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Bonner e o comedor de biscoitos.


 

Informação: Direto da Redação - 08/12/2005

Eliakim Araujo

Façam suas apostas: Homer Simpson é um preguiçoso, de raciocínio lento, que passa o dia em frente a TV comendo biscoitos e bebendo cerveja ou um pai de família devotado, trabalhador, sem curso superior, que chega do trabalho cansado e quer se informar sobre os fatos do dia de maneira clara e objetiva?

A polêmica surgiu depois que o professor Laurindo Lalo Leal Filho publicou artigo na revista Carta Capital contando inconfidências dos bastidores do Jornal Nacional. Laurindo, junto com um grupo de nove professores da USP, visitou a redação da TV-Globo em 23 de novembro e foi convidado para participar como assistente de uma reunião de pauta do JN.

Além da superficialidade com que são tratados e escolhidos os assuntos que entrarão na casa de milhões de pessoas, Laurindo se mostrou perplexo ao ouvir de William Bonner, o editor-chefe, que uma pesquisa realizada pela Globo constatou que o telespectador médio do JN “tem muita dificuldade para entender notícias complexas e pouca familiaridade com siglas como BNDES, por exemplo”. Por isso, na redação da Globo o brasileiro médio é apelidado de Homer Simpson. Para o professor Laurindo, um obtuso personagem de raciocínio lento e preguiçoso. Para Bonner, em resposta ao professor, Homer é um paí de família trabalhador, responsável, que gosta de se informar de maneira clara e objetiva.

Em nome da clareza, invocada acertadamente por Bonner, é que me obriguei a fazer acima o pequeno resumo da história para aqueles que ainda não a conheciam. Como mandam os manuais de jornalismo.

Dito isto, confesso que a discussão sobre a personalidade de Homer Simpson é o que menos importa na polêmica. O que deve preocupar o telespectador brasileiro são os critérios como são selecionadas as matérias que vão para o telejornal. Quem conhece as entranhas do monstro, sabe que o editor-chefe do JN tem autonomia para decidir até a página cinco, como se diz popularmente. Daí em diante, a decisão vai para o Diretor de Jornalismo, que também tem autonomia limitada, até a página dez, digamos. Nos assuntos “delicados” que envolvem interesses econômicos ou políticos da empresa, quem decide mesmo o que vai ao ar é a alta cúpula. Isso sem falar das “rec”, as matérias recomendadas pela direção que têm a sua prioridade assegurada. Pelo menos era assim nos tempos do Dr. Roberto e acredito piamente que nada mudou.

Bonner, em sua resposta, limita-se a tecer considerações sobre o temperamento de seu Homer e explica que foi por amor à clareza e à objetividade que inventaram na redação o nome do personagem da série Os Simpsons, após a tal pequisa realizada pela emissora. Mas ele não toca na questão editorial. Essa sim, a meu ver, a mais importante.

O professor Laurindo cita em seu artigo o comportamento do editor-chefe ao recusar matéria da sucursal da Globo em NY sobre a oferta do governo venezuelano para venda de petróleo a preços mais baratos para atender comunidades carentes dos EUA. Assunto da maior relevância naquele dia de novembro, e neste momento quando o gás venezuelano já está atendendo a 8 mil famílias pobres do Bronx, em Nova Iorque, como se pode ler na coluna de hoje do Eduardo Graça, aqui mesmo, no DR.

Não sei qual o critério usado por Bonner para recusar a matéria. Se foi político, é preocupante. Se não, foi um grave erro de avaliação. Gostando-se ou não de Hugo Chávez, temos que reconhecer sua importância no cenário político internacional. Ele hoje é notícia em qualquer lugar do mundo. Não só porque preside um país que é um dos maiores produtores de petróleo, como também porque é um dos raros líderes a enfrentar a prepotência de Bush e seu desprezo pelas regras internacionais de convivência.

Vejo no artigo do professor Laurindo um alerta àqueles que têm o poder de decisão. Tentar melhorar a qualidade da informação oferecida ao telespectador é um dever social do jornalista. O nivelamento por baixo não interessa à maioria da população brasileira. Só a alguns poucos, aqueles que aumentam diariamente suas fortunas à custa do atraso e da miséria que se alastram pelo país.

Sobre o autor: Ancorou o primeiro canal internacional de notícias em língua portuguesa, a CBS Brasil. Foi âncora dos Jornais da Globo, da Manchete e do SBT e noticiarista da Radio JB. Tem uma empresa de assessoria em jornalismo e marketing.