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Informação:
Observatório
da Imprensa - 20/12/2005
Gustavo
Hofman (*)
Texto
adaptado da monografia de conclusão da matéria
Desafios e Teorias da Sociedade Informacional, do curso
de Pós-Graduação em Comunicação
e Marketing da Fundação Cásper
Líbero (São Paulo) |
A
internet, a cada dia que passa, se confirma como um dos mais
importantes e influentes meios de comunicação.
A confluência dos tradicionais meios de comunicação
que proporciona torna-a ferramenta extremamente atrativa e de
multiuso por seus usuários. A velocidade em que gera
as informações é outro fator determinante
em sua consolidação na sociedade e em sua capacidade
de criar opiniões sobre determinados assuntos. Outro
fator preponderante é a interatividade que permite aos
usuários. Esses internautas, cada vez mais, buscam aumentar
essa interatividade e participar mais dos processos, visto o
constante aumento de recursos como blogs, sites de relacionamento,
chats e programas de mensagens instantâneas.
Por
outro lado, as grandes mídias broadcasting, ou seja,
grandes centros de empresas de comunicação, já
perceberam há muito tempo a importância da internet
no mundo da comunicação. Com isso, suas redes
de influência já atingem os grandes portais da
net no Brasil. A concentração das informações
nesses sítios faz com que sejam geradas pouca variedade
de visão ou compreensão sobre determinado assunto
pelos formadores de opinião, visto que a maioria dos
internautas provém das classes mais altas da sociedade.
O
Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) promoveu,
em parceria com o Instituto Ipsos-Opinion, pesquisa sobre a
penetração e o uso da internet no país.
O levantamento de dados sobre o uso das tecnologias da informação
e da comunicação (TIC) em domicílios e
empresas brasileiras foi feito entre os meses de agosto e setembro
de 2005. A metodologia seguiu o padrão internacional
da OCDE (Organização para a Cooperação
e Desenvolvimento Econômico) e da Eurostat (Instituto
de Estatísticas da Comissão Européia),
o que permite a comparabilidade internacional. As amostras probabilísticas
de cada pesquisa foram desenhadas de forma a apresentar uma
margem de erro de no máximo 1,5% no âmbito nacional
e de 5% regionalmente.
Maior
renda, mais acesso
A
pesquisa constatou que o acesso e o uso do computador e da internet
no país dependem, quase que unicamente, do nível
socioeconômico do indivíduo, da renda familiar
e da região onde vive. A penetração da
posse e do uso do computador e da internet nos diversos segmentos
sociais se concentra nos indivíduos de famílias
mais ricas que moram em regiões mais ricas.
Os
números mostram que 55% da população brasileira
nunca usaram um computador; 16,6% da população
brasileira têm um computador em casa; 30% da população
brasileira usaram computador nos últimos três meses
(agosto, setembro e outubro); e 13,8% da população
brasileira usam computador diariamente. No que se refere ao
uso da internet, a pesquisa constata que 68% da população
brasileira nunca acessaram a internet; 24% da população
brasileira acessaram nos últimos três meses a internet;
9,6% da população brasileira acessam diariamente
a internet.
Os
dados mostram que o uso da rede está claramente ligado
às classes econômicas. Quanto maior a renda, mais
acesso esse indivíduo terá. No que se refere ao
que esses indivíduos procuram na rede, constata-se que
41% da população brasileira usam a internet para
atividades educacionais; 32% da população brasileira
usam a internet para fins pessoais; e 26%, para trabalho.
Democracia
em xeque
Entre
as principais atividades na internet por aqueles que utilizaram
a rede nos últimos três meses, verifica-se que
17,21% a usaram para envio e recebimento de e-mails; 11,48%,
para atividades escolares; 8,94%, para procurar informações
sobre bens e serviços: 8,64%, para ler jornais e revistas;
8,48%, para enviar mensagens instantâneas; 8,04%, para
procurar informações gerais; e 7,90%, para procurar
informações sobre diversão e entretenimento.
Ou
seja, com exceção dos indivíduos que estiveram
na rede exclusivamente para enviar e receber e-mails, a enorme
maioria estava atrás de informações, seja
pela leitura direta de jornais e revistas, seja pela pesquisa
em atividades escolares, ou para diversão e entretenimento.
E tudo isso, inclusive a utilização de e-mails
e mensagens instantâneas, está concentrado em grandes
portais vinculados a broadcasting.
O
ciberteórico Howard Rheingold aponta que a possibilidade
de a comunicação mediada por computador vir a
ser dominada por um reduzido número de gigantescas empresas
privadas faz com que fiquem evidentes dois aspectos das sociedades
online, assim classificadas por ele: a idéia de que a
opinião pública pode ser manipulada e o fato de
que os espetáculos eletrônicos prendam a atenção
da maioria dos cidadãos e coloquem em xeque os fundamentos
da democracia. Rheingold afirma que "a opinião pública
só poderá ser formada quando existir um público
que se envolva no discurso racional".
Restrição
qualitativa
Já
para Jürgen Habermas, a própria história
dos grandes jornais na segunda metade do século 19 demonstra
que a própria imprensa se torna manipulável, à
medida que ela mesma se comercializa. Habermas afirma que quanto
maior é a eficácia jornalístico-publicitária
de um meio de comunicação, mais vulnerável
ele se torna à pressão de determinados interesses
privados, individuais ou coletivos, o que fere, radicalmente,
a ética da profissão de jornalista e, de certo
modo, pode manipular a opinião de um grupo de indivíduos
que se orienta por determinada publicação.
Por
outro lado, a disseminação dos meios de comunicação
de massa, em comparação com a imprensa liberal,
na visão de Habermas, ganhou extensão e eficácia
incomparavelmente superiores e, com isso, o que ele classifica
de esfera pública se expandiu.
