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O futuro da TV nos celulares.


 

Informação: Comunique-se - 29/05/2006

Antonio Brasil

No Brasil, estamos em ritmo de Copa do Mundo. Nada é mais importante no país do futebol. Nos próximos meses estaremos grudados e ainda mais dependentes da televisão. Assistir aos jogos da seleção é mais do que uma obrigação. É dever cívico. 

Agora, imaginem a seguinte situação. Você está em casa preparado, concentrado com a família e muitos amigos para assistir à final da Copa do Mundo entre o Brasil e a Argentina. O confronto do século. Nada lhe parece mais importante. Na TV o juiz se prepara para dar início à partida. 

Neste exato momento, o telefone toca. Do outro lado, o seu patrão. Ele descreve uma situação de emergência na empresa. Você tem que ir imediatamente para o escritório ou...

Neste caso, suas opções são: 
a. Mando o patrão...procurar outro funcionário e desligo. Seja o que Deus quiser. Nada é mais importante do que uma final de Copa do Mundo. Ainda mais contra a Argentina.

b. Me lembro da crise econômica, das altas taxas de desemprego no Brasil, das contas a pagar e resignado, vou para o trabalho. Não tem jeito. Tinha que acontecer logo comigo. 

c. O que se há de fazer. Chamo um táxi, pego o meu novíssimo celular que transmite TV ao vivo e assisto ao jogo a caminho do escritório.

d. Nenhuma das opções anteriores. A vida não faz o menor sentido!

Perceberam a importância, o potencial daquela telinha minúscula com imagens ainda meio distorcidas e lentas que você tanto desprezou nos novos telefones celulares dos amigos ou dos seus filhos? 

Talvez você também agora entenda por que os radiodifusores brasileiros estão tão preocupados com os avanços das empresas de telecomunicações no mercado de TV digital.

Pesquisas recentes nos EUA (ver aqui) indicam que mais de 2 milhões de americanos já assistem regularmente à TV móvel. Os especialistas também estimam que os negócios com TV móvel atingirão a cifra de 27 bilhões de dólares em 2010 somente nos EUA. No Brasil, não há pesquisas ou estimativas precisas. Mas os nossos velhos radiodifusores conhecem muito bem o potencial da TV em celulares e não querem arriscar um modelo de gestão que garante monopólios hereditários e altos lucros.

Afinal, o celular pode ser para a televisão o que radinho de pilha foi para o rádio. Nos anos 50 todos anunciavam a morte do meio radiofônico. Grande e estático, não conseguiria enfrentar as investidas de um novíssimo e poderoso meio de comunicação de massa: a televisão. O fim do rádio era anunciado e considerado inevitável.

Pois foi uma nova tecnologia, o transistor nos radinhos de pilha ou nos rádios em veículos que garantiram a sobrevida do meio. Não seria mais hegemônico. A televisão, mesmo com uma péssima imagem e com os mesmos programas produzidos pelo rádio, em poucos anos, se tornaria líder de audiência.

Para sobreviver, o rádio teve que desenvolver uma nova linguagem mais ágil, mais barata e criativa. Com a ajuda do telefone reinventaria a interatividade e com a mobilidade estaria ao lado do ouvinte em todos os lugares.

Hoje, o meio radiofônico se reinventa novamente em sistema digitais via satélite ou em novíssimos Ipods. Não compete, mas convive com a TV e ainda garante a seus proprietários grande audiência e bons lucros. A televisão não matou o rádio. Mas obrigou-o a se “reinventar”.

Agora, um processo histórico semelhante pode estar acontecendo com a TV.

A velha história é sempre uma boa referencia para entender o presente e prever o futuro.

Para desvendar esse futuro, a revista do New York Times publicou neste final de semana uma excelente matéria de capa sobre a TV nos celulares: The shorter, faster, cruder, tinier TV Show, que poderia ser traduzido como “Programas de TV mais curtos, mais rápidos, simples e menores”. O título resume muito bem o longo conteúdo. O futuro da televisão talvez não esteja nas promessas de uma TV digital com imagens de alta definição com a mesma programação de sempre. Mais importante do que a qualidade da imagem seria a mobilidade, o acesso fácil em qualquer lugar e a criatividade ou originalidade do conteúdo.  

Para os jornalistas do NYT, mesmo com restrições e desvantagens, o desafio do futuro da TV passa essencialmente pelos celulares. Com a introdução cada vez maior dos sistemas de transmissão de Internet em banda larga, assistir à TV e vídeos na rede, já são consideradas práticas normais e estabelecidas. A próxima grande fronteira da TV, no entanto, estaria nos celulares.

