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Informação:
Observatório
da Imprensa - 06/12/2005
Alberto
Dines
As
bombas do ex-ministro José Dirceu contra a mídia
– antes e depois da cassação – não
podem ser avaliadas sem uma comparação entre o
que disse em seguida à vitória de Lula, no programa
Roda Viva da TV Cultura de São Paulo, em 28/10/2002:
"Todo
o setor, inclusive a imprensa, também está
vivendo graves dificuldades financeiras. Nós
temos que tratar disso como um assunto de interesse
nacional, temos que tratar disso como um assunto de
Estado.
"Evidentemente
que o país tem recursos escassos, precisa ter
prioridades e garantias de como e onde colocamos os
recursos, seja do BNDES, seja [da] renúncia fiscal.
"Há
uma alternativa que é a associação
do capital externo, que é preciso terminar a
regulamentação da legislação.
A outra que é a reestruturação
acionária, fusões, associações.
E uma terceira que é uma engenharia financeira
[de] que possa participar não só a iniciativa
privada mas [também] organismos como bancos públicos,
para tentar recuperar essa ou aquela empresa."
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As
empresas de mídia estavam com a língua de fora,
algumas em processo falimentar. O governo recém-eleito,
ainda sem uma base política no Congresso, precisava de
apoios.
A
idéia de um Proer para a mídia salvaria as empresas
de comunicação de uma bancarrota e poderia oferecer
ao governo a sustentação necessária para
atrair apoios e aliados (àquela altura, ainda tímidos).
Recurso
de rotina
O
final da história é conhecido: o Pro-Mídia
(ou Midíabras) nasceu morto em 2003. E foi enterrado
em 2004. As corporações empresariais arrependeram-se
do interesse por uma linha de crédito especial e o BNDES
encontrou dificuldades para assumir-se como UTI de empresas
encalacradas.
Em
fevereiro de 2005, a mídia revelou o "Waldomirogate"
e em maio a propina nos Correios. Hoje, três anos depois
daquela manifestação no Roda Viva e no meio de
uma crise que já dura um semestre – e promete estender-se
até as eleições do ano que vem –,
não apenas o ex-chefe da Casa Civil mas o governo e o
partido do governo não passam uma semana sem desancar
a imprensa. Em matéria de furor, a coletânea destas
diatribes não ficaria atrás do que dizia Goebbels
antes de os nazistas calarem a poderosa imprensa alemã.
O
que mudou e o por que mudou? José Dirceu talvez esclareça
a metamorfose nesta terça-feira (6/12), quando será
sabatinado no Observatório da Imprensa (às 22h30
na rede da TVE e às 23h na rede da TV Cultura).
Uma
coisa, porém, não pode ser esquecida: a fúria
do oficialismo acionou as fúrias de outras forças
políticas contra a imprensa. Juntaram-se as alcatéias
de lobos para devorar a rapariga sonsa e desastrada. Atacar
a imprensa não apenas virou moda, mas transformou-se
no recurso mais rotineiro para encobrir trapaças ou justificar
atentados à democracia. Esquerda e direita afinal encontraram
a vocação comum: desmoralizar a mídia para
controlá-la.
Mais
compostura
O
artigo do jornalista Mauro Chaves condenando a complacência
da imprensa ao aceitar uma pessoa despreparada para assumir
a presidência da República (Estado de S.Paulo,
26/11, pág. 2) e a delação do parajornalista
Diogo Mainardi sobre a infiltração lulista nas
redações (Veja, 7/12, pág. 181), embora
diametralmente opostos em matéria de quilate, mostram
a dimensão deste frenesi antijornalístico no seio
do jornalismo.
Aqui
não se trata de autocrítica coletiva, mas de tentativas
sistemáticas de certas facções em denunciar
uma parte da imprensa para tomar conta do bolo inteiro. Neste
confronto de interesses antijornalísticos quem perde
é a instituição jornalística.
Numa
sociedade como a americana, uma investida contra a grande imprensa
liberal jamais afetaria o regime porque há instituições
antigas e sólidas capazes de neutralizar eventuais surtos
antidemocráticos e obscurantistas.
Mas
numa sociedade como a brasileira, precariamente estabilizada,
distante das realidades efetivas do Estado de Direito, os sucessivos
e acumulados trancos contra a imprensa podem ser devastadores.
Isso
não significa que a nossa imprensa tenha alcançado
aquele mínimo de credibilidade e respeitabilidade capaz
de transformá-la no fiel da balança política
e institucional. Estamos longe disso. No entanto, num país
onde a corte suprema está sendo questionada abertamente
convém preservar o Quarto Poder. Apenas ele pode ajudar
o Judiciário a comportar-se com um pouco mais de compostura.
A
mídia precisa ser criticada, a mídia precisa ser
acompanhada para evitar abusos. Mas ela não pode ser
abusada como está acontecendo. Sem ela será muito
pior.
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