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Informação:
Observatório
da Imprensa - 20/12/2005
Josué
Duarte (*)
Como
a grande Feira de Paris de 1900, que anunciava o admirável
mundo novo do século 20, que então começava,
o grande mérito do ano que ora se encerra é ter
sido o arauto do admirável mundo das comunicações
que começaremos a viver em 2006.
A
TV digital, que será realidade já em setembro,
a internet, com suas dezenas de milhões de internautas,
o celular que superou os 70 milhões de usuários
e caminha firmemente para alcançar os 100 milhões
brevemente, e também a preocupante queda constante na
venda dos jornais diários. Tudo isso é a mistura
perfeita para se acreditar que um novo mundo nas comunicações
está agora em seu nascedouro.
A
nova televisão que nascerá em 7 de setembro futuro,
em caráter experimental, diga-se de passagem, será
apenas uma imagem melhor, mais perfeitamente definida, como
se notará de imediato? Claro que não. Em torno
da programação da televisão, hoje conhecida,
vão girar inúmeros aplicativos, ou seja, informação
que diz respeito ao programa em apresentação,
assim como qualquer outro tipo de conteúdo que as emissoras
ainda vão escolher, em consonância com a política
a ser definida para o setor pelo Ministério das Comunicações.
Sem contar com outra potencialização da programação
e do novo conteúdo: a transmissão não somente
para os aparelhos de TV como para celulares também. Estes
e outros importantes aspectos da televisão digital brasileira
foram expostos aqui no OI, edição 359, em artigo
de Nelson Hoineff ("TV
digital, o começo e os fins").
A
internet hoje tem mais de 20 milhões de usuários
no Brasil e caminha rapidamente para chegar a um número
muito mais expressivo. Inclusive grande parte destes internatuas
já opera na banda larga, o que representa poder estar
conectado grande parte das 24 horas do dia. Excetuando-se os
jogos, a internet é praticamente fonte inesgotável
de informação, inclusive as notícias que
os jornais vão publicar e que aparecem na rede em primeira
mão. Este último fato, junto com a gratuidade
do acesso às notícias, é apontado como
sendo o responsável pela queda na vendagem dos jornais
no mundo todo e até ameaça à sobrevivência
dos mesmos neste novo ambiente.
Quantos
anos mais?
Tudo
isso tem sido mostrado aqui no OI, neste ano de 2005. Caio Túlio
Costa, jornalista e estudioso da comunicação,
mostrou no texto "O
jornalismo não será o ator principal",
por exemplo, como a mídia nacional, seguindo o exemplo
mundial, está se concentrando: eram 10 grupos familiares
(Abravanel, SBT), Bloch, Manchete), Civita, Abril), Frias, Folha
de S.Paulo), Levy, Gazeta Mercantil), Marinho, Globo), Mesquita,
O Estado de S.Paulo), Nascimento Brito, Jornal do Brasil), Saad,
Bandeirantes) e Sirotsky, (Rede Brasil Sul). Na virada do século,
no entanto, se reduziram a 6 grupos familiares (Abravanel, Civita,
Frias, Marinho, Saad e Sirotsky), pois o grupo Bloch fechou,
apesar da continuidade jurídica da empresa, Jornal do
Brasil e Gazeta Mercantil passaram para o empresário
Nelson Tanure (o mesmo que agora está adquirindo as ações
da Varig) e o Estadão passou a uma gestão profissional,
ficando a família Mesquita apenas como acionista.
Em
relação à queda de venda dos jornais no
Brasil, o artigo de Caio Túlio aponta dados oficiais:
entre 1965 e 2000, 15% ou menos de 0,5% ao ano, enquanto entre
2000 e 2003 a queda foi de 18% ou 6% ao ano. Demonstra assim
que os últimos anos têm sido cruciais na queda
de vendas e eles coincidem com o crescimento da internet.
Este
mês, no dia 13, o OI na TV foi uma homenagem aos 400 anos
de existência do jornal e do jornalismo. Num programa
em homenagem ao passado, o interessante foi discutir mesmo o
presente e o futuro da imprensa. Participaram do debate o presidente
da Biblioteca Nacional, Muniz Sodré, a colunista política
do Diário de Pernambuco Marisa Gibson e o vice-presidente
da Editora Segmento, Roberto Müller Filho. O tema colocado
por Alberto Dines foi: "Já imaginou o que seria
de você sem jornais e sem jornalismo?".
