|
Informação:
Observatório
da Imprensa - 13/12/2005
Nelson
Hoineff
Foram
entregues ao governo no sábado (10/12) os relatórios
dos consórcios que participaram das análises e
pesquisas técnicas para a implantação do
modelo de TV digital a ser seguido pelo Brasil. Esses relatórios,
somados aos estudos desenvolvidos pelos comitês montados
pelo Sistema Brasileiro de TV Digital (SBTVD), servirão
de base para que o governo defina oficialmente, em fevereiro
de 2006, que tipo de televisão digital será adotada
no Brasil.
Para
alguns isso pode parecer uma questão meramente técnica,
mas na verdade a tecnologia em si é algo meramente acessório
nessa discussão. O debate se dá no campo dos negócios,
da política industrial, da cultura e do impacto social.
Neste particular, não será exagerado dizer que
se incluem condições mínimas para o exercício
da cidadania.
A
elaboração dos relatórios entregues ao
governo consumiu algo em torno de 36 milhões de reais,
o que é pouco, e o trabalho de quase 1.400 pesquisadores,
o que é muito. Ao longo dos últimos oito meses,
os consórcios nascidos em sua maior parte do meio acadêmico
produziram um notável conjunto de informações
e elaboraram modelos muitas vezes originais de middleware [software
intermediário que conecta diferentes aplicações;
por exemplo um banco de dados a um servidor web] e aplicativos.
O
que vai ser escolhido a partir daí não é
apenas um padrão tecnológico incapaz de ser percebido
pelo telespectador (como o telespectador não pode perceber
a diferença entre os padrões de cor NTSC e PAL-M,
por exemplo). A decisão sobre o que fazer com tudo isso
implica na verdade a definição do modelo de negócios
a ser adotado num ambiente de TV digital – e com ela a
resposta a importantíssimas questões ligadas à
produção e circulação de conteúdo.
Estará
sendo decidido, por exemplo, o tipo de serviço a ser
ofertado; a possível entrada de novos players no ambiente
de TV aberta; os mecanismos de distribuição de
conteúdo para a telefonia móvel, que incluem a
intermediação ou não das operadoras sobre
o que os radiodifusores possam transmitir; os modelos de convivência
e integração entre esses radiodifusores e as empresas
de telecomunicação; e, sobretudo, a forma de adoção
de propriedades específicas das plataformas digitais,
como a alta-definição e a interatividade. Não
é pouca coisa – e tudo isso tem um impacto enorme
não apenas sobre o mercado mas sobre a sociedade que
se vai construir na era da TV digital.
Suporte
legítimo
O
consumidor não está convenientemente informado
sobre o que está acontecendo, mas em compensação
ele não detém o monopólio da desinformação:
os atores do mercado estão confusos e por isso adotam
posturas contraditórias.
Um
exemplo disso pode ser localizado na forma de ação
do ministro Hélio Costa, das Comunicações.
O ministro tem sido acusado de alinhamento excessivo com os
radiodifusores; mas a forma peculiar pela qual conduz a questão
digital pode estar criando uma armadilha para o setor que eventualmente
goza de sua simpatia.
O
trabalho desenvolvido pelos consórcios contratados pelo
SB TVD, por exemplo, não chegou a ser convenientemente
debatido com o Comitê Consultivo do órgão,
que é a sua interface institucional com a indústria,
o mercado e a sociedade civil. O atropelo aconteceu para que
a instância apropriada do SBTVD não tivesse meios
de pressionar pela adoção de um cenário
de convergência, do qual poderia resultar a adoção
de modelos de negócio que não se limitassem a
reproduzir os já existentes.
Do
ponto de vista legal, e sobretudo político, nada a opor.
O ministério não tem mesmo a obrigação
de ouvir uma entidade que ele criou para assessorá-lo.
A questão, no entanto, é que tanto o trabalho
de orientação tecnológica construído
pelos consórcios quanto a massa crítica produzida
pela sociedade civil são bons demais para serem ignorados.
