| Informação:
ISTOÉ
Dinheiro - Publicação em 28/12/2005
RETROSPECTIVA
2005
Por
Cristiane Barbieri
Na
excelente biografia A Segunda vinda de Steve Jobs, o jornalista
Alan Deutschman narra com envolvente riqueza de detalhes a volta
triunfante do fundador da Apple, em julho de 1997, depois de
ser defenestrado da empresa que criara. Novamente em suas mãos,
a Apple voltou à tona não apenas por seus computadores
revolucionários, mas também com a Pixar, produtora
de desenhos animados que tem em seu catálogo sucessos
como Toy Story. Lançado há menos de cinco anos,
o livro já tem de ser reescrito. Jobs fez sua terceira
vinda com um aparelhinho que, em sua menor versão, tem
2,5 centímetros de largura por 10 centímetros
de altura e tornou-se neste ano o objeto de desejo do planeta.
Do metrô de Tóquio à orla do Rio de Janeiro,
os consumidores se espalham e crescem em número. Foram
vendidos mais de 30 milhões de iPods no mundo, em quatro
anos. É um sucesso tão estrondoso que levou o
faturamento anual da Apple de US$ 5,3 bilhões, em 2001,
para nada menos que US$ 13 bilhões, em 2005.
Mas,
afinal de contas, o que é que o iPod tem? Ele não
foi o primeiro tocador de MP3 a ser lançado, nem o primeiro
a chegar ao consumidor com tecnologias de baixo preço.
Na verdade, em seu primeiro ano, 2001, foram vendidas apenas
125 mil unidades do produto, o que fez com que os analistas
classificassem-no como retumbante fracasso. A explicação
para a virada é que, uma vez tornado compatível
com PCs, os iPod conquistaram 75% do mercado. Por que? Eles
simplesmente têm a aura, o design e o glamour descolado
que envolve todos os produtos Apple e dão a cara do moderno
mercado de consumo. Tecnicamente, ele faz a transferência
dos arquivos de maneira muito rápida e sua navegação
é facílima, como os outros itens da marca. Com
a vantagem que, a partir de US$ 99, é possível
ter um legítimo Apple, usado por celebridades de bom
gosto como os integrantes da banda U2, o escritor Nick Hornby
e o compositor Andrew Lloyd-Webber – assim como outras
celebridades de popularidade duvidosa, como o presidente americano
George W. Bush. Seu “iPod One”, que como o de todas
as celebridades teve suas músicas divulgadas pela Apple,
foi analisado por psicoterapeutas e a conclusão é
que ele tem uma personalidade confusa e precisa de terapia extensiva.
A
revolução trazida pelos iPods foi tamanha que
Bill Gates, da concorrente Microsoft, previu que representariam
o fim da era dos CDs. Aliás, essa mesma concorrência
tenta, somada a fornecedores, clientes e amigos, lucrar como
pode com a mudança de comportamento trazida pelo produto
da Apple. A própria Microsoft anunciou, no final de dezembro,
uma parceria com a MTV em que, através do serviço
Urge, venderão um acervo com dois milhões de músicas
por meio da nova versão do Windows Media Player. Com
relação aos parceiros, a Samsung, por exemplo,
tornou-se a segunda maior fabricante de semicondutores do mundo,
atrás apenas da Intel, por ser a fornecedora das memórias
dos iPods. Já o iTunes, o endereço virtual da
Apple em que é possível comprar qualquer música
por R$ 1,99, é hoje a sétima maior loja de música
dos Estados Unidos e a única virtual entre as dez primeiras.
Atrás apenas de gigantes como Wal-Mart, Best Buy e Amazon.com.
Não é exagero dizer que todos os dias há
dezenas de lançamentos ligados de alguma maneira ao iPod.
A fabricante de brinquedos eletrônicos Hasbro, por exemplo,
lançou no final de dezembro o iDog, um cachorrinho que
cabe na palma da mão e funciona como falante quando conectado
a um MP3 player, mexendo as orelhas e piscando os olhos conforme
o ritmo da música. A Motorola e a fabricante de roupas
de inverno Burton Snowboards lançaram uma jaqueta bluetooth
que se comunica com iPods, tem um painel de controle na manga
esquerda e auto-falantes na gola, para que os esquiadores ouçam
suas músicas favoritas enquanto descem pelas pistas.
Com mais de 100 vending machines operando nos Estados Unidos
e outras 600 para entrar em operação este ano,
a Zoom Systems colocou iPods para serem vendidos ao lado de
sacos de batatinhas e chocolates. E a Script Software criou
um produto que permite ao usuário de iPods ler a letra
da canção que está ouvindo. Quando se fala
de uma revolução desse tamanho – e envolvendo
tamanhas quantias – a criatividade humana parece ser infinita.
US$
13 bilhões foi o faturamento da empresa em 2005,
valor duas vezes e meia superior ao de 2001
|