Internet-jornais-leitores
Para
Müller Filho, os jornais não sobreviverão
se não se renovarem. "Hoje, se você acompanha
a internet o dia inteiro, dificilmente precisará pegar
um jornal", afirma. Muniz Sodré acha que o jornal
precisa se hibridizar, mesclar-se com outras plataformas de
comunicação. "Eu não acredito mais
no impresso isolado". Já Marisa acha o risco representado
pela internet não tão grande assim e que o jornalismo
impresso consegue sobreviver com bom gerenciamento empresarial
e bons profissionais na redação. Seu ponto de
vista é mais interessante ainda quando defende a idéia
de credibilidade e de fonte digna dos jornais, explicando que
a televisão e a rede exercem o papel de chamar o leitor/espectador
para a ocorrência, mas será no impresso que vai
o leitor encontrar a análise detalhada e o tratamento
com maior profundidade da notícia. E esta situação,
assim, vai continuar.
Nestes
400 anos de existência do jornal, 200 dos quais faz parte
a história da imprensa no Brasil, nunca houve um momento
tão dramático como o atual. O fato é que
a imprensa passou por períodos de grandes mudanças
e inovações, como o fim das grandes guerras, desde
a época de Napoleão, no início do século
19, incluindo, claro, as duas guerras mundiais do século
20, e a descoberta e o desenvolvimento do cinema, do rádio
e da televisão. Sempre como um barco que se mantém
acima das águas, mesmo quando estas se movimentam como
mar revolto. Agora, não, a internet veio como uma tsunami
na vida dos jornais no mundo todo, abrindo espaço para
a indagação: será que os jornais sobreviverão
a esta onda gigante? E da mesma forma que o grupo que participou
do programa OI na TV, no dia 13 passado, encontraremos opiniões
mais ou menos na mesma linha quando este tema é debatido.
Sobre
esta questão já foi apresentada aqui no OI por
este articulista uma avaliação da relação
internet-jornais-leitores. Na edição 353 ("O
caos é nossa fonte"), abrimos assim a discussão:
Houve um tempo em que o jornalista dispunha de 24 horas para
levantar a notícia e publicá-la. Hoje, se dispuser
de uma hora, é muito. Esta aceleração no
jornalismo começou há pelo menos sete anos, quando
a internet iniciou sua expansão. Para acompanhar este
ritmo 24 vezes mais veloz, é preciso promover mudanças,
para não continuar vendo a venda de jornais e revistas
despencar ano a ano. E demonstramos que o ponto crucial era
o que chamamos de "linha indecisa": A partir da modernização
tecnológica, representada pela internet e pela telefonia
celular, mas que se compõe de muitas outras inovações,
os negócios em geral perderam o referencial sobre os
quais se conduziam. O que há agora é uma chamada
"linha indecisa", entre a adaptabilidade volátil
da maioria e a inovação na anarquia. Os empresários
em geral e os da mídia em particular estão do
lado da adaptação volátil (frágil
por si só), enquanto a internet, por exemplo, caminha
sobre esta linha indecisa, sem se perturbar, pois está
do lado da inovação na anarquia. Por que dizemos
anarquia? Porque não há mais planejamento, caminho
seguro, conhecido. O evento é quem determina o caminho
a seguir, ou seja, a todo instante os acontecimentos exigem
decisões e, por isso, não adiantaria mais um planejamento.
Questão
em aberto
Já
na edição 354 ("Que
tal o leitor ser o impressor"), alertamos: Enquanto
as empresas jornalísticas apostam no ramo televisivo
e na internet (O Globo e a Folha), os jornais mesmo continuam
sua jornada, vivendo apenas o dia a dia. Não se tem notícia
de que estas empresas de mídia estejam desenvolvendo
algum projeto futurista para os jornais. A não ser as
mudanças gráficas e mesmo inovações
editoriais, que são projetos do cotidiano, os jornais,
neste sentido, acabam sendo entregues à própria
sorte, ou melhor, má sorte, que é a queda nas
vendas que tem se verificado. Não vamos exagerar, afirmando
que não há preocupação com a diminuição
da venda dos jornais a cada ano. Seria absurdo. Mas, por outro
lado, o investimento no futuro, ou melhor, no futuro próximo,
este está sendo relegado. Investir nos jornais para que
estes recuperem os leitores perdidos nos últimos anos
e avancem ainda mais neste sentido, senão mais justo,
com certeza mais seguro e vantajoso seria.
Se
milhões de pessoas se apressam em obter na internet informações
sobre os acontecimentos importantes, não mais do dia,
mas daquele momento, o que está realmente acontecendo?
É a internet que está com sua tecnologia acelerando
a busca de informações ou é o próprio
usuário, o nosso leitor, que tem mais pressa e até
necessidade da informação rápida? Sim,
a internet é quem está sendo acusada dessa revolução,
mas é ela tão somente a responsável pelo
comportamento novo de grande parte dos leitores e por projeção
futura dos leitores em geral?
Estamos
saindo de 2005 com esta questão em aberto. Entretanto,
podemos iniciar agora alguma discussão a respeito, começando
exatamente pelo fim da questão, a projeção
futura que apontaria uma mudança de hábito geral
dos leitores, em favor da notícia rápida da internet.
