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TV digital: hora de definir o modelo.


 

Informação: TELA VIVA News - NOVEMBRO 2005 - Nº 155

Samuel Possebon

A primeira discussão referente ao modelo de negócios do SBTVD recaiu sobre a mobilidade, e já aí aparecem vários obstáculos. O prazo para a definição de todo o resto está cada vez mais apertado.

O prazo para a conclusão dos trabalhos de pesquisa para o Sistema Brasileiro de TV Digital (SBTVD) está no fim. Em tese, em novembro as instituições que conduziram os estudos deverão apresentar ao governo um conjunto de conclusões que permitam que até fevereiro de 2006 uma posição seja tomada. O nível de tensão envolvendo o assunto chega ao ponto máximo, e finalmente começa-se a discutir publicamente o que realmente interessa: qual será o modelo da TV digital brasileira?

Não existem consensos nem tendências únicas, e as discussões começam a ficar acaloradas, pelo menos nos bastidores.

É verdade que, por enquanto, apenas as maiores forças conseguem ter voz: governo, radiodifusores e empresas de telefonia.

Basicamente, há duas posições no governo. Para uma delas, capitaneada pela Casa Civil, ainda é preciso que se definam claramente as contrapartidas que os padrões internacionais oferecerão ao Brasil e como as instituições de pesquisa nacionais serão integradas ao desenvolvimento das tecnologias. Essa tendência tem como seu maior expoente André Barbosa, assessor especial da ministra Dilma Rousseff, pessoa que tem se exposto publicamente em defesa dos trabalhos das universidades brasileiras e evitado dar prioridade à posição dos radiodifusores. A hipótese desta corrente no governo é que o sistema brasileiro precisa de escala, precisa ser interativo, precisa atender a necessidades específicas do Brasil (como set-tops de baixo custo e transmissões em definição padrão – SDTV). Para esta tendência, a lógica indica que o Brasil caminha para o padrão DVB (europeu) nacionalizado, ou seja, um DVB que incorpore aplicações e middleware nacionais. Isso porque, até o momento, o padrão DVB foi o que mais abriu canais de diálogo com o governo sobre a integração da tecnologia brasileira. Além disso, o governo (essa parte do governo) acredita que o DVB daria escala para terminais de baixo custo e garantiria a possibilidade de transmissões em SDTV.

Outra tendência dentro do governo é a defendida pelo ministro Hélio Costa, das Comunicações. Para Costa, não se pode escolher algo que não seja viável para os radiodifusores, que basicamente serão os responsáveis pelos riscos e investimentos da digitalização da TV aberta brasileira. E os radiodifusores, pelo menos os maiores, representados pela SET (Sociedade de Engenharia de Televisão), defendem a adoção do padrão japonês, o ISDB-T.

Os japoneses têm se mostrado menos dispostos a dialogar sobre adaptações em seu padrão, e também têm um problema de escala, já que o padrão só existe no próprio Japão.

Correndo por fora está o padrão norte-americano, o ATSC. Governo (qualquer uma das facções) e radiodifusores quase se esquecem que ele existe em suas manifestações públicas, mas dependendo da conformação de negócios que se venha a adotar e das prioridades que sejam colocadas, é um padrão que não pode ser descartado, até pela sua dimensão geopolítica. Tecnicamente, dizem seus representantes, só não se resolveu ainda o problema da mobilidade, até porque não existe modelo de negócios para isso. Mas nos EUA já existem soluções sendo adotadas, como o chip de modulação M-VSB, que está sendo desenvolvido, ou redes paralelas, como o MediaFLO (uma tecnologia proprietária da Qualcomm desenvolvida para multicast de conteúdos para terminais móveis), que começa a operar em 2006. Observando-se mais de perto percebe-se que o ATSC não jogou a toalha e deverá entrar também no campo de batalha também com armas políticas.

