|
Informação:
Folha de São
Paulo - Dinheiro - 07/12/2005
LUÍS
NASSIF
A
definição de um padrão brasileiro de TV
digital foi um trabalho coordenado, juntando diversos institutos
de pesquisa, cada qual incumbido de um ângulo, como o
terminal de acesso, a modulação, o software básico.
Foram feitos 20 editais, e as pesquisas se iniciaram no começo
do ano. Nesta sexta-feira, serão apresentados os primeiros
resultados. Mesmo assim, há que pensar seriamente antes
de dar os passos definitivos.
Há
muitos interesses em jogo e uma estratégia tecnológica
complexa para não reinventar a roda, nem criar um produto
de uso exclusivo, nem perder o bonde das próximas ondas.
Um
padrão brasileiro de televisão digital teria sentido
dentro das seguintes circunstâncias:
1)
Se representasse, ao mesmo tempo, um diferencial em relação
aos padrões internacionais, mas não a ponto de
se configurar em uma ilha. Tem que haver a identificação
de mercados potenciais externos capazes de proporcionar escala
a essa tecnologia.
2)
A escala é fundamental para baixar o preço, ainda
mais em um país de baixa renda.
3)
A absorção de tecnologia não pode ser considerada
argumento definitivo na hora de definir um plano desses. Há
duas maneiras de se capacitar em novas tecnologias: ou dominando
uma tecnologia que já faz parte do presente; ou tentando
identificar as novas ondas tecnológicas e começar
a preparar o país para surfá-las. Ou seja, não
adianta despender esforços e recursos em uma tecnologia
em que existem parceiros mais fortes e se preparando há
mais tempo. É mais sensato tentar estimar o que será
o mercado daqui a dez anos, quais os novos setores que emergirão
e preparar o país para atuar nesses setores.
4)
Com a convergência de mídia, não se pode
pensar mais em padrões tecnológicos isolados.
Daí a importância de ampliar a participação
do país em fóruns de definição de
padrões tecnológicos. São esses padrões
que definirão, futuramente, acesso a mercados. Cada país,
cada empresa participa desses fóruns para conseguir emplacar
condições que facilitem a sua vida e impliquem
barreiras de entrada para os competidores.
5)
Há que compatibilizar os diversos interesses envolvidos
na história. Para os institutos de pesquisa, interessa
apenas a pesquisa, o desenvolvimento. Em geral, não estão
ligados em aspectos mais práticos, como competição
mercadológica. Para a indústria, interessa o que
for mais imediato e barato.
6)
Não adianta mencionar possibilidades de integração
digital, educação, atendimento das necessidades
da população se o programa não vier acompanhado
de políticas sociais integradas. É bonito para
legitimar investimentos, mas não para alcançar
resultados.
7)
Qualquer mudança de padrão tem que levar em conta
a legislação de radiodifusão. Em um mundo
de convergência digital, de voz sobre IP, a definição
sobre o novo papel da telefonia, da TV a cabo, da TV aberta,
do rádio tem que ser equacionada antecipadamente. Acabou
a era das concessões para rádio e TV.
Nas
próximas colunas, procurarei trazer a opinião
dos diversos setores envolvidos com o tema.
|