Não seria em 2006 ou 2010, mas gradativamente a cada
ano um certo número de leitores migraria dos jornais
para a rede e, segundo um professor de Comunicação
americano, apresentado no artigo já citado de Caio Túlio
Costa, este fim ocorreria em 2043. Fato concreto é a
queda na venda de jornais em todo mundo ano a ano e principalmente
nos últimos anos. A situação já
é grave, mas quando se acentuar ainda mais deverá
haver uma reação dos jornais. O que acontecerá
então, é imprevisível.
OhmyNews
Lembramos
que a internet antes de 1998 era incipiente e que em apenas
8 anos causou um dano considerável aos jornais. A tecnologia
em si não pode ser responsabilizada por esta ocorrência.
Ela é apenas um meio que se coloca a nossa disposição.
Os antigos leitores de jornais que migraram para a internet
sim, têm necessidades ou desejos que os levaram à
informação na rede. Diríamos que o mundo
estava mais veloz, só faltando as ferramentas e, por
isso, quando estas surgiram encontraram tanta receptividade.
É importante que se entenda esta questão: a migração
ocorreu e vai continuar porque o leitor tem necessidades ou
desejos que a internet vem preencher. Este leitor não
pode esperar 24 horas para ver no jornal ou algumas horas para
ver na televisão. A informação rápida
está articulada com o ritmo do trabalho, das atividades
sociais e mesmo com o tempo de lazer. É o que chamamos
de timing.
Os
jornais estão fora do time atual. Por isso estão
perdendo leitores, não para a internet, que é
apenas a ferramenta, mas para os sistemas que o próprio
público criou dentro dela, que são os portais,
os sites e as janelas que passaram a desenvolver um trabalho
rápido de colocar a informação à
disposição dos interessados. Internet é
instrumento que está muito mais à disposição
dos jornais do que contra estes, como novo meio de comunicação.
A internet, pode-se dizer, é a ferramenta que os jornais
precisavam para encurtar o tempo de contato com os leitores,
mas estes até agora não descobriram isso e teimam
em separar as duas coisas: jornais de um lado e noticiário
na internet de outro. A internet é a extensão
natural do jornalismo praticado pelo jornal impresso, e não
seu concorrente.
Uma
tendência em novos rumos para o jornalismo é sem
dúvida o jornal de internet que se tornou campeão
em vendagem de banca, o coreano OhmyNews,
que o OI comentou em várias edições a partir
de 2003 [ver remissões abaixo], e os veículos
semelhantes que surgiram em países como Japão,
Estados Unidos, Alemanha, França, Itália, Vietnã,
Tailândia, Índia e Cingapura.
Portas
fechadas
Em
todos os países onde está presente este jornalismo
comunitário, também conhecido como open source
(código aberto), o veículo trabalha nas duas formas,
internet e impresso, sendo esta última responsável
por venda avulsa e assinatura bastante significativas. Para
os dirigentes do OhmyNews e das demais publicações
semelhantes que surgiram a partir dele, a questão é
quando esse jornalismo vai sobrepujar jornais tradicionais,
enquanto no Ocidente ainda há dúvida se esse formato
de jornalismo coletivo vai dar certo.
Em
menos de dois anos, o OhmyNews, que começou como página
na internet, superou os principais jornais na venda em banca
da Coréia. Sua fórmula é muito simples:
o leitor é parte integrante da redação,
ou seja, grande parte das páginas do jornal é
realizada com matérias ou sugestões de pauta dos
leitores, o que torna a criação coletiva muito
mais ampla. Esta nova dimensão para o leitor já
vem sendo sentida aqui mesmo: as cartas
dos telespectadores postadas sob a resenha de Letícia
Nunes do debate do OI na TV ("Vida
longa ao impresso") mostram que jornalistas, estudantes
de Jornalismo e não-jornalistas (maioria) não
só comentam as posições dos convidados
do programa, como acentuam o comportamento da mídia no
tratamento dos assuntos e o desrespeito ao leitor/espectador.
Está claro que o leitor não é mais passivo,
que apenas consome as informações.
Apesar
de ainda ser visto como um caso para o marketing e para o departamento
de circulação, o leitor já não é
mais o personagem para o qual jornalistas e jornais trabalham.
Ele agora é colega de trabalho, está totalmente
integrado à publicação. Sua participação
já está ocorrendo, mas ainda não é
aceita, pois as portas continuam fechadas para ele. Mas a lição
do OhmyNews e desta nova imprensa comunitária e a ameaça
da internet ao futuro dos jornais pressionam para uma mudança
radical. Chegou a vez do leitor, que não é mais
leitor, e sim o grande parceiro para recuperar a venda dos jornais
e, ao lado da utilização adequada da internet,
o grande futuro para a imprensa.
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