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ISTOÉ
Dinheiro - Publicação em 21/12/2005
Por
Joaquim Castanheira
Em
junho do próximo ano, o executivo Manoel Amorim, presidente
da Telefonica São Paulo, arrumará as malas e rumará
para Madri na Espanha. Lá ele se dedicará durante
cerca de dois anos à estruturação de uma
nova área na companhia. Aos 47 anos, ele será
o responsável por todas as atividades de telefonia fixa
para clientes residenciais da Telefonica na América Latina.
Trata-se do resultado de uma ampla reformulação
que a operadora espanhola está conduzindo na região
latino-americana. “Temos uma escala gigantesca, mas não
aproveitamos as sinergias que podemos extrair disso”,
diz Amorim. Não será a primeira vez que esse carioca
formado no Instituto Militar de Engenharia, com MBA em Harvard,
atuará fora das fronteiras brasileiras. Durante quatro
anos, ele viveu nos Estados Unidos, onde iniciou sua carreira
na Procter&Gamble. Depois, pela mesma empresa, viveu cinco
anos na Venezuela. Antes de assumir o posto de principal executivo
no braço paulista da Telefonica, em 2000, foi presidente
da AOL no Brasil. Para os próximos anos, Amorim vê
a possibilidade de redução do número de
participantes no mercado de telefonia. “Não há
espaço para mais de dois operadores”, prevê
ele, na entrevista concedida à DINHEIRO.
DINHEIRO
– Por que a Telefônica resolveu mudar sua estrutura?
MANOEL AMORIM – A companhia resolveu se estruturar
dando mais ênfase para as linhas de negócios e
para os segmentos de clientes do que para os aspectos geográficos.
Por quê? Porque somos a maior operadora de telefonia da
América Latina, temos escala gigantesca, mas não
aproveitamos as sinergias possíveis dessa escala. As
operações nos quatro países da região
(Brasil, Argentina, Peru e Chile) são excessivamente
independentes. Temos um tripé de objetivos: custos menores,
agilidade na atuação dos mercados e mais desenvolvimento
em inovação.
DINHEIRO
– Como isso afeta os negócios da empresa?
AMORIM – Vou dar um exemplo. Temos planos diferentes
de comercialização do Speedy (o serviço
de banda larga da Telefônica) diferentes para cada um
dos mercados da região. Cada subsidiária fazia
como achava melhor. Mas a tecnologia é a mesma, o cliente
tem o mesmo perfil e o produto é o mesmo. No entanto,
produzimos 50 comerciais por ano, quando poderíamos criar
apenas 20. Outro exemplo: por que manter um call center em cada
país se podemos concentrá-los em um único
local? O usuário chileno que liga para nossa central
está interessado em ser atendido por alguém que
fale seu idioma e resolva seu problema. Para ele, não
importa se o atendente está em Santiago do Chile ou numa
cidade mineira.
DINHEIRO
– Para a empresa, está claro que o novo sistema
é vantajoso. E para o cliente?
AMORIM – Primeiro, as economias geradas nesse
processo poderão ser repassadas para as tarifas. Inovações
e serviços mais avançados chegarão mais
rapidamente aos usuários. Quando uma boa idéia
surgir em um mercado, imediatamente poderá ser estendido
para outro país, pois o comando de todos os mercados
estarão com o mesmo executivo. Por exemplo: estamos trabalhando
aqui no Brasil no desenvolvimento de um cartão híbrido,
que tenha as funções de crédito e telefônico.
É uma ótima idéia, que vai gerar muita
receita. Por que não oferecê-la para os usuários
dos demais países?
DINHEIRO
– Qual a economia potencial nessa nova estrutura?
AMORIM – Ainda não sabemos. Encontrar
os pontos de sinergia e calcular seus valores será nossa
primeira tarefa.
DINHEIRO
– Quando a reestruturação começou
a ser definida?
AMORIM – Há dois anos, começamos
a conversar sobre isso e, seis meses atrás, a McKinsey
foi contratada para fazer um estudo sobre essa possibilidade.
Daí surgiu a estrutura, formada por três grandes
unidades de negócios: uma voltada para grandes empresas,
outra para pequenas e médias empresas e uma para clientes
residenciais. Esta última, com receita líquida
de quatro bilhões de euros e 22 milhões de usuários,
ficará sob minha responsabilidade. Haverá uma
quarta unidade, responsável pelos serviços de
rede e de sistemas.
DINHEIRO
– Mas o ministro tem sofrido uma série de acusação
de corrupção. Sua saída seria muito ruim?
BEERS – Ouvi uma frase do ministro que traduz
exatamente o que penso. Não é um homem quem faz
a política econômica, mas um governo. Por mais
que ele possa sair, não haverá, na nossa visão,
uma mudança relevante.
DINHEIRO
– O sr. acredita que poderá aumentar o número
de clientes nos mercados latino-americanos com essas mudanças?
AMORIM – Em alguns casos, sim. No Peru, por exemplo,
há apenas oito telefones para cada dez habitantes. Mas
no Brasil, o índice de penetração é
de 30% e nossa participação já é
muito grande. Então, aqui poderemos aproveitar melhor
nossa base de clientes.
DINHEIRO
– Então a dificuldade de crescer no Brasil foi
um dos motivos para a reestruturação?
AMORIM – Não. O principal motivo foi a
maturidade da Telefônica. Todas as grandes multinacionais
já se estruturam dessa maneira.
DINHEIRO
– As mudanças recentes na telefonia, como a cobrança
de assinatura com base em minutos, estimularam a reestruturação?
AMORIM – Nenhuma dessas mudanças é
novidade. Elas estavam previstas nos contratos de concessão.
