| Informação:
FENAJ - Federação
Nacional dos Jornalistas - 15/12/2005
O
debate sobre a implantação da TV digital no Brasil
está se intensificando. Principalmente porque o prazo
oficial para a definição de um modelo nacional
está previsto para 10 de fevereiro. As divergências
entre representantes da sociedade civil, empresários
e governo, no entanto, estão longe de serem superadas
e as ações do Ministério das Comunicações
assumem, cada vez mais, um lado: o dos donos das principais
redes comerciais de TV no Brasil. Mas os representantes dos
jornalistas e de outros segmentos da sociedade não se
dão por vencidos e vão à luta.
Nesta
coletiva virtual, a goiana Maria José Braga,
tesoureira da FENAJ e representante da entidade no Conselho
Consultivo do SBTVD, e o gaúcho Celso
Schröder, secretário geral da Federação
e coordenador do Fórum Nacional pela Democratização
da Comunicação (FNDC), abordam a TV digital,
seus dilemas e possibilidades enquanto instrumento estratégico
de desenvolvimento nacional.
E-FENAJ
– Na reunião do Comitê Consultivo do SBTVD,
realizada em novembro, o descontentamento das entidades da sociedade
civil com comportamento do Ministério das Comunicações
sobre esta questão ficou evidente, inclusive com alguns
representantes de entidades propondo a retirada deste processo.
Diz-se, inclusive, que há uma ação deliberada
do Ministério no sentido de esvaziar tal órgão.
Quais as principais razões deste descontentamento?
Maria
José Braga – As principais queixas de
entidades como a FENAJ, o Fórum Nacional pela Democratização
da Comunicação (FNDC), A Associação
Brasileira de Televisões Universitárias (ABTU)
e outras dizem respeito à condução das
discussões sobre a implantação do Sistema
Brasileiro de TV Digital (SBTVD). O Ministério das Comunicações
(MinCom), principalmente na gestão do ministro Hélio
Costa, tem atuado de forma parcial e tendenciosa na condução
desse importante processo. Houve um esvaziamento do Comitê
Consultivo (CC SBTVD) -- órgão oficial instituído
pelo próprio governo para ser a instância máxima
de opinião/orientação para a implantação
do SBTVD -- em favor de uma interlocução privilegiada
com o empresariado, principalmente o do setor de radiodifusão.
O ministro Hélio Costa criou um verdadeiro comitê
ad hoc no qual as discussões centrais estão sendo
realizadas. Essa posição do ministro contraria
frontalmente o que está estabelecido no decreto 4.901,
que cria o SBTVD.
Celso
Schröder – O ministro tem agido claramente
na defesa dos interesses da Rede Globo ao apontar a escolha
do padrão tecnológico japonês como a melhor
alternativa para a digitalização brasileira. Não
podemos esquecer que a Globo vem, desde o governo FHC, defendendo
a alta definição (de imagem) como sinônimo
de digitalização.
Mas
há ainda um outro aspecto, importantíssimo, aliás,
que nos deixa bastante descontentes. A digitalização
(não apenas da TV aberta, mas das redes de comunicação)
é uma importante etapa no desenvolvimento de uma nação
e, infelizmente, a política desenhada pelo governo para
a digitalização está se mostrando insuficiente
e subordinada aos interesses privados do setor de radiodifusão.
Perde-se, assim, a chance histórica que a mudança
da plataforma tecnológica permitiria ao Brasil: dar um
salto tecnológico e colocar-se em igualdade de condições
com os países desenvolvidos em questões estratégicas,
como a produção de semicondutores.
E-FENAJ
– Apesar dos descontentamentos, o FNDC e a FENAJ, no início
de dezembro, fizeram uma peregrinação junto ao
governo federal para apresentar as propostas aprovadas na XII
Plenária do FNDC. Falaram com o Vice-presidente da República,
José Alencar, com a Casa Civil e Secretaria Geral da
Presidência da República, pedindo que a implementação
da TV Digital no Brasil seja coordenada por um grupo interministerial
e que a sociedade seja ouvida. Como foi a receptividade da proposta?
Há realmente perspectiva da sociedade interferir neste
debate, uma vez que o ministro Hélio Costa já
anunciou seu modelo de referência preferido antes do prazo,
que é fevereiro de 2006?
