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Informação:
Observatório
da Imprensa - 27/12/2005
Venício
A. de Lima (*)
O
ano de 2005 chega ao fim e o balanço que se pode fazer
no sentido da consolidação do direito à
comunicação para o conjunto da população
brasileira não é favorável.
É
verdade que alguns avanços foram feitos. Aparentemente,
houve aumento significativo no grau de consciência coletiva
sobre a importância da mídia no cotidiano das pessoas.
Houve, sobretudo, várias iniciativas do movimento social
e de organizações da sociedade civil. No entanto,
as expectativas em relação a ações
positivas do Executivo e do Legislativo foram se frustrando,
uma a uma, ao longo do ano.
Sem
qualquer pretensão de ser exaustivo, relaciono alguns
exemplos.
Duas
promessas foram feitas pelo governo federal em janeiro, quando
do recuo em relação ao pré-projeto da Agência
Nacional de Cinema e Audiovisual (Ancinav). A primeira, sobre
a imediata elaboração de um projeto que preservasse
o caráter de fomento e fiscalização da
agência. A segunda, sobre a elaboração do
projeto de Lei Geral de Comunicação Eletrônica
de Massa (LGCEM). Nenhuma das duas foi cumprida.
No
caso da LGCEM, decreto de abril criou um grupo de trabalho interministerial
(GTI) para elaborar o projeto. Apesar da demora de cinco meses
para ter sua constituição anunciada, o GTI nunca
foi instalado e, quase um ano depois da promessa feita, sequer
começou a funcionar.
Outro
exemplo são os serviços de RTVIs – Retransmissão
de TV Institucional – que retransmitiriam, nos municípios,
os sinais de geradoras exploradas diretamente pela União
e poderiam inserir programação local (institucional,
educativa, artística, cultural e informativa) em até
15% do total das horas de programação retransmitida.
Criados por decreto em fevereiro, duraram apenas sete semanas.
O que poderia vir a ser o embrião de uma verdadeira rede
pública de TV foi revogado por outro decreto, em abril.
Posições
desconsideradas
A
apresentação de uma alternativa para a Lei das
Rádios Comunitárias também não se
concretizou. Apesar da criação de um GTI, nada
aconteceu (um grupo de trabalho já havia sido criado
no Ministério das Comunicações, em 2003,
e resultou em nada). Na verdade, o relatório final do
GTI, redigido em agosto, não foi entregue ao presidente
da República e suas sugestões não saíram
do papel. Consta que o atual ministro das Comunicações
discorda das conclusões do GTI e, por isso, não
teria dado o encaminhamento devido ao documento.
Registre-se
ainda que os movimentos sociais ligados às rádios
comunitárias, apesar de ouvidos, não participaram
diretamente do GTI; e que não há consenso entre
eles sobre o apoio às conclusões do seu relatório
final.
Outro
fato refere-se aos encaminhamentos que o atual ministro das
Comunicações tem dado para a importante definição
do padrão de TV digital a ser adotado no Brasil. Na prática,
as posições das organizações que
representam o pensamento da sociedade civil têm sido desconsideradas
em favor dos interesses dos grupos que controlam a radiodifusão
no país.
Razões
para frustração
No
que se refere ao Congresso Nacional, as frustrações
não são menores.
Vários
deputados e senadores, no exercício pleno de seus mandatos,
continuaram em 2005 sócios de empresas concessionárias
de radiodifusão. Mais do que isso. Esses parlamentares
votaram não só matérias relativas à
radiodifusão, mas às novas concessões e
renovações de concessões de radiodifusão,
inclusive as suas próprias. Essa tem sido uma das causas
importantes para a perpetuação do chamado "coronelismo
eletrônico" no Brasil.
Também
em 2005 foi apresentada – e começou a tramitar
na Câmara dos Deputados, subscrita por 189 parlamentares
– uma proposta de emenda constitucional (PEC 453/05) que
exclui deputados e senadores das restrições constitucionais
com relação ao controle de concessionárias
de radiodifusão. Se aprovada a PEC, o que hoje é
ilegal (mas, mesmo assim, é praticado) continuaria a
ser feito, agora legalmente. Mas continuaria a ser gritantemente
antiético.
O
projeto de lei que regulamenta o artigo 221 da Constituição,
referente à regionalização da programação
de radio e TV – e que, em março de 2006, completa
quinze anos de tramitação – depois de aprovado
na Câmara dos Deputados encontra-se parado na Comissão
de Educação do Senado Federal.
Uma
Frente Parlamentar da Radiodifusão, subscrita por 136
deputados de 14 partidos, foi criada em dezembro. Na verdade,
trata-se de uma frente contra as rádios comunitárias,
em defesa dos interesses dos radiodifusores privados, muitos
deles parlamentares.
Registre-se
também a nova composição do Conselho de
Comunicação Social (CCS), que rompeu – a
favor dos empresários – o equilíbrio precário
existente entre representantes da sociedade civil, dos próprios
empresários e das organizações profissionais
do setor.
Há
ainda outras razões fortes para frustração.
Por exemplo: a agência reguladora das telecomunicações,
a Anatel, em decisão tomada em novembro, aprovou a fusão
das operadoras de TV por assinatura via satélite Sky
(News Corporation + Globo) e Direct TV. Se o Conselho Administrativo
de Defesa Econômica (Cade) do Ministério da Justiça
confirmar essa decisão, a nova operadora passará
a ter o controle de 95% do mercado – ou seja, na prática,
terá o monopólio do setor.