Dentro
dessas duas visões, a internet pode ser classificada
como um meio de comunicação de massa. Analisando-se
os números da pesquisa do CGI.br, isso fica mais evidente.
Não tanto em quantidade, mas na restrição
aos formadores de opinião e à massa crítica
da sociedade.
Menos
navegação
No
Brasil, embora apenas 10% da população, aproximadamente,
utilizem a internet, essa fatia da sociedade brasileira é
a principal formadora de opinião. As principais fontes
de informação dos indivíduos que acessam
a internet são os grandes portais, como UOL, Terra e
Globo, que também pertencem a grandes broadcasting da
comunicação: o UOL.com.br – é do
Grupo Folha; Terra.com.br, da Telefônica, e Globo.com,
do grupo Globo.
Isso
faz com que as informações transmitidas à
sociedade fiquem em poder de poucas pessoas, e que, como garante
Rheingold, seja mais fácil manipular a opinião
pública.
Esses
grandes portais citados também oferecem uma série
de recursos aos usuários, que encontram no mesmo lugar
tudo o que procuram na rede, como programas de e-mail, de mensagens
instantâneas, notícias, informações
para pesquisas escolares. Isso gera menos navegação
pela rede e mais concentração de internautas.
Conseqüentemente, os grandes portais da internet ficam
mais expostos à manipulação das informações,
a partir dos interesses comerciais privados de seus proprietários,
de acordo com o pensamento de Habermas. Um determinado fato
contado, por exemplo, pelo UOL, que segundo as estatísticas
é o portal com o maior número de acessos na internet
brasileira, terá muito mais repercussão do que
uma outra versão do fato – ou até mesmo
outro acontecimento mais importante – noticiada por um
sítio menos acessado e fora da rede de um broadcasting.
Visões
e versões
O
exemplo dos blogs também é muito interessante
para mostrar como a atuação desses broadcasting
na internet altera a forma de se compreender um fato e alterar
ou formular a opinião pública. A notícia
abaixo foi veiculada no sítio da Folha de S. Paulo, no
portal UOL, no dia 23 de novembro deste ano.
Fernando
Rodrigues e Josias de Souza lideram blogosfera brasileira
Os
blogs dos jornalistas Fernando Rodrigues e Josias de
Souza, ambos da Folha em Brasília, já
são os líderes da internet brasileira,
segundo a newsletter "Jornalistas&Cia",
publicação voltada para profissionais
de mídia. Os dois blogs são hospedados
no UOL.
A
newsletter cita dados do Ibope de outubro que mostram
o blog de Fernando Rodrigues em primeiro lugar da chamada
blogosfera política nacional, com 182.212 visitantes
únicos residenciais – ou seja, o blog foi
acessado em outubro, pelo menos uma vez, por 182,2 mil
computadores residenciais diferentes.
Na
vice-liderança está o blog de Josias de
Souza, que tem destaque diário na Folha Online.
Em apenas 21 dias de existência, o blog "Bastidores
do Poder" bateu a casa de 113.481 visitantes únicos
residenciais. Em terceiro lugar, aparece o blog do jornalista
Ricardo Noblat, pioneiro dos blogs políticos,
hoje hospedado no Estadão.com, que somou em outubro
88.415 visitantes únicos, segundo a newsletter.
A
newsletter lembra que a medição do Ibope
só contabiliza a audiência residencial
e não soma os acessos feitos a partir de empresas
privadas, estatais, órgãos públicos,
universidades e cybercafés.
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Os
blogs dos jornalistas Fernando Rodrigues e Josias de Souza foram
criados cerca de um mês antes dessa pesquisa ser realizada.
No caso específico de Rodrigues, ele já mantinha
uma página dentro dno noticiário de política
do UOL não-caracterizado como blog. Já Josias
de Souza realmente estreou pouco tempo antes.
Como
a própria matéria aponta, o blog do jornalista
Ricardo Noblat foi o pioneiro em tratar de política nacional
nesse formato, e permanece, para muitos, como o de maior credibilidade
no assunto. Figura, porém, somente na terceira colocação
dos mais acessados. Isso mostra que não necessariamente
a qualidade da informação produzida se reflete
no maior número de acessos a determinado portal ou sítio.
Assim, o mesmo fato tratado nos três blogs citados pode
ter três visões diferentes. O que ficará
mais latente na opinião popular e poderá gerar
mais discussão, então, serão as versões
trabalhadas pelos jornalistas hospedados no UOL, por terem mais
indivíduos lendo e comentando suas notícias, nas
ruas ou nos fóruns destes blogs.
Massa
crítica maior
A
concentração das informações na
internet brasileira é prejudicial à sociedade.
Embora a parcela da população com acesso à
internet seja relativamente pequena, é uma parcela fundamental
na formação da opinião pública.
O acúmulo de notícias em poucos sítios
faz com que a versão de determinado fato contada por
estes sítios seja a predominante, muitas vezes se tornando
a verdade absoluta. Mesmo tendo a internet um potencial enorme
de abrangência e participação dos internautas,
o que eles procuram na rede está nos grandes portais
broadcasting.
Para
isso mudar, será necessária uma maior competitividade
dos atuais portais de informação, além
da diversificação de serviços. O surgimento
de novos veículos, com impacto, também seria salutar
para melhorar o atual quadro.
A
questão da inclusão digital também deve
ser posta em debate. Quanto maior o número de usuários
da internet no Brasil, maior será a massa crítica
formada e capaz de perceber distorções em informações
ou notícias geradas na rede. Com isso, de acordo com
a idéia de Rheingold, os preceitos da democracia saem
fortalecidos na sociedade online.
(*)
Jornalista, Campinas, SP; www.gustavohofman.blig.com.br
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