Celso
Schröder – A FENAJ e o FNDC estão
cumprindo seu papel. Estamos discutindo profundamente a digitalização,
apontando problemas e fazendo proposições. O resultado
da XII Plenária do FNDC, realizada em Belo Horizonte,
em outubro, é uma demonstração desse nosso
esforço coletivo. Acreditamos que temos a obrigação
de provocar o debate na sociedade e também dentro do
governo que, todos sabemos, não é homogêneo.
O vice-presidente nos ouviu atentamente, assim como os interlocutores
que procuramos na Casa Civil e na Secretaria Geral da Presidência.
Tanto o vice José Alencar, quanto o assessor da ministra
Dilma e o ministro Luiz Dulci mostraram-se preocupados com a
complexidade do tema e comprometeram-se em procurar interferir
no processo de debate e de definição do SBTVD.
Maria
José Braga – Nossas posições
e nossas ações têm, de alguma forma, produzido
resultados. Alertamos a sociedade sobre as perspectivas abertas
pela digitalização para a indústria nacional.
Isso provocou uma mudança no discurso do ministro Hélio
Costa. Ele chegou a anunciar publicamente que a política
do governo (ou a falta dela) seria eliminar os impostos para
importação de equipamentos. Depois das denúncias
dos prejuízos que o país teria, ao não
traçar uma política industrial conjugada à
digitalização, ele mudou o discurso e anunciou
que a indústria nacional terá até mesmo
linhas de crédito especiais.
E-FENAJ
– Enquanto as entidades batiam às portas destes
órgãos, os empresários das principais redes
comerciais de TV do Brasil reuniam-se diretamente com o ministro
das Comunicações e com o presidente Lula, apresentando
sua posição sobre o SBTVD e reivindicando recursos
públicos para seu financiamento, via BNDES. Isto não
evidencia que está havendo "dois pesos e duas medidas"
no relacionamento do governo federal com seus interlocutores?
Maria
José Braga – Está havendo dois
pesos e duas medidas por parte do Ministério das Comunicações.
Já dissemos que o ministro Hélio Costa elegeu
como interlocutores privilegiados os empresários do setor
de radiodifusão. Na verdade, ele criou um comitê
ad hoc ao esvaziar o CC SBTVD e estabelecer uma interlocução
direta com os empresários da radiodifusão e, por
último, mas em menor grau, com os empresários
da indústria de produtos elétricos e eletrônicos.
Celso
Schröder – Historicamente, o MinCom tem
sido usado pelos governos como um verdadeiro balcão de
negócios. No governo Lula, infelizmente, isso não
foi diferente. Foram designados ministros de partidos aliados,
mas fora do eixo de decisões governamentais. Isso fez
com que o MinCom não fosse o local da formulação
e implementação das políticas públicas
de comunicação, aí incluída a digitalização.
Desde o início, o governo Lula sinalizava que estava
fazendo a opção de não estabelecer uma
política estratégica de comunicação
como moeda de barganha com o status quo da comunicação.
No
processo de discussão da TV digital, ainda em curso,
é claro, o presidente Lula recebeu os empresários
do setor de radiodifusão e recusou o pedido de audiência
feito pela FENAJ e pelo FNDC. Mas continuamos com a expectativa
de que esse quadro seja revertido e de que a sociedade tenha
voz nesse processo. É para isso que estamos mobilizados.
E-FENAJ
– Lauro Carneiro, de Fortaleza, conta que a polêmica
é tão grande quanto ao SBTVD que mesmo os empresários
não estão falando a mesma língua, havendo
divergências inclusive entre fabricantes de equipamentos
e empresários de comunicação. Ele pergunta
o que "está pegando" efetivamente? Quais as
divergências centrais entre empresários, governo
e entidades da sociedade civil?
Celso
Schröder - O governo brasileiro apontou corretamente,
no decreto que cria o SBTVD, os objetivos que devem ser buscados
com a TV digital. Entre eles, destacam-se a convergência
tecnológica (serviços de radiodifusão,
de telecomunicações e de internet funcionando
de forma integrada) e a inclusão digital. Infelizmente,
o governo parece estar cedendo ao lobby dos empresários
da radiodifusão e, com isso, esquecendo o que havia estabelecido
como meta. Nesse sentido, estão praticamente desaparecendo
as divergências entre governo e empresários (da
radiodifusão) e aumentando as divergências entre
ambos e os representantes da sociedade civil que participam
do Comitê Consultivo do SBTVD. Os representantes da sociedade
civil insistem que a digitalização deve levar
em conta a convergência tecnológica, a inclusão
digital e outras potencialidades democratizantes que a tecnologia
abre.