Além da tecnologia

A discussão de modelo, necessária e finalmente presente, está nas entrelinhas do debate tecnológico. Cada caminho representa uma possibilidade. De um lado, estão os radiodifusores, que naturalmente buscam um modelo em que eles participem de 100% do processo de digitalização, possam explorar, sem depender de terceiros, todas as alternativas der negócios e, de preferência, não abra espaço para concorrentes. O ISDB-T é, na visão das emissoras de TV, assim. Com ele, elas poderão oferecer alta definição (que vêem como um diferencial importante em relação a todas as demais mídias de transmissão de conteúdos audiovisuais) e terão pleno controle do espectro destinado à mobilidade, já que a tecnologia utiliza a mesma faixa de freqüência para enviar os sinais para terminais móveis e fixos, em alta definição ou definição padrão. Ou seja, todo o conjunto de possibilidades ficaria na mão dos próprios radiodifusores.

Mas há, dentro do governo, quem defenda que possa ser criada no Brasil a figura de um operador de rede, que seriam empresas que explorariam apenas a infra-estrutura tecnológica da TV digital, deixando a produção para quem quisesse fazer conteúdo. Esse operador de rede prestaria serviço às TVs, oferecendo a rede de transmissão e poupando os radiodifusores de investimentos em infra-estrutura. O próprio CPqD, que organiza as pesquisas que estão sendo realizadas para o Sistema Brasileiro de TV Digital, fala abertamente nessa possibilidade. Ricardo Benetton, diretor de TV digital do centro de pesquisa, mostrou em apresentação a empresas de telecomunicações realizada durante a Futurecom (evento do setor de telefonia que aconteceu em outubro em Florianópolis) que elas podem participar do processo de digitalização da TV aberta como empacotadoras e gerenciadoras de conteúdos digitais, que serão necessários às transmissões abertas, da mesma forma como fazem hoje as operadoras de cabo e DTH no mercado por assinatura. Para o CPqD, as teles também entram no mundo da TV digital na oferta de acesso de canais para interatividade dos serviços que serão agregados, além, é claro, do papel de operador de redes: sem condições econômicas de digitalizar toda a sua infra-estrutura, e para evitar redundância de investimentos, talvez seja mais lógico, na visão do CPqD, que uma empresa terceirizada invista em toda a cobertura e preste serviços para as emissoras. "Vejo a possibilidade de um operador de rede, e as empresas de telecomunicações sabem fazer isso".

Mercado apertado

Acontece que já hoje, no mundo analógico, tem sido difícil para a maior parte das emissoras encontrar um ponto de equilíbrio financeiro. A Globo, que navega tranqüila na liderança do market share de audiência e publicidade, fica com a maior parte do mercado. As demais empresas disputam os 20% de recursos que sobram. Se tiverem que dividir parte dessa receita com um operador de rede, se tiverem que ficar dependentes de uma empresa que prestará o serviço de transmissão, temem ficar em posição vulnerável. Além disso, as TVs querem proteger seu espaço. Uma das barreiras de entrada a novos players no mercado de televisão é a falta de freqüências de transmissão, que são controladas pelos radiodifusores, também responsáveis pela produção do conteúdo. Se por acaso essas freqüências forem digitalizadas e colocadas sob a responsabilidade de um operador terceirizado, nada impede que qualquer produtor de conteúdo se credencie a ser também um radiodifusor, abrindo espaço a novos competidores em um mercado que mal suporta os competidores atuais.

Outro problema é o modelo para a mobilidade. Os radiodifusores dizem que oferecerão seus canais a terminais móveis de forma gratuita. Já as empresas de telefonia celular querem ganhar dinheiro vendendo conteúdos móveis, e acreditam que o melhor modelo existente seja o modelo por assinatura. Quem tiver o controle dos meios de distribuição certamente definirá o modelo. Se os radiodifusores tiverem a garantia de que terão as freqüências para transmissões móveis, cresce seu poder de barganha na defesa de um modelo gratuito. Se um operador de rede ou uma empresa de telecomunicações tiver a freqüência para a TV digital móvel, o modelo pode ser outro. Por isso a discussão se o Brasil adotará o ISDB-T ou o DVB nacionalizado. "As TVs fazem conteúdo e até hoje tiveram plena autonomia sobre como distribuí-lo. Não sabemos se isso vai mudar com a digitalização da TV, mas não faz sentido perdermos o poder de decisão. A discussão é sobre quem definirá o modelo de negócios", disse Roberto Franco, diretor do SBT e presidente da Sociedade de Engenharia de Televisão (SET) a empresas de telecomunicações, também durante a Futurecom.

