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Portal
Imprensa - 07/12/2005
Por
Thaís Naldoni / Redação Portal IMPRENSA
Eram
os anos 50, década de ouro. Além da bossa nova,
de Brasília e da euforia nacional, o Brasil conheceu
naqueles dias o mais importante invento para a organização
e entretenimento social: a televisão. Pouca gente, além
de Assis Chateaubriand, o pai da idéia no Brasil, imaginava
que aquele aparelho sofisticado fosse chegar a 70 milhões
de lares no país. Dias antes da inauguração
da primeira emissora de TV brasileira, nenhum televisor havia
sido vendido, o que fez com que Chatô contrabandeasse
200 aparelhos, que foram distribuídos a personalidades
da época, entre elas, o presidente Dutra.
Hoje,
o aparelho que revolucionou a sociedade brasileira é
objeto de uma nova revolução. Mais de 55 anos
após a estréia da primeira emissora de TV nacional,
Brasil volta a discutir e falar em televisão. O debate,
agora, versa sobre a TV Digital. Dessa vez, entretanto, o assunto
não está na ordem do dia. Pouca gente, inclusive
na imprensa, tem a real dimensão dessa mudança.
Para tentar esclarecer pontos nebulosos sobre a TV Digital e
mostrar como ela afetará a rotina da população,
IMPRENSA ouviu especialistas e esclarece, a seguir, algumas
das principais dúvidas sobre esta que pode ser uma nova
forma de fazer e também de assistir TV.
Oficialmente,
desde o início deste ano, 22 consórcios de pesquisa
estão estudando a melhor tecnologia da TV Digital para
tentar não só adaptar as características
dos modelos internacionais, mas criar soluções
que atendam especificamente à população
brasileira. "Os consórcios foram compostos por universidades
e institutos de pesquisa, coordenados pela Finep (Financiadora
de Estudos e Projetos), com o auxílio do CPqD (Centro
de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações).
Fizeram parte desses consórcios a Universidade Federal
da Paraíba, a USP e o Mackenzie, entre outros",
explica Ricardo Benetton Martins, diretor de TV Digital do CPqD.
O investimento girou em torno de R$ 50 milhões.
Abaixo,
acompanhe algumas das dúvidas mais freqüentes da
população, quando o assunto é TV Digital,
respondidas por Hélio Costa (Ministro das Comunicações),
Fernando Bittencourt (diretor da Central Globo de Engenharia),
Ricardo Benetton Martins (diretor de TV Digital do CPqD), Roberto
Franco (diretor de tecnologia do SBT e presidente da Sociedade
Brasileira de Engenharia de Televisão e Telecomunicações
– SET), André Barbosa (assessor especial da Casa
Civil) e Marcelo Zuffo (Professor Livre Docente do Departamento
de Engenharia de Sistemas Eletrônicos da USP).
– Afinal, o que é TV Digital? O que ela
tem de diferente desta TV que tenho em minha casa?
A
TV digital, na verdade, se trata de um sistema de transmissão
de dados feita através de códigos binários.
Diferentemente da TV convencional (analógica), em que
os dados são transmitidos através de ondas eletromagnéticas,
o som e a imagem são digitalizados, e transmitidos na
mesma linguagem utilizada nos computadores.
–
Quais as principais mudanças da TV analógica para
a digital?
A
TV Digital possibilitará uma transmissão de imagens
sem interferências, melhor qualidade de imagem e som,
maior variedade de canais, o uso de recursos interativos, como
fazer compras em supermercados, escolher o ângulo de visão
em partidas de futebol, votar em enquetes de programas em tempo
real, acessar cenas de capítulos anteriores de novelas,
entre outros. O aparelho de televisão também pode
ser utilizado para mandar e receber e-mails e acessar a internet.
A mobilidade também é uma vantagem. "A TV
digital nos dá a possibilidade de acessar gratuitamente
a programação das emissoras de TV aberta no carro,
no ônibus, através dos telefones celulares",
explica Fernando Bittencourt.
–
Quem terá acesso à TV Digital?
A
expectativa é de que, ao longo dos anos, toda a área
brasileira seja coberta. Os primeiros testes serão realizados
na cidade de São Paulo, durante a Copa de 2006. Em seguida,
a transmissão deve se estender para as demais capitais
e depois para o interior do país. "Durante a Copa
do Mundo vamos fazer as primeiras transmissões. Espero
que no máximo em dois anos já tenhamos a implantação
definitiva do sistema, primeiro nas capitais e depois no interior",
garante o ministro das Comunicações Hélio
Costa.
–
Meu aparelho de TV analógico vai receber os sinais digitais?
Precisarei comprar uma outra televisão?
Não
necessariamente. No período de transição,
previsto para que dure cerca de dez anos, as emissoras devem
transmitir tanto em digital, quanto em analógico. Para
assistir TV Digital, basta comprar um aparelho digital ou um
conversor, que pode ser acoplado a qualquer aparelho analógico.
Este aparelho transforma sinal digital em analógico.
