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TELA VIVA
News - NOVEMBRO 2005 - Nº 155
Pelo telefone?
Samuel
Possebon
Teles
falam abertamente na oferta de serviços de vídeo
em redes de banda larga e começam a surgir conflitos
sobre como viabilizar os novos modelos de negócio.
Enquanto
na definição do modelo de TV digital o ponto mais
crítico (até aqui) tem sido a manutenção
ou não do modelo de negócios das emissoras versus
a entrada de novos players (como os operadores de rede) no mercado,
uma nova tsunami se forma no oceano do mundo IP.
As
teles brasileiras nunca falaram tanto em oferecer serviços
de televisão pelas redes de banda larga como agora. A
mudança de cenário competitivo, com a presença
das empresas de telefonia na exploração dos conteúdos
audiovisuais, coloca de pernas para o ar o modelo das TVs abertas,
das empresas de TV por assinatura e os limites regulatórios
vigentes. A mais recente definição do problema
foi dada pelo ministro Hélio Costa, das Comunicações:
"As tecnologias que estão chegando revolucionam
a televisão, e o modelo regulatório atual está
com o prazo de validade vencido.
É
fundamental regulamentar a produção e a distribuição
de conteúdos", disse o ministro.
As
teles não escondem mais seus planos. Só no último
mês, Telefônica e Telemar anunciaram projetos de
oferecer serviços de vídeo sob demanda e pay-per-view
em redes banda larga no Brasil. A Brasil Telecom só espera
que o governo diga se pode ou não pode. É claro
que esse não é um negócio com o qual elas
pretendam ganhar dinheiro no curto prazo, mas é uma ação
de diversificação inevitável, dizem, dada
a iminência de perda de receitas tradicionais nos serviços
de voz e dados.
"Temos
possibilidades tecnológicas, e não podemos correr
o risco de não explorá-las", disse Fernando
Xavier Ferreira, presidente da Telefônica, durante a Futurecom,
evento de telecomunicações que aconteceu em outubro.
Ele não sabe se vai ganhar dinheiro com isso, mas sabe
que é um projeto que não pode deixar de ser olhado.
"Hoje, pesquisas mostram que 43% dos usuários querem
TV sobre a rede ADSL, 43% querem música sob demanda",
afirmou, acrescentando ainda que a idéia de uma tarifa
fixa é considerada interessante por 78% das pessoas,
uma conta única para todos os serviços agrada
outros 61% e que 42% dos clientes de telecomunicações
mudariam de prestadora para uma que tivesse toda a oferta de
serviços. São expectativas, não resultados.
Mesmo assim, Xavier vê a necessidade de investir em outros
serviços como uma chance de transformar a convergência
em uma oportunidade e não uma ameaça.
O
problema da realidade convergente é quem faz o que, quem
toma espaço de quem, quem ganha e quem perde. Todos têm,
naturalmente, medo das teles, que são responsáveis
por cerca de 90% do bolo de recursos movimentados se for somado
o que se fatura com telecomunicações e o que se
fatura com publicidade. Por exemplo, a televisão não
vê com bons olhos que empresas de telecom produzam conteúdo,
porque alegam que os interesses nacionais expressos na Constituição
precisam ser preservados, e com acionistas estrangeiros, as
teles não poderiam dar essas garantias. Ou, como disse
Roberto Irineu Marinho, presidente do grupo Globo, em entrevista
a TELA VIVA no início do ano, "já que se
vendeu o corpo é preciso proteger a alma". O corpo
seriam as redes de telecomunicações. A alma, o
conteúdo.
"Nada
contra a importação de conteúdos estrangeiros.
Achamos também que quanto mais meios de distribuição,
melhor. Mas nossa doutrina é de que a produção
de conteúdo nacional deva ser preservada e estimulada.
A
Constituição separa claramente o que é
radiodifusão e o que é telecomunicações",
diz José Francisco de Araújo Lima, consultor jurídico
da TV Globo.
Reservadamente,
as teles acham pouco provável que, no médio e
longo prazo, possam dizer que nunca vão querer produzir,
gerenciar ou administrar os conteúdos. Como a própria
experiência da TV aberta mostra, definir o que será
exibido, em que horários, em que condições
é a chave do sucesso de qualquer produto que explore
conteúdos audiovisuais. Oficialmente, até para
evitar conflitos com as emissoras de TV, as teles dizem que
querem distância de conteúdo, e buscam parcerias.
Xavier
diz que, ao contrário do modelo praticado na Espanha
pela própria Telefônica, aqui no Brasil a empresa
não vai produzir conteúdo. "Não precisamos
replicar os modelos de outros países. Aqui vejo a chance
de parcerias comerciais com quem faz conteúdo".
