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Os 54 anos da Itaí AM, pioneira do rádio povão no Rio Grande do Sul.
Quem sintoniza, hoje, a Rádio Itaí AM não pode imaginar o que esta pequena emissora já significou para os ouvintes da Região Metropolitana de Porto Alegre. É mesmo impossível ter uma idéia do que foi a audiência da mais freqüente líder nos levantamentos do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística ao longo dos anos 60, 70 e 80.


 

Informação: Caros Ouvintes - 06/03/2006

Por Luiz Artur Ferraretto

Em meio às inflamadas gritarias dos pastores da Igreja Pentecostal Deus é Amor, controladora da emissora desde 1983, é mesmo difícil acreditar que a Itaí tenha sido importante a ponto de lançar as bases do rádio popular na capital gaúcha, com música, serviço e brincadeiras ao microfone. Curas radiofônicas e evangélicas à parte, a estação está chegando aos seus 54 anos.

No dia 8 de março de 1952, o ex-corretor de anúncios da Gaúcha Marino Esperança inaugurava a então ZYU-33 – Rádio Itaí, com transmissores no município de Guaíba, local da concessão outorgada pelo governo, mas com o estúdio instalado no prédio do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Comerciários, próximo da avenida Borges de Medeiros, no centro de Porto Alegre. Ao contrário de suas antecessoras, a quarta emissora a operar na capital do Rio Grande do Sul não chegou anunciando mudanças significativas na radiofonia local.

Surgiu quase como uma coadjuvante em um mercado de razoável a bom para quem tinha condições de contratar os principais artistas locais ou de trazer os grandes nomes do rádio e da indústria fonográfica do centro do país.

Neste contexto, a Itaí passaria por várias reestruturações administrativas, até se estabilizar em uma posição confortável em termos de audiência. Em meados da década de 60, alguns fatores convergem para permitir que, em uma iniciativa modernizadora, a emissora revolucione o rádio do Rio Grande do Sul. O primeiro deles é o fim do espetáculo radiofônico das novelas, humorísticos e programas de auditório, de forte apelo popular, que perde espaço na programação ao longo da década. A migração destes tipos de atração para a TV, no entanto, não se faz acompanhar por uma audiência formada pelos estratos menos favorecidos, afastados, de início, do novo veículo pelo alto preço dos televisores. Cabe lembrar que, na época, um aparelho chega a custar o equivalente a três salários mínimos, distante, portanto, das possibilidades de consumo, por exemplo, do operariado. De outra parte, o êxodo rural, associado à crescente concentração de renda provocada pela política econômica da ditadura militar, contribui para que, nas periferias urbanas, se agrupem populações empobrecidas.

Há, desta maneira, também modificações na própria composição socioeconômica do público, tomado como consumidor pelos veículos de comunicação de massa. Em termos nacionais, de acordo com os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a participação na renda dos 50% mais pobres cai de 17,4% para 14,9% entre 1960 e 1970. No mesmo período, a dos 20% mais ricos cresce de 54,8% para 61,9%. Esta tendência permanece até meados dos anos 70, altera-se um pouco por volta de 1980 e, logo em seguida, é retomada. Assim, coincidindo com o regime militar imposto em 1964, ocorre uma ampliação das classes sociais C, D e E da população.

É para estes estratos sociais que o empresário Lorenzo Gabellini vai voltar a programação da Itaí a partir de 1966. Radialista e publicitário, ele aproveita, ainda, a transistorização dos receptores, que, ao acompanharem os ouvintes, quebram o isolamento dentro do enorme espaço urbano, aos poucos constituído como metrópole.

O novo diretor da ZYU-33 aposta, gradativamente, na prestação de serviço, na música de teor sentimental-romântico e no entretenimento fácil e direto, tudo conduzido pelo comunicador, figura que, no alto-falante dos pequenos radinhos de pilha, assume, de modo simbólico, a função de companheiro da dona de casa e do trabalhador.

Gabellini estabelece, assim, no Rio Grande do Sul, os parâmetros básicos do chamado rádio popular, na expressão comum dentro das empresas de comunicação. Sempre se baseando em pesquisas de opinião – é o primeiro a fazê-lo de modo sistemático no estado –, planeja uma programação focada em canções voltadas à criação de um clima romântico e na participação do ouvinte tornado cativo na expectativa de ter seu pedido musical atendido. Introduz, ainda, no rádio gaúcho, a noção de serviço através do programa Bolsa de Empregos, irradiado das 6 às 8h, direcionado aos que precisam procurar ou oferecer trabalho. Fazendo a emissora transmitir 24 horas por dia, põe no ar o Itaí, a Dona da Noite, transmitido da meia-noite às 6h.

