temos programas compartilhados com outras emissoras de tevê, o nosso Diálogo Brasil é exibido em praticamente todas as outras emissoras públicas do Brasil.
J&Cia - Você vê indícios de mudanças nas demais emissoras públicas do País?
Eugênio Bucci – Veja, temos aqui um processo de mudança muito recente. Se você pensar, dois anos, isso não é nada. A maior tradição de comunicação pública que nós temos no Brasil é a TV Cultura de São Paulo. E deve ser, nesse sentido, cultuada, por todos nós que gostamos da comunicação pública. Mas mesmo a TV Cultura enfrenta problemas de garantir espaço, com autonomia, para a informação objetiva. Ninguém está livre disso. Isso é uma batalha cotidiana.
J&Cia - Como esse trabalho específico do Protocolo foi coordenado? Teve uma comissão, alguém que coordenou?
Eugênio Bucci – Teve. Se você pegar, por exemplo, o nosso “Jornalismo na Radiobrás”, que é um documento que já está publicado há dois anos ou mais, é um trabalho que envolveu muitas pessoas. O Protocolo envolveu muita gente. Foi construído ao longo de meses, com a participação mais intensa da Helenise Brant, do Rodrigo Savazoni, do José Roberto Garcez, do Celso Nucci, do Aloízio Milani, do Bruno Vichi... e dezenas de outras pessoas.
J&Cia - Mas, basicamente, foi o Jornalismo em peso, a área Jurídica...
Eugênio Bucci – Isso, com a participação também do Henri Kobata, que é integrante do nosso Comitê de Qualidade Editorial. Mas a amarração final está nesse grupo de pessoas.
Rodrigo Savazoni – Chegamos a fazer algumas discussões que envolveram toda a redação. Houve uma fase de prospecção também, uma outra para compreender um pouco melhor tudo o que se estava propondo, desde normatizações de natureza ética, passando por questões de adequação à legislação e outras operacionais, até a criação de uma editoria para coordenar o processo. Fizemos um bordado, na verdade, de todos os elementos que foram discutidos nesse processo.
J&Cia - Uma coisa que chamou a atenção é que o Protocolo garante que todos os candidatos terão tratamento igual, independentemente de peso político, índices de pesquisas etc.
Eugênio Bucci – Sem dúvida.
J&Cia - Mas como é que vocês vão administrar isso?
Rodrigo Savazoni – Tivemos uma discussão na Agência. Num primeiro momento pensamos: todos vão ter o mesmo tempo. Mas chegamos à conclusão de que deve prevalecer o critério jornalístico.
Eugênio Bucci – Mas o que é preciso assegurar é exatamente isso. No segundo turno – se houver segundo turno –, não há problema, porque você pode fazer uma coisa matemática. No primeiro turno, isso é difícil. Não está descartada, por exemplo, a possibilidade de haver uma candidatura que nem gere fatos e que às vezes até demore a responder perguntas que serão encaminhadas...
Rodrigo Savazoni – Talvez o fato de ela não responder seja justamente a matéria... (risos)
Eugênio Bucci – O nosso compromisso é o de, primeiro, assegurar tudo o que a lei manda assegurar, no que se refere a espaço, essas coisas todas. Mais do que isso, fazer uma cobertura equilibrada. A noção do equilíbrio, aí, é mais importante, na nossa maneira de ver, do que a visão matemática dos espaços. Você pode ser desequilibrado dando o mesmo espaço para todo mundo. E você pode ser equilibrado admitindo pequenas variações de espaço, que, muito provavelmente, ao final do prazo, ao final de todos os dias de campanha, vai se equilibrar, vai até se equalizar. Mas é isso que nós procuraremos fazer.
Helenise Brant – A nossa cobertura também terá uma característica muito própria, porque não vamos fazer essa cobertura tradicional, noticiando acusações, denúncias etc. Por quê? Porque vamos ter o foco no interesse do cidadão, ou seja, queremos que o cidadão possa exercer o seu direito ao voto de uma maneira mais lúcida. Nós vamos discutir os planos de governo dos candidatos, as propostas que têm para o País. E deixe-me antecipar uma coisa: pretendemos fazer essa discussão com a sociedade. Se um candidato apresenta uma proposta para a área da Educação, nós vamos procurar as instituições, as ONGs, os organismos da sociedade para ver qual é a demanda, vamos ver o que é que tem de política hoje instalada no País... Vamos fazer um pacote editorial sobre os vários temas. O que os candidatos A, B, C e D estão discutindo. Isso dá isonomia, porque, na verdade, não vamos dar 30 segundos para cada um, para um xingar o outro.
Eugênio Bucci – É isso. E no Protocolo essas coisas aparecem. O Protocolo torna isso expresso. Nós não vamos publicar nem encomendar pesquisa eleitoral, por exemplo. Nem vamos organizar debates entre os candidatos ou publicar informações sobre a vida privada deles, e tampouco ir atrás de especulações ou de bate-boca entre eles. Queremos cobrir o processo e fornecer informação útil e de qualidade. Não que essas outras coisas sejam menos importantes, mas é que além de não estar no foco de uma emissora pública a cobertura desses outros temas será muito bem feita pela mídia comercial.
Rodrigo Savazoni – O que a crise política nos mostrou é que o fato de estabelecermos critérios para a cobertura – por exemplo, acompanhar, de fato, o que se deve investigar – muitas vezes nos dá precedência sobre a mídia comercial. Esse foi o caso, por exemplo, da cobertura sobre o relatório produzido pelo procurador-geral da República. A cobertura da agência foi maior em volume e também a mais completa, não só por ter cruzado vários dados, mas também por ter contextualizado melhor as informações. Por quê? Porque estávamos absolutamente focados nisso. Nós não estávamos preocupados em buscar um bastidor ou em fazer uma nota. Nosso foco absoluto era checar e detalhar as informações.
(*) - RESOLUÇÃO Nº 7, DE 14 DE FEVEREIRO DE 2002, DA COMISSÃO DE ÉTICA PÚBLICA - A Comissão de Ética Pública, com fundamento no art. 2º, inciso V, do Decreto de 26 de maio de 1999, adota a presente resolução interpretativa do Código de Conduta da Alta Administração Federal, no que se refere à participação de autoridades públicas em eventos político-eleitorais.
Art. 7º - Havendo possibilidade de conflito de interesse entre a atividade político-eleitoral e a função pública, a autoridade deverá abster-se de participar daquela atividade ou requerer seu afastamento do cargo.
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