Destaques

Os rumos da TV digital no Brasil.


 

Informação: Folha de São Paulo - Opinião - 11/12/2005

MARCOS MAGALHÃES

Às vésperas do veredicto do governo brasileiro que definirá o padrão da TV digital no Brasil, ainda é preciso considerar alguns aspectos para definir os rumos que o país deseja tomar com relação ao desenvolvimento tecnológico nessa área nos próximos 50 anos. O governo recebe, em breve, uma análise realizada por 90 centros de pesquisa brasileiros sobre o padrão mais adequado ao nosso perfil, e tem até o dia 10 de fevereiro de 2006 para se posicionar.

O que está em jogo não é se vai dar tempo de os brasileiros assistirem à Copa do Mundo de 2006 com uma imagem em alta definição e com interatividade, mas se estarão preparados para se manter dentro de um mercado globalizado que promete girar US$ 100 bilhões por ano e render divisas, a depender da escolha que será feita.

O primeiro desafio: adotar um dos três sistemas vigentes, os chamados europeu, japonês ou norte-americano, como vem se configurando na prática, ou desenvolver um sistema nacional, desembolsando a quantia de US$ 2 bilhões apenas a título de investimento inicial.

Visto que a última hipótese foi praticamente descartada sob risco de penalizar os cofres públicos e os bolsos dos contribuintes, resta ainda outra decisão. Adotar um padrão pronto e fechado, baseado num modelo de negócio importado e sob controle de governos de outros países, ou fazer parte de um consórcio privado internacional que propõe um sistema em evolução, cujos investimentos seriam pulverizados entre centenas de participantes e que poderia garantir royalties para o país, além de inúmeras vantagens tecnológicas para empresas e consumidores?

Os três sistemas em uso no mundo têm premissas de implementação diferentes, com adequação para situações de mercado distintas. O ATSC (Advanced Television Systems Committe) norte-americano, com início em 1998, tem foco na réplica do modelo de negócio já existente de televisão analógica, predominantemente privada, com uso de concessões de freqüências administradas pelo FCC (Federal Communication Committee). O cenário de desenvolvimento da TV digital naquele país é bastante limitado, já que 85% da população optou por usufruir da qualidade, da programação e da interatividade já disponíveis na TV a cabo paga -as três principais vantagens da transmissão de TV digital.

O que está em jogo não é se os brasileiros poderão assistir à Copa com uma imagem em alta definição e interatividade

Implantado no ano passado em apenas duas cidades do Japão, Tóquio e Osaka, o sistema ISDB (Integrated Services Digital Broadcasting) tem desempenho técnico adequado à necessidade local, onde as principais emissoras são estatais e a TV domina todos os meios de comunicação. O ISDB, assim como o ATSC norte-americano, é administrado pelo governo local. Planos de evolução, alteração ou inclusão de novos serviços estão sob controle governamental.

Originário de um consórcio privado de cerca de 300 indústrias e emissoras ao redor do mundo e com participação de centros de pesquisa, o sistema DVB (Digital Video Broadcasting) teve como cliente inicial a Comunidade Econômica Européia. Difere dos outros por ser o único sistema que pode adequar-se aos diversos modelos de negócios que ainda estão em experimentação no mundo. Somente o DVB permite que o Brasil se una a seu bloco de desenvolvimento, associando-se ao consórcio, para participar da sua evolução.

É possível, por exemplo, propor e levar adiante alterações ou implementações de modo coletivo. Para o governo brasileiro, isso pode representar mais arrecadação, uma interferência positiva no sentido de favorecer o perfil dos consumidores brasileiros, incentivo à pesquisa e uma boa perspectiva "individualizada" de recebimento de royalties com o registro de patentes sobre as inovações que venham a ser adotadas pelo restante do mundo. O investimento seria cotizado entre os diferentes membros do consórcio.

Com a evolução para sistemas de compressão mais sofisticados e para um adendo que possibilita mobilidade com o mínimo de consumo de bateria, pode-se dizer que o DVB é o mais moderno tecnicamente e o mais flexível para qualquer modelo de negócio. A indústria também se beneficia da larga escala: aparelhos com a tecnologia DVB já são realidade nas lojas de diversos países na Europa, Oceania, Ásia e África. Passa a contar também com tecnologias abertas, oferecidas por uma gama variada de fornecedores.

Seja qual for a solução digital escolhida, o fato é que não se pode imaginar que seja estática. Seu dinamismo exigirá do país uma participação engajada na comunidade digital internacional e determinante para o futuro. Somente assim será possível participar de um processo evolutivo tão veloz quanto o próprio desenvolvimento da tecnologia, capaz de trazer inúmeros benefícios a uma nação que não pode prescindir da exportação, da transferência de serviços, da entrada de divisas, enfim, de seu crescimento.

Marcos Antonio Magalhães, 59, engenheiro com pós-graduação em telecomunicações pela Escola de Engenharia de Eindhoven (Holanda), é presidente da Philips para a América Latina.