Gabellini lança, ainda, Aconteceu, unindo, com certo toque de sensacionalismo, o noticiário policial e o radioteatro ao dramatizar crimes rumorosos. Deste modo, em poucos meses, a Itaí lidera a audiência, como demonstra a pesquisa realizada, em abril de 1966, pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística:

Emissora

Somente receptores ligados

Itaí

30,5%

Gaúcha

22,2%

Farroupilha

15,4%

Guaíba

9,6%

Demais

22,3%

Desligados

Pesquisa realizada pelo Ibope (15 a 21 de abril de 1966)

Nos anos seguintes, chama a atenção o desempenho da Itaí em termos de audiência. Conforme os levantamentos realizados pelo Ibope, a rádio chega, em alguns momentos, a registrar o dobro da quantidade de ouvintes de suas concorrentes. É o que ocorre, por exemplo, em setembro de 1969:

Emissora

Somente receptores ligados

Itaí

40,02%

Gaúcha

20,55%

Guaíba

12,32%

Difusora

10,53%

Farroupilha

3,78%

Demais

12,80%

Pesquisa realizada pelo Ibope (1° a 14 de setembro de 1969)

Argumento fundamental para a sobrevivência econômica da emissora, a liderança em número de ouvintes vai ser, constantemente, trabalhada pela direção da Itaí na imprensa e junto aos anunciantes. Pelas pesquisas do Ibope, também se pode ter uma idéia do público da rádio: de 70 a 85% formados por integrantes das classes C e D; em torno de 70% pertencentes ao sexo feminino; de 70 a 75% apenas com instrução equivalente ao ensino fundamental; e bem distribuído por todas as faixas etárias, apesar da parcela menor – 10% aproximadamente – corresponder à dos 25 a 29 anos e a maior – 25% – aos com mais de 40. Além disto, para reforçar e ampliar os dados fornecidos pelo instituto, Lorenzo Gabellini chega a criar uma equipe própria para realizar pesquisas junto aos ouvintes.

O sucesso do negócio gera o capital que ampara outras iniciativas, como a compra da Cultura, de Gravataí, e o investimento nas rádios em freqüência modulada Itaí FM (1972), a primeira a operar no Rio Grande do Sul, e Cultura Pop FM (1976), a pioneira em rádio jovem nesta faixa de transmissão. Gabellini tem, ainda, participação no controle da Caiçara, durante um breve período.

Dos empreendimentos de Lorenzo Gabellini na radiodifusão, é a Itaí AM, no entanto, a emissora que mais influencia o contexto comunicacional gaúcho. A partir dela, descobrem-se as classes C e D como segmento de mercado. O serviço à população e o incentivo à participação do ouvinte também se tornam estratégias constantes na obtenção de audiências crescentes. Ao lado de grandes verbas publicitárias de multinacionais – Coca-Cola, Kolynos do Brasil Ltda., Indústrias Gessy Lever S.A.... –, aparecem anunciantes de pequeno, médio ou grande porte associados ao público específico da rádio. São exemplos lojas de departamentos – Hermes Macedo e Imcosul – ou, ainda, de outros tipos, com slogans marcantes, como o Magazine Alberto Bins, “aquele da escadinha”; o Café Carioca, “o amigo do paladar”; e a Soberana dos Móveis, “o crediário mais amigável da cidade”. Para garantir a atração de ouvintes e formando uma espécie de star-system para os estratos C e D, passam pelo microfone da Itaí comunicadores de forte apelo popular: Cicero Augusto, João Batista Marçal, João Carlos Maciel, Marne Barcelos, Sayão Lobato e Sérgio Zambiasi. De 1966, quando Gabellini assume a direção, a 1983, ano em que vende a emissora para a Igreja Pentecostal Deus é Amor, outras estações em amplitude modulada vão seguir o exemplo da Itaí, explorando o segmento. Em boa parte deste período, a rádio lidera a audiência, perdendo, em alguns momentos, o primeiro lugar para a Difusora, a Farroupilha ou a Caiçara, sem, no entanto, deixar de registrar um percentual significativo de ouvintes.

Luiz Artur Ferraretto. Coordenador do curso de Comunicação Social da Universidade Luterana do Brasil, em Canoas, na Região Metropolitana de Porto Alegre. É doutor em Comunicação e Informação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Foi repórter da Rádio Gaúcha e gerente de Radiojornalismo da Rede Bandeirantes/ RS. Com a jornalista Elisa Kopplin, escreveu Técnica de redação radiofônica e Assessoria de imprensa, teoria e prática. Lançou também Rádio – O veículo, a história e a técnica e Rádio no Rio Grande do Sul (anos 20, 30 e 40): dos pioneiros às emissoras comerciais.