Diretrizes
e prioridades
Mas
nem tudo são derrotas. Avanços importantes precisam
ser lembrados.
O
mais emblemático talvez tenha sido fruto de uma ação
civil pública que pediu a cassação da concessão
da Rede TV! por violação dos direitos humanos
e manifestações de homofobia no programa Tarde
Quente, apresentado por João Kleber.
A
ação foi ajuizada em outubro pelo procurador regional
dos Direitos do Cidadão de São Paulo (PRDC-SP)
em conjunto com as ONGs Intervozes – Coletivo Brasil de
Comunicação Social; Centro de Direitos Humanos;
Associação da Parada do Orgulho dos Gays, Lésbicas,
Bissexuais e Transgêneros de São Paulo; Associação
de Incentivo à Educação e Saúde
de São Paulo; Ação Brotar pela Cidadania
e Diversidade Sexual; Identidade – Grupo de Ação
pela Cidadania Homossexual.
Uma
decisão judicial deu provimento à ação
do PRDC-SP e depois de várias negociações
a Rede TV! fez um acordo com o Ministério Público
Federal e as ONGs, comprometendo-se a garantir a transmissão
e o custeio da produção de 30 programas de conteúdo
educativo ("Direitos de Resposta") que promovam e
defendam os direitos humanos entre os dias 5 de dezembro e 13
de janeiro, de segunda a sábado. Esse é um fato
inédito na história da TV brasileira.
No
mesmo sentido, o Instituto Projor – mantenedor deste Observatório
da Imprensa na web, na TV e no rádio – protocolou,
na Procuradoria Geral da República, em outubro, documentos
para servir de base a uma representação que questiona
a legalidade da ação de deputados que, além
de concessionários de rádio e televisão
(e membros da Comissão de Ciência, Tecnologia,
Comunicação e Informática da Câmara
dos Deputados), também votam em favor da renovação
de suas próprias concessões.
A
campanha "Quem Financia a Baixaria é Contra a Cidadania",
que reúne dezenas de entidades da sociedade civil e funciona
na Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados,
completou três anos em julho. Nesse período a campanha
tem divulgado o "Ranking da baixaria na TV" e obtido
importantes vitórias em relação ao conteúdo
e ao horário de exibição de programas na
TV comercial privada.
Outro
fato importante foi a divulgação, no início
de dezembro, das conclusões de auditoria do Tribunal
de Contas da União (TCU) sobre a não utilização
do Fundo de Universalização dos Serviços
de Telecomunicações (Fust) pelo governo federal,
comprometendo os programas de inclusão digital. Dentre
outras recomendações, o TCU determinou que o Ministério
das Comunicações deverá apresentar, no
prazo máximo de 180 dias, diagnóstico da necessidade
de universalização de telecomunicações
no Brasil e apontar políticas, diretrizes e prioridades
para sua aplicação, indicando os programas governamentais
que receberão os recursos.
Ação
da sociedade
No
balanço geral de 2005 há também que se
mencionar o papel central que a mídia desempenhou na
grave e prolongada crise política que atingiu o governo
federal e vários partidos. Essa centralidade fez com
que a mídia se transformasse, ela própria, em
objeto de discussão em importantes setores da sociedade
civil. E esse é, com certeza, um fato extremamente positivo.
A
sobrevivência e até o fortalecimento de uns poucos,
mas importantes, veículos da chamada mídia alternativa
– ou independente –, mesmo sem o volume de recursos
em verbas publicitárias que se esperava pudesse vir do
governo federal vis-à-vis o que é destinado à
grande mídia, é também um fato que deve
ser registrado e celebrado.
E
é preciso registrar o auspicioso início das transmissões
da Telesur, projeto de iniciativa do governo da Venezuela para
construção de uma alternativa de televisão
para a América Latina. E também da entrada no
ar da TV Brasil – Canal Integração, liderada
pela Radiobrás e reunindo as emissoras de TV dos três
poderes da República.
2006
será certamente um ano dominado pelas campanhas eleitorais.
Isso não nos dá esperança de que possa
haver grandes alterações no comportamento do Executivo
e do Legislativo. Por outro lado, alguns temas que afloraram
discretamente este ano tendem a reaparecer. Um deles, ainda
a ser mais bem pesquisado e esclarecido, refere-se a uma possível
forma nova de utilização indireta das concessões
de radiodifusão como moeda de barganha política.
Agora seriam as rádios comunitárias, "vinculadas"
a lideranças políticas profissionais desde o encaminhamento
da habilitação inicial no Ministério das
Comunicações até sua seleção
pela Secretaria de Relações Institucionais (ou
pela Casa Civil), para envio ao Congresso Nacional. A ver.
De
qualquer maneira, o que ficou mais uma vez abundantemente claro
em 2005 é que os poucos avanços na democratização
da comunicação não ocorreram por iniciativa
do Executivo ou do Legislativo. Ocorreram sim pela ação
consistente da sociedade civil organizada. Essa continua sendo
a melhor forma – senão a única – de
se buscar a consolidação do direito à comunicação
no Brasil.
(*)
Pesquisador sênior do Núcleo de Estudos sobre Mídia
e Política (NEMP) da Universidade de Brasília
e autor, entre outros, de Mídia: Teoria e Política
(Editora Fundação Perseu Abramo, 2ª ed.,
2004)
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