Mas Xavier desconversa quando o assunto é o projeto de
emenda constitucional do senador Maguito Vilela (PMDB/GO), que
jogaria para novas tecnologias as mesmas regras da Constituição
impostas às TVs (como limite de capital estrangeiro,
obrigações de programação etc).
"Nosso entendimento é que a proposta afeta todos
os setores, inclusive a distribuição", disse,
ao ser perguntado se entendia a PEC apenas como uma proposta
que coloca regras sobre conteúdos. "A Constituição
impõe regras para a exploração de radiodifusão,
mas há alguns modelos de exploração de
serviços de vídeo, como vídeo sob-demanda,
serviços pagos por evento, que não estão
limitados pelas regras constitucionais", esclareceu.
Disparidade
Nesse
ponto, as empresas de telecom acabam entrando na praia das empresas
de TV por assinatura, e aí a briga deixa de ser entre
dois cachorros grandes para ser entre desiguais. "Um modelo
de negócios para IPTV sem broadcast ou TV paga não
funciona", diz o diretor de novos negócios e estratégia
corporativa da Telemar, André Bianchi. Ele afirma que
um modelo de IPTV baseado apenas em vídeo on demand está
muito próximo de não se pagar. "Precisamos
de assinatura mensal e de uma grade mínima de canais".
"É
uma briga de David contra Golias, onde há grandes disparidades
entre os players no que se refere a obrigações
regulatórias e poder econômico", disse o presidente
da Net Serviços, Francisco Valim, fazendo a analogia
entre a TV paga (David) e as empresas de telecomunicações
(Golias). "Se as empresas de telecom quiserem oferecer
serviços de vídeo levando também os canais
obrigatórios, os 21 canais que eu tenho que levar na
cidade de São Paulo, eu acho justo. Mas porque eles podem
ter o direito de passar apenas o gol e eu tenho que levar um
monte de canais? É desequilibrado", disse.
Bianchi
rebate. Para ele, a assimetria regulatória pesa a favor
das empresas de TV paga. "Hoje, elas podem oferecer serviços
de VoIP, mas as teles não têm clareza sobre o modelo
para poderem explorar serviços de vídeo".
"Nesse
momento, fica claro que precisamos de normas claras para quem
produz e para quem distribui, mas essas normas têm que
ser diferentes porque os papéis são diferentes",
diz Alexandre Annenberg, diretor executivo da ABTA, associação
das empresas de TV paga. "Os papéis de cada um são
diferentes. A TV por assinatura é quem tem hoje o know-how
para entrega de conteúdo e para se relacionar com o cliente
e com o programador", diz Annenberg.
Para
Ricardo Miranda, presidente da Sky, o mercado de TV por assinatura
não cresceu o que se previa e só agora passa por
uma consolidação. "Além da questão
das regras, que precisam ser isonômicas, a entrada de
mais players faria um bolo, que ainda não cresceu suficientemente,
ter que se dividir apenas mais".
Para
Fernando Xavier, "o atual estado da tecnologia traz novas
questões que ainda não podem ser tratadas pelos
atuais marcos regulatórios". Foi isso que propôs
em outubro a Telebrasil, associação que congrega
os operadores de telecom, que em estudo realizado pela Accenture
e pela empresa de consultoria do ex-presidente da Anatel, Renato
Guerreiro, propôs mudanças no ambiente normativo
das comunicações para permitir casamentos convergentes.
A mudança é complexa e nem a Telebrasil nem deputados
como Alberto Goldman (PSDB/SP) ou Jorge Bittar (PT/RJ), que
entendem do assunto e discutiram a proposta da associação,
sabem dizer se seria necessária uma mudança constitucional.
As empresas de TV entendem que sim, tanto é que apóiam
a PEC do senador Maguito Vilela. O ministro Hélio Costa
parece ter se convencido de que é necessária uma
revisão no marco legal através de uma Lei de Comunicação,
que passou a defender.
Para
Renato Guerreiro, "não dá para desenvolver
o trabalho com um desses setores apartado do processo. O conteúdo
precisa ser trazido para dentro". Aí começam
a surgir os problemas. As teles falam em uma agência reguladora
única, convergente. Os radiodifusores rechaçam
a idéia, e o próprio ministro Hélio Costa
diz que o órgão regulador das televisões
é o Minicom. O governo toca rapidamente o barco para
definir o padrão de TV digital, de modo que mais esse
ponto será definido sem que haja uma lei balizadora.
A confusão está armada.
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