Para concretizar essa migração digital, ainda é necessário melhorar a transmissão e criar novos conteúdos específicos para o novo meio. Por um lado, ainda podemos transmitir o mesmo conteúdo de sempre nos celulares. O exemplo dos jogos na Copa do Mundo se encaixa nessa opção. Por outro, temos que experimentar uma nova linguagem específica para conquistar um novo público formado principalmente, por jovens, que não vivem mais sem Internet ou celulares.

Nesse setor, a rede MTV– Music TV, sempre pioneira em inovações e reinvenções, saiu na frente. O artigo descreve os esforços dos executivos da rede americana para produzir conteúdo específico para celulares. Agora, imagine as dificuldades para os produtores de TV tradicional, mesmo para os profissionais da MTV, executivos que sabem tudo de TV, para desenvolver o potencial e ultrapassar os limites da TV em celulares.

Antes de tudo, esses produtores de TV lutam contra suas próprias certezas. Precisam esquecer quase tudo que acreditam e reinventar o meio. Mas os futuros sucessos, tanto na TV, na Internet, como nos celulares, serão certamente produzidos por jovens que jamais foram formados ou “dominados” diante da tela de TV.

Para eles, a experiência de produzir ou assistir vídeos “esdrúxulos” na Internet ou nos celulares se confundem. Tanto faz. Não há monopólios de produção e experimentação na rede. Tudo é possível. Tudo pode fazer sucesso. Para esse novo público, o bom conteúdo é rapidamente divulgado e consumido. Eles se afastam das certezas da TV que se tornou aquele grande e imóvel “mostrengo” com uma programação chatíssima. Um meio de comunicação assistido por velhos e dominado pela autoridade ou censura dos pais.

Para esse novo público, assistir a televisão na Internet ou nos celulares tornou-se uma experiência restrita, exclusiva e “pessoal” que pode ser compartilhada por uma pequena ou uma enorme rede amigos ou desconhecidos. Tanto faz. O sucesso nos vídeos ou programas de TV na Internet ou nos celulares é para ser “efêmero”. Custa pouco e dura ainda menos. Mas não dá prejuízos a seus produtores-experimentadores.

Os vídeos jornalísticos mais engraçados
Querem um exemplo dessas produções esdrúxulas? Selecionei algumas que já são consideradas clássicas na rede.

O sucesso mais recente é o vídeo com o telejornal da BBC com a entrevista de um motorista de táxi ou candidato a vaga de trabalho que teria sido confundido com um expert em novas tecnologias. Pego de surpresa e colocado diante das câmeras, ao vivo, ele teve que responder as perguntas da entrevistadora. O vídeo é simplesmente imperdível. A expressão de surpresa do convidado-trapalhão é um dos melhores momentos do telejornalismo de todos os tempos. Diz tudo. Virou um fenômeno da Internet e mostra melhor do que muitos artigos, críticas ou discussões acadêmicas, os grandes desafios e problemas enfrentados hoje pelo jornalismo de TV. Ao priorizar a rapidez na produção e explicação de notícias, a o jornalismo de TV recorre à opinião de experts desconhecidos que falam qualquer bobagem em poucos segundos. Até que o motorista de táxi não se saiu mal. Mas os riscos são enormes. Além de engraçado, o vídeo mostra que até mesmo a velha BBC não escapa do poder da Internet. Eles bem que tentaram impedir a divulgação do vídeo. Mas já era tarde. A rede sempre funciona independente da vontade e da censura dos poderosos. E tinha que acontecer logo agora na BBC! (Ver aqui).

Outro exemplo clássico é esta entrevista em um programa auditório. Você não precisa entender uma palavra – mas a incontrolável reação de riso quase “histérico” do apresentador ao ouvir um dos participantes é um dos momentos mais engraçados da Internet. (Ver aqui)
 
Este vídeo nos lembra um dos melhores exemplos do jornalismo brasileiro de TV na Internet. A reação da Lílian Witte Fibe ao ler uma dessas notícias sem pé nem cabeça distribuída pelas agências internacionais sobre “velhinha presa em aeroporto com Viagra na bagagem”, também faz a nossa seleção dos vídeos mais engraçados da Internet. Impossível não rir. Um dos melhores momentos do Jornal da Lílian na rede. (Ver aqui)

Mas há muitos outros. Eles podem ser vistos em vários sites especializados na distribuição gratuita de vídeos na Internet como o YouTube (ver aqui), telefones celulares, Ipods ou até mesmo na velha TV. Não importa. A qualquer hora ou em qualquer lugar, o importante ainda é encontrar e assistir a um conteúdo televisivo diferenciado, inovador e criativo.