A caixa preta que se constrói em torno deles pode acabar
obliterando, na melhor das hipóteses, idéias originais
que transcendem a definição de modelos de negócios
e geram contribuições que poderiam fazer o país
tirar proveito da perplexidade universal em torno da nova televisão
que está se desenhando.
As
mais importantes giram em torno do desenvolvimento de aplicativos
e a conseqüente necessidade da construção
de modelos específicos de conteúdo. Nada disso
será visível quando as principais redes de televisão
começarem suas transmissões digitais em caráter
experimental, no dia 7 de setembro de 2006, com todo o circo
de marketing que as acompanhará. Mas será determinante
em todos os passos seguintes. É o conjunto de aplicativos
que vai dizer se a televisão digital vai se restringir
aos novos patamares de qualidade de imagem e de formas de escolha
de programação pelo espectador, ou se ela será
o suporte legítimo para o que essa tecnologia de fato
agrega ao meio.
Proveito
social
O
Brasil está começando bem sua caminhada para a
implantação das plataformas digitais de televisão
terrestre. Isto se deve ao bom trabalho desenvolvido pelos consórcios,
que contemplaram sistemas de compressão e modulação
compatíveis tanto com a necessidade de alinhamento aos
padrões abertos quanto com o papel inclusivo que se espera
da televisão aberta brasileira. Não se pode desconsiderar,
por exemplo, que a penetração da TV por assinatura
não chega a 7% no país, contra cerca de 90% na
Europa e nos EUA, onde o espectador já optou em receber
os sinais digitais por meio do cabo ou do satélite.
Muitos
brasileiros vão assistir à Copa do Mundo em telões
de plasma que, colocados nos bares ou nas vitrines dos shoppings,
estarão mostrando a grande nitidez das imagens transmitidas
e recebidas em HDTV (televisão de alta-definição).
Seria útil explicar a todos esses torcedores que as Olimpíadas
de 1988 já eram geradas e recebidas em HDTV na Coréia
e no Japão. E também as Copas do Mundo de 1990
em diante.
O
HDTV era analógico. A Sony o batizou de Hi-Vision. Não
vingou porque era caro demais e justamente na mesma época
os americanos avançaram muito no desenvolvimento de plataformas
digitais. Mas sua definição, de 1225 linhas, era
até superior à do HD de hoje. O que as plataformas
digitais trazem de novidade, portanto, não é a
melhor qualidade da imagem, mas a introdução de
capacidades exclusivas, das quais a interatividade é
a espinha dorsal.
Tirar
proveito disso ou abrir mão de fazê-lo é
uma questão de decisão política. O que
não se pode esperar é que o mundo inteiro deixe
de avançar no desenvolvimento de modelos de conteúdo
que contemplem as novas possibilidades que se apresentam para
o meio.
O
receio de se utilizar a expressão "modelo de negócios",
como se isso representasse a implosão do que existe hoje,
é parte da armadilha em que os radiodifusores podem estar
caindo. Mudar o modelo de negócios significa, na verdade,
permanecer como está. Porque as ferramentas que vão
possibilitar a interatividade, mobilidade e integração
com telefonia, por exemplo, são tão controláveis
quanto uma ventania.
Em
fevereiro do ano que vem haverá uma festa para dar ciência
à nação dos modelos adotados para a implantação
da TV digital no país – que, como este Observatório
antecipou há meses, baseiam-se no padrão japonês
modificado. O consumidor vai estar se perguntando se toda essa
festa é para lhe apresentar um aparelho receptor de proporção
16 x 9, diferente do atual e uma imagem bem melhor. Seria bom
se lhe pudéssemos responder que isso é apenas
o princípio. Que o que estamos comemorando de verdade
é a criação de condições
para tirar proveito das propriedades das novas plataformas para
criar modelos originais de conteúdo – e os aplicar
em proveito do espectador brasileiro, e os exportar em proveito
de toda a sociedade.
|