Maria
José Braga – Temos a impressão
de que os empresários dos diversos setores (radiodifusão,
telecomunicações, TV paga, indústria etc)
estão mais preocupados com seus interesses coorporativos
do que com o desenvolvimento de um SBTVD. E o governo está
cedendo a esses interesses. Ficamos nós da sociedade
civil, sem interesses diretos na digitalização,
defendendo um projeto nacional que utilize a digitalização
para alavancar a indústria, desenvolver tecnologia e
inteligência, democratizar o acesso aos meios de comunicação
(a digitalização pode permitir a entrada de novos
agentes produtores e distribuidores de conteúdo para
a TV) e valorizar a cultura nacional.
E-FENAJ
- Muitos ainda tentam centrar o debate sobre o SBTVD no padrão
a ser adotado, americano, japonês ou europeu. Esta realmente
é a questão principal a ser definida? Como vocês
avaliam o desenvolvimento do SBTVD em laboratórios, centros
tecnológicos e universidades brasileiras? Esta caminhando
numa perspectiva de independência científica e
tecnológica nacional ou também está à
mercê dos interesses do grande capital nacional e internacional?
Maria
José Braga – A FENAJ e o FNDC têm
dito que a escolha do padrão tecnológico é
uma questão menor no complexo debate sobre a digitalização.
O que é fundamental é o governo e a sociedade
brasileira definirem o que querem com a digitalização
e, a partir dessa definição, escolher o padrão
que melhor sirva ao projeto nacional. O governo brasileiro acertou
ao propor o desenvolvimento de um sistema brasileiro de TV digital,
no qual o padrão tecnológico é apenas um
dos componentes. Nesse sentido, o Brasil pode vir a adotar um
dos padrões já existentes ou um sistema misto
no qual, a partir da base de um dos padrões, haja a incorporação
de tecnologias desenvolvidas no Brasil e, portanto, melhor adaptadas
às nossas necessidades.
Celso
Schröder – O melhor padrão será
aquele que tiver melhor interface com os outros padrões
e, principalmente, que melhor possibilitar a convergência
tecnológica apontada no decreto de criação
do SBTVD. O que esperamos das pesquisas que estão sendo
desenvolvidas no Brasil é que nos seja apontada a melhor
alternativa para as nossas necessidades específicas.
Uma das questões positivas da instituição
do SBTVD foi a criação de 22 consórcios
de pesquisas que envolveram várias universidades e instituições
brasileiras. Em que pese os poucos recursos destinados aos consórcios
e o exíguo tempo que nossos pesquisadores tiveram, os
resultados já começam a aparecer e de forma bastante
positiva. Dia 21 de dezembro, o CPqD (fundação
que coordena as pesquisas sobre o SBTVD) vai entregar ao MinCom
um relatório com os principais resultados das pesquisas
desenvolvidas pelos consórcios. Mas já se sabe
de importantes avanços na área de desenvolvimento
de softwares e de interatividade.
E-FENAJ
– O Lotar Kaestner, de Curitiba, registra que o Brasil
é o 56º país em liberdade de imprensa no
mundo. Ele considera que o maior inimigo da liberdade de imprensa
é o governo arrogante e pretensioso. E lhes pergunta:
a demora na implantação da tv digital está
relacionada a isto?
Celso
Schröder – Respeito a opinião do
Lotar, mas discordo dela. O maior inimigo da liberdade de imprensa
no Brasil, como de resto na maioria dos países democráticos,
não é o governo "arrogante e pretensioso".
O maior inimigo da liberdade de imprensa é a concentração
dos meios de comunicação nas mãos de poucos
grupos empresariais, uma realidade mundial e não apenas
brasileira. No Brasil, por exemplo, a legislação
permite a propriedade cruzada dos meios de comunicação.
Isso significa que um mesmo grupo empresarial pode ter, numa
mesma localidade, emissoras de rádio e de TV, jornais
impressos e portais de internet. A propriedade cruzada, obviamente,
causa grandes prejuízos à diversidade e à
pluralidade de informações e opiniões.
