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Informação:
CartaCapital
- Publicação em 07/12/2005
Por
Ana Paula Sousa
Quis
o destino que, no fim da tarde da terça-feira 29, quando
CartaCapital foi recebida pelo ministro das Comunicações,
Hélio Costa, andasse por ali também Evandro Guimarães,
homem forte da Rede Globo para assuntos políticos e institucionais.
Guimarães começou a visita pela sala de Yaskara
Laudares, assessora do ministro. Mas não poderia deixar
de dar uma passadinha pelo gabinete de Costa, cuja fisionomia
tornou-se nacionalmente conhecida graças às aparições
na tela da Globo, como jornalista, ao longo de 18 anos. A conversa
entre os dois foi breve e, assim que Guimarães partiu,
teve início a entrevista que se estendeu por pouco mais
de uma hora e que tem alguns trechos abaixo reproduzidos.
A
voz bem-posta do ministro emoldura uma fala de longos parênteses
e recorrentes evasivas. Se a pergunta é a seu ver inoportuna,
começa a respondê-la com uma risada – seca
e curta. Para além da TV digital, assunto central da
conversa, Costa falou sobre a qualidade da tevê, sobre
a rádio que possui e sobre a “birra” da imprensa
com os deputados que são também radiodifusores.
E explicou, a seu modo, a visita de Guimarães.
CC:
Por que o senhor se alinha aos radiodifusores na defesa da TV
digital de alta definição (que, ao contrário
da definição standard, impedirá a entrada
de novos programadores)?
HC: A única preocupação que eu tenho é
que o Brasil, ao contrário de todos os outros países
do continente, exceto os Estados Unidos, e da maioria dos países
europeus, é um exportador de conteúdo.
CC:
Mas, praticamente, só a Globo exporta, não?
HC: (risada) A Globo, não senhora. Todo mundo está
exportando hoje. Diga-se de passagem, eu tive o desprazer de
ver na África o Cidade Aberta.
CC:
Alerta...
HC: Cidade Alerta. É um absurdo você mostrar os
crimes brasileiros para toda a população de Angola.
Quer dizer, essas coisas são assim. O Brasil exporta
conteúdo de televisão. Todos exportam. Uns um
pouco menos, a Globo muito, mas todos exportam.
CC:
Algumas pessoas vêem este momento, com a TV digital e
a possível entrada das teles no jogo, como uma oportunidade
histórica de se mudar a estrutura concentrada da mídia
no Brasil. Ilusão?
HC: (risada) Midnight Summer Dream, para fazer a coisa mais
bonita. Sonho de uma noite de verão. Isso está
longe.
CC:
Como também a Lei Geral de Comunicações?
HC: Quanto à lei, só espero que nós não
cometamos os mesmos erros que no ano passado, ao tentar mandar
uma minuta de Lei Geral para o Congresso e causar as dificuldades
que foram causadas, com a cobrança de 4% sobre o faturamento
bruto das empresas de telecomunicações. Sabendo
que algumas empresas têm lucro de 6%, se pagar mais 4%,
elas fecham! Prefiro que a gente trabalhe com bases bem objetivas,
sem entrar em polêmicas. Se tiver de polemizar, deixe
que o Congresso crie as propostas polêmicas. Cabe ao governo
orientar, mas não entrar no detalhe, como ele entrou
da última vez. O que atrasou a Lei Geral? Foi a imposição
da transformação da Ancine em Ancinav. Isso aí
foi um petardo.
CC:
Mas não é exatamente a ligação dos
congressistas com a radiodifusão que impede a discussão
da Lei?
HC: Olha, nos últimos cálculos que eu fiz, teríamos
de 20 a 25 deputados cotistas de emissoras de rádio e
televisão. Oitenta por cento disso são atividades
pequenas no interior, não são redes de televisão.
As redes mais poderosas não têm ninguém
no Congresso. Você tem, como eu disse, congressistas com
pequenas emissoras.
CC:
Que retransmitem a programação das grandes redes.
HC: Não necessariamente, viu? É que todos eles
ganharam essas concessões, não disputaram em licitação.
Essa é a principal dificuldade que a própria imprensa
tem com os deputados e senadores. Como eles são antigos
no processo e essas emissoras que eles têm foram ganhas,
existe essa birra da imprensa com os deputados.