Com o ISDB-T, o poder de decisão do modelo ficaria nas mãos das emissoras. No outro caso, não, já que a versão móvel do DVB, o DVB-H, opera em uma freqüência paralela. Um exemplo é o que está acontecendo na Europa. No exemplo mais recente, a Telefônica, a Nokia e o grupo de mídia espanhol Albertis começam este mês um teste piloto com DVB-H na Espanha. As empresas oferecerão a 500 consumidores de Madri e Barcelona o acesso via celular a 15 canais de TV e avaliarão o melhor modelo de negócio, as dificuldades de transmissão e os conteúdos mais adequados. Já foram feitos testes com transmissão de TV para celulares via DVB-H em mais de 15 países diferentes. Os primeiros lançamentos comerciais devem acontecer em 2006 na Itália e na Malásia.

Também nos EUA o caminho que está se desenvolvendo para as empresas móveis entrarem no ramo de distribuição de conteúdos multicast (um para muitos, como faz a radiodifusão) é o da rede independente, e a Qualcomm se apressou em adquirir licenças e montar uma rede de transmissão que adotará o seu padrão MediaFLO. O segundo passo é fechar com operadores móveis o desenvolvimento de terminais que recebam tanto os sinais de voz e dados das operadoras de telefonia quanto os sinais de TV digital Mas será que essa disputa toda por uma TV digital móvel se justifica como potencial de negócios?

A TV digital móvel, por exemplo, aparece, na média, com uma percepção de importância para apenas 27% da população em uma pesquisa realizada pelo CPqD como parte do processo de definição do Sistema Brasileiro de TV Digital. Segundo Ricardo Benetton, mesmo sendo o último lugar de uma longa lista de atributos da TV digital, isso não é ruim, considerando-se que é uma tecnologia muito nova e que poucos compreendem.

Os dez possíveis atributos da TV digital aberta que mais se destacam entre o interesse das pessoas pesquisadas são, na ordem: imagens mais nítidas (82%), imagem sem chuviscos ou fantasmas (80%), manutenção dos canais atuais (74%), melhor som (71%), canais com informações (70%), gravação digital (57%), possibilidade de canais governamentais (55%), maior número de canais (55%), Internet na TV (49%) e informações sobre a programação (44%).

Mas além da mobilidade ainda há uma série de pontos sobre o que será o modelo de TV digital que não começaram a aflorar de forma pública e que devem gerar o mesmo tipo de discussão. Por exemplo, sobre a exploração dos canais em definição padrão (SD). Todos eles serão explorados pelos atuais radiodifusores? Será aberta a possibilidade de que novos players explorem estas freqüências? As emissoras de TV darão contrapartidas (como espaço para produção independente ou conteúdo educativo) para manterem o controle de toda a faixa de freqüência destinada às transmissões digitais mesmo que não transmitam o tempo todo em alta definição? Como serão resolvidos os desafios de interatividade? Os canais adicionais poderão ser cobrados? Quem oferecerá os canais de retorno para a interatividade desejada pelo governo? Que garantias serão dadas aos conteúdos e tecnologias nacionais? Estas e outras perguntas ainda estão para ser respondidas.

André Barbosa diz que a definição da TV digital precisará ser feita respeitando as premissas de que o Brasil tenha acesso à tecnologia, que esta seja interativa e viável ao maior número de pessoas possível. "Os europeus (padrão DVB) estão vindo ao Brasil porque conheceram as aplicações desenvolvidas pelas nossas instituições e estão dispostos a incorporá-las. Isso é o que o governo quer que aconteça. Os japoneses também virão ao Brasil no final do ano e esperam que abram o mesmo espaço, porque não foi o que fizeram até aqui. Quem deixar o Brasil participar terá chances de ser escolhido", disse o assessor, referindo-se às mais de cem aplicações que as instituições de pesquisa desenvolveram com base no trabalho do Sistema Brasileiro de TV Digital (SBTVD). "Quero deixar claro ao meu amigo Johnny Saad, da Rede Bandeirantes, que não estamos defendendo o padrão europeu. Estamos defendendo o desenvolvimento de conhecimento no Brasil. Quem nos der esse espaço, está dentro". Mas, vale lembrar, a posição de André Barbosa não é a posição do governo brasileiro como um todo.

O debate continua.