É por isso que uma das lutas centrais da FENAJ é
a democratização dos meios de comunicação.
A FENAJ é uma das entidades criadoras e mantenedoras
do FNDC.
Maria
José Braga – Apesar de a digitalização
da TV aberta no Brasil abrir possibilidades para a democratização
do acesso aos canais de difusão, a "demora"
na implantação da TV digital não está
relacionada a tentativas de cerceamento à liberdade de
imprensa. Na verdade, não existe tal "demora".
A FENAJ, o FNDC e outras entidades que participam do CC SBTVD
têm insistido que não estamos atrasados na implantação
da TV digital. A digitalização da TV é
uma tecnologia que ainda está sendo testada e debatida
nos principais países do mundo. Decisões que envolveram
gastos de milhões de dólares foram revogadas na
Inglaterra, por exemplo, em função de limites
da própria tecnologia. Por isso, o tempo gasto nas pesquisas
e no debate acerca da digitalização deve atender
essa intrincada e complexa rede de decisões. Não
precisamos e não devemos ter pressa. A pressa atende
a apenas uns poucos interesses privados e não ao interesse
da sociedade brasileira. Quem tem pressa é a rede Globo
que quer sair na frente das demais redes e manter sua hegemonia.
É uma balela essa história de que estamos atrasados.
Basta sabermos que são poucos os países do mundo
nos quais começou o processo de digitalização,
que aliás ainda não foi concluída em praticamente
nenhum deles. Temos de acabar com essa história de que
os brasileiros têm o direito de assistir à copa
de 2006 numa TV digital. Mesmo com a pressa da Globo, endossada
pelo MinCom, serão pouquíssimos privilegiados
que terão esse direito, caso não consigamos fazer
o governo aprofundar o debate como achamos ser necessário.
E-FENAJ
– Para finalizarmos, eis duas questões encaminhadas
pela Eliane Souza, de Belo Horizonte. Ela inicialmente considera
que, no tocante ao debate do SBTVD na sociedade, isto está
muito restrito a algumas universidades e entidades de comunicação
e cultura. E critica que mesmo os Sindicatos dos Jornalistas
deram pouca ênfase a esta questão. Ela pergunta
se não há como capilarizar este debate para outras
entidades de expressão nacional como ANDES, CUT, MST,
Igrejas, etc.? Pergunta, também, quais os próximos
passos da FENAJ e do FNDC quanto a este tema?
Maria
José Braga – O desafio que estamos enfrentando
é justamente o de envolver a sociedade civil organizada
nesse debate e o de conseguir aliados entre os agentes políticos
do país. A FENAJ e o FNDC querem, por exemplo, que os
deputados e senadores também debatam a digitalização,
assim como setores importantes do governo, como os ministérios
da Ciência e Tecnologia e do Desenvolvimento Econômico
e Industrial. Vamos dar os próximos passos percorrendo
este mesmo caminho: denunciar os problemas que diagnosticamos,
apresentar propostas e buscar aliados.
Celso
Schröder – Nada mais difícil no Brasil
do que fazer um debate que a mídia não deseje.
E, nesse momento, a mídia quer que a sociedade saiba
somente que uma maravilhosa tecnologia estará a seu dispor
no prazo mais curto possível. Também quer fazer
o público acreditar que se trata de uma escolha apenas
técnica (a de um padrão já existente) e
que, por isso mesmo, o público não tem nada a
ver com isso. Tem sido nosso esforço tentar romper o
silêncio da mídia e também a aridez do tema,
que parece inacessível para muitos. Estamos tentando
despertar na sociedade o interesse por esse debate, que vai
influenciar a escolha mais importante -- que a escolha da plataforma
tecnológica e industrial -- desde a luta pelo petróleo,
pelo domínio do aço e da química fina que
travamos nos anos 40, 50 e setenta, respectivamente.
E-FENAJ
– Obrigado por sua contribuição, colegas.
Para encerrar 2005, o próximo convidado de nossa coletiva
virtual é o presidente da FENAJ, Sérgio Murillo
de Andrade. Ele fará um balanço das lutas dos
jornalistas neste ano de muitas movimentações.
Para participar, encaminhe perguntas até as 18 horas
do dia 27 de dezembro para boletim@fenaj.org.br, especificando,
na linha de assunto, "Entrevistas da FENAJ".
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