CC:
O senhor também possui uma concessão?
HC: Eu tenho uma rádio FM em Barbacena, Minas Gerais.
É uma rádio numa cidade de 100 mil habitantes.
Eu disputei essa concessão em 1984, quando ainda não
era deputado, mas jornalista. Na verdade, atendi a um abaixo-assinado
da cidade, dizendo que eu era a única pessoa capaz de
fazer uma rádio que não seria política.
Então ganhei a concessão e montei uma rádio-modelo.
Fiz a primeira rádio lazer do Brasil. Aí, passei
as minhas cotas, não participo da direção.
CC:
O senhor não enxerga aí nenhum problema ético?
HC: Estou neste momento no procedimento de passar as minhas
cotas, até para atender a essa questão ética.
Só não fiz isso ainda porque tenho dois sócios
e, para fazer qualquer procedimento, tinha de consultá-los
oficialmente para saber se eles têm interesse em comprar
as minhas cotas.
CC:
O senhor é freqüentemente apontado como defensor
dos radiodifusores e, particularmente, da Rede Globo. Isso o
incomoda?
HC: É uma afirmação no mínimo injusta.
Prova a ignorância das pessoas que falam isso. Quando
o Adib Jatene foi ministro, ele era homenageado pelos médicos.
Pense no Roberto Rodrigues, que é um homem do agronegócio,
e olha com que emoção eles o tratam. Já
o pobre coitado do ministro das Comunicações...
Eu tenho uma radiozinha desse tamanhinho. Mas isso acontece
porque tenho uma carreira, modéstia à parte, muito
bem desenvolvida no setor de rádio e televisão
e fui empregado da Rede Globo, e muito bem tratado, diga-se.
Tratado com o maior respeito, a maior atenção.
Eu criei uma estrutura da Rede Globo no exterior que é
modelo. Quando criamos a Globo nos Estados Unidos, foi a primeira
emissora estrangeira nos Estados Unidos. Agora, veja você,
o que eu posso fazer pela Globo? Eu não posso fazer nada.
Ela está estruturada, absolutamente composta. Agora,
ninguém vai me tirar o orgulho de ser um jornalista de
televisão e de rádio. Só fui chamado para
vir para cá porque sou do ramo, conheço as comunicações.
Uma coisa posso te garantir é que, desde o dia em que
assumi este Ministério (em julho deste ano), ninguém
mais enrola o ministro. Ninguém.
CC:
Várias pessoas se queixam do esvaziamento do comitê
consultivo da TV digital e dizem que o senhor ouve apenas as
emissoras. Por coincidência, o Evandro Guimarães
acaba de sair da sua sala...
HC: Eu conversei com todas as emissoras porque virá delas
o principal. O Evandro está aqui, na realidade, porque
eu pedi a ele para passar aqui, pois fizemos uma reunião
na sexta-feira em Belo Horizonte, onde fui homenageado na véspera,
pela Abert (ligada à Globo) e pela Associação
Mineira de Rádio e Televisão. No dia seguinte,
fizemos uma reunião com os representantes de radiodifusão.
Ele, como é um dos secretários, ficou encarregado
de trazer o resultado final da reunião que eles fizeram
depois que eu saí.
CC:
O senhor considera boa a televisão brasileira?
HC: Excelente. O nível profissional e técnico
da televisão brasileira é excelente.
CC:
Não há problemas de qualidade da programação?
A Rede TV foi até tirada do ar na semana passada.
HC: Em todo lugar você vai encontrar programas ruins e
programas bons.
CC:
Caberia ao governo criar regras mais rígidas de vigilância?
HC: O que existe, nos outros países, é um código
de ética. Isso poderia ser feito aqui. Mas a única
maneira de censurar a televisão é você,
em casa, com o controle remoto. Você não precisa
da lei, precisa do bom senso. Dou um exemplo recente. Na Rede
Globo, começou-se a discutir o beijo gay na novela. Na
última hora, dizem que a direção da empresa
cortou o beijo gay. Veja só, tenho certeza de que o beijo
gay provocaria milhares de reclamações. O que
o governo poderia ter feito? Proibir? O governo não tem
sequer instrumentos para isso. Mas o bom senso levou a emissora
a cancelar o beijo.
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