"Estamos trabalhando para que o Brasil tenha o conceito
de transmissão múltipla. Temos que inserir a TV
Digital de forma responsável e democrática. As
pessoas que não tiverem um conversor, ou um aparelho
digital, conseguirão assistir TV normalmente, até
que este período de transição – que
eu estimo em dez anos – seja concluído", explica
Marcelo Zuffo.
-
Como é um aparelho de TV Digital?
Além
das diferenças técnicas de recepção,
o formato do aparelho digital é diferente do analógico.
A tela da TV Digital tem uma proporção de 16x9,
mais horizontal e próxima do cinema. A atual é
mais quadrada, com proporção 4x3.
– Quanto vou pagar pelo conversor?
Os
conversores, de acordo com o professor Marcelo Zuffo, devem
chegar às lojas no Natal de 2006, por um valor equivalente
a um aparelho de televisão de 14 polegadas. O ministro
das Comunicações Hélio Costa, prevê
que este aparelho, em curto espaço de tempo, chegue a
preços bem mais acessíveis, em torno de R$ 40,00.
Serão colocados à disposição no
mercado, neste período de transição, diversos
modelos de conversores, desde os mais simples – que apenas
decodificariam a imagem – até os mais sofisticados,
que poderão dispor de diversos tipos de serviços
alternativos.
–
Vou poder assistir a canais pagos depois de comprar o conversor?
Não.
Quando se fala em aumento da oferta de canais, isso não
quer dizer que você vá poder assistir aos canais
por assinatura (Sportv, TeleCine) apenas com a instalação
do conversor. O fato é que as emissoras abertas, que
já fazem a transmissão gratuita, poderão
contar com mais quatro canais de programação,
desde que não optem pela alta definição.
A
convergência de mídia na sala de casa
TV no celular, internet pela TV, compras em tempo real. Estas
são algumas das facilidades prometidas com a vida da
TV Digital. E o mais importante: tudo de graça
Muito
mais do que imagem livre de interferências e som de cinema,
o novo modelo de TV pode mudar a forma de se assistir à
televisão. "Imagine em um programa de entrevistas,
você ter acesso a uma ferramenta que te permita interagir,
de fato, com o programa. Eles lançam uma enquete, por
exemplo, e com seu controle remoto, você pode votar e
dar sua opinião, que pode ser vista em tempo real pelos
apresentadores do programa", diz. "A partir daí,
pode ser que haja mais interação entre as pessoas,
a discussão de temas polêmicos em casa, no sofá
da sala. As pessoas deixam de ser meros telespectadores para
se transformar em atores", conclui Ricardo Benneton Martins,
do CPqD.
Há
também testes para que certos modelos de aparelhos celulares,
ainda não disponíveis no Brasil, possam receber
o sinal de TV aberta gratuitamente. "É importante
que seja salientado que tudo o que buscamos está inserido
em um modelo de gratuidade, como o que já ocorre no país.
Pretendemos fazer com que as pessoas possam assistir TV de graça
não só nos celulares, mas em laptops e PDAs",
completa Marcelo Zuffo. Com a TV Digital, será possível,
inclusive, acessar a Internet através da televisão.
Mas
nem tudo são flores. Benetton, do CPqD, diz que apesar
das melhorias indiscutíveis, a TV Digital pode trazer
outros tipos de problemas. "No sinal analógico,
mesmo que haja alguma interferência, é possível
que você continue a assistir a um programa mesmo com a
imagem prejudicada. Na TV Digital não. Caso haja algum
problema, os televisores ficarão totalmente sem imagem,
sem sinal mesmo. Imagine isso no Brasil, em um capítulo
final de novela ou no final de um campeonato de futebol",
alerta.
Jornalismo e publicidade na TV Digital
A TV Digital não vem apenas trazer novidades e mudanças
no que diz respeito ao entretenimento. O jornalismo, certamente,
será um dos atingidos pela revolução digital.
"Cerca de 90% da população brasileira se
informa apenas por meio da televisão aberta e gratuita.
Isso, obviamente, deve ser levado em conta", salienta Marcelo
Zuffo.
No
que diz respeito à informação, o telespectador
poderá participar ativamente dos telejornais –
dando sua opinião sobre determinado assunto pelo controle
remoto –, acessar a previsão do tempo específica
para sua região, escolher o melhor ângulo do estúdio,
entre outros. "As emissoras já estão desenvolvendo
as ferramentas. Estamos, na verdade, com quase tudo pronto,
mas é necessário que o sistema seja definido para
que avancemos mais", ressalta Fernando Bittencourt, diretor
de tecnologia da TV Globo.
Já
na publicidade o desafio é outro: a adequação
das propagandas e chamadas à nova tecnologia, visto que
será possível que os consumidores façam
suas compras e encomendas, pela TV. "Com todas as mudanças
e novidades que serão trazidas pela TV Digital, uma das
maiores preocupações da indústria, comércio
e comunicadores deve ser, certamente, a capacitação
profissional para que a tecnologia seja aproveitada da melhor
maneira possível", finaliza Benetton, do CPqD.
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