Há dois anos, elas foram anunciadas para que as empresas
pudessem avaliar se interessavam na prorrogação
dos contratos com essas novas regras. O importante é
que até agora tudo foi feito com base em argumentos e
estudos técnicos. Por exemplo: na transição
de pulsos para minutos não poderia haver perda de receitas
para as operadoras. O pessoal da Anatel fizeram medição
nas operadoras, verificaram tráfego, viram a receita
auferida por minuto. Enfim, tudo foi feito de uma forma muito
técnica, inclusive com auditorias independentes acompanhando.
O que me preocupa é a possibilidade de se politizar um
processo de mudanças na telefonia, importante para o
País. Nos últimos anos, o grande aporte de recursos
no País veio das privatizações e dos investimentos
pós-privatização. Só de 2000 para
cá, a Telefônica de São Paulo investiu mais
de R$ 15 bilhões. Até cinco anos atrás,
uma linha telefônica custava US$ 3 mil e demorava meses
para ser instalada. Hoje, custa R$ 100 e está instalado
em uma semana.
DINHEIRO
– O sr. está vendo sinais de politização?
AMORIM – Não, mas levantam assuntos como
o debate sobre o final das assinaturas. Isso não faz
o menor sentido. Só dois países do mundo não
têm assinatura. É um assunto que não cabe
discussão. Quando as operadoras vieram para cá,
vieram com um modelo tarifário com essas várias
modalidades. É necessário manter os aspectos técnicos,
nas decisões, nas indicações dos conselheiros
da Anatel.
DINHEIRO
– Os critérios para a Anatel não são
técnicos?
AMORIM – Não vou dizer que não
são. O importante é que sejam sempre técnicos.
Mais: o corpo técnico precisa ser preservado. Temos que
evitar o populismo que sempre é um tiro que sai pela
culatra. Não me ponha em maus lençóis com
essas perguntas.
DINHEIRO
– A gestão do ministro Hélio Costa, das
Comunicações, tem preservado isso?
AMORIM – Eu diria o seguinte: o enfoque que ele
está dando agora para a inclusão digital e para
a definição de um padrão de TV digital
é muito mais importante para o País do que a discussão
de pontos já definidos como a questão da assinatura.
Essa mudança de enfoque na gestão é positiva.
DINHEIRO
– Hoje, há quatro grandes operadoras de telefonia
fixa atuando no mercado, sem grande competição
entre si. Esse modelo é bom para o Brasil?
AMORIM – Seria melhor se fosse um modelo com
dois ou três competidores atuando no País inteiro.
Aliás, acho que o mercado brasileiro não comporta
mais de duas operadoras. Acho que o modelo americano é
ideal, com a criação das baby bells e depois deixar
acontecer a consolidação. Hoje, o modelo privilegia
um número grande de competidores. Olhe o caso dos celulares.
Há mais gente do que o mercado suporta. O resultado é
que tornou-se o mercado menos rentável do mundo. O próximo
passo é reduzir investimentos e não trazer inovações.
DINHEIRO
– O que fazer?
AMORIM – O objetivo do órgão regulador
não deveria ser garantir o maior número de competidores,
mas, sim, um nível de competição que gerasse
um serviço de qualidade e com preço justo. Isso
é o que importa para o consumidor, pois é isso
que o beneficia. Ele não quer escolher entre um número
grande de empresas, mas sim ter bons serviços.
DINHEIRO
– Não é arriscado manter o mercado nas mãos
de poucas empresas?
AMORIM – Quando eu geria a área de produtos
de consumo de uma empresa na América Latina, o Brasil
tinha oito companhias nesse setor. Os outros países,
duas ou três. Aqui a rentabilidade era baixa. Sabe o que
acontecia? Quando uma máquina no Peru, por exemplo, se
tornava obsoleta, eu enviava para o Brasil. O resultado? A linha
de produtos aqui estava duas gerações abaixo daquela
comercializada no México. O mercado aqui era fragmentado
e ninguém ganhava dinheiro.
DINHEIRO
– Das quatro empresas, quem fica?
AMORIM – Há três candidatos para
o papel de consolidador, que ficariam com essas duas vagas.
Seria a Telefônica, a Telecom Italia e a Telmex, do Carlos
Slim. São as que têm porte e presença suficientes
para assumirem esse papel. Não acredito nas outras duas.
Mas nossa maior concorrência não é essa.
DINHEIRO
– Quem é?
AMORIM – A telefonia móvel. São
duas vertentes. Primeiro elas roubam o tráfego das operadoras
fixas. Depois roubam o que chamamos de acesso, ou seja, o usuário
decide que não precisa mais do telefone fixo pois já
tem o celular.
DINHEIRO
– Essa situação é reversível?
AMORIM – Esse é o grande desafio que temos
pela frente. O que precisamos fazer é tornar o serviço
de telefonia fixa mais relevante para o cliente. Então,
precisamos fazer com que nossa rede entregue mais do que transmissão
de voz. Por isso, estamos investindo em banda larga, pois a
qualidade e a velocidade são muito melhores do que na
internet pelo celular. Quando cheguei na Telefônica, tínhamos
20 mil usuários de banda larga. Hoje, são mais
de 1,2 milhão. Também precisamos oferecer vídeo
– não pelo computador, mas sim permitir que o sujeito
pegue o cabo de cobre da linha telefônica, conecte-o num
aparelho na parte de trás da televisão e faça
sua própria programação e assista a um
filme com qualidade superior à da TV a cabo. Precisamos
agregar valor ao nosso serviços. Se ficar somente na
voz, ele será dispensável e substituído
e perderemos a corrida para a telefonia móvel.
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