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Informação:
CartaCapital
- Publicação em 07/12/2005
Por
Laurindo Lalo Leal Filho*
Perplexidade
no ar. Um grupo de professores da USP está reunido em
torno da mesa onde o apresentador de tevê William Bonner
realiza a reunião de pauta matutina do Jornal Nacional,
na quarta-feira, 23 de novembro.
Alguns
custam a acreditar no que vêem e ouvem. A escolha dos
principais assuntos a serem transmitidos para milhões
de pessoas em todo o Brasil, dali a algumas horas, é
feita superficialmente, quase sem discussão.
Os
professores estão lá a convite da Rede Globo para
conhecer um pouco do funcionamento do Jornal Nacional e algumas
das instalações da empresa no Rio de Janeiro.
São nove, de diferentes faculdades e foram convidados
por terem dado palestras num curso de telejornalismo promovido
pela emissora juntamente com a Escola de Comunicações
e Artes da USP. Chegaram ao Rio no meio da manhã e do
Santos Dumont uma van os levou ao Jardim Botânico.
A
conversa com o apresentador, que é também editor-chefe
do jornal, começa um pouco antes da reunião de
pauta, ainda de pé numa ante-sala bem suprida de doces,
salgados, sucos e café. E sua primeira informação
viria a se tornar referência para todas as conversas seguintes.
Depois de um simpático “bom-dia”, Bonner
informa sobre uma pesquisa realizada pela Globo que identificou
o perfil do telespectador médio do Jornal Nacional. Constatou-se
que ele tem muita dificuldade para entender notícias
complexas e pouca familiaridade com siglas como BNDES, por exemplo.
Na redação, foi apelidado de Homer Simpson. Trata-se
do simpático mas obtuso personagem dos Simpsons, uma
das séries estadunidenses de maior sucesso na televisão
em todo o mundo. Pai da família Simpson, Homer adora
ficar no sofá, comendo rosquinhas e bebendo cerveja.
É preguiçoso e tem o raciocínio lento.
A
explicação inicial seria mais do que necessária.
Daí para a frente o nome mais citado pelo editor-chefe
do Jornal Nacional é o do senhor Simpson. “Essa
o Homer não vai entender”, diz Bonner, com convicção,
antes de rifar uma reportagem que, segundo ele, o telespectador
brasileiro médio não compreenderia.
Mal-estar
entre alguns professores. Dada a linha condutora dos trabalhos
– atender ao Homer –, passa-se à reunião
para discutir a pauta do dia. Na cabeceira, o editor-chefe;
nas laterais, alguns jornalistas responsáveis por determinadas
editorias e pela produção do jornal; e na tela
instalada numa das paredes, imagens das redações
de Nova York, Brasília, São Paulo e Belo Horizonte,
com os seus representantes. Outras cidades também suprem
o JN de notícias (Pequim, Porto Alegre, Roma), mas elas
não entram nessa conversa eletrônica. E, num círculo
maior, ainda ao redor da mesa, os professores convidados. É
a teleconferência diária, acompanhada de perto
pelos visitantes.
Todos
recebem, por escrito, uma breve descrição dos
temas oferecidos pelas “praças” (cidades
onde se produzem reportagens para o jornal) que são analisados
pelo editor-chefe. Esse resumo é transmitido logo cedo
para o Rio e depois, na reunião, cada editor tenta explicar
e defender as ofertas, mas eles não vão muito
além do que está no papel. Ninguém contraria
o chefe.
A
primeira reportagem oferecida pela “praça”
de Nova York trata da venda de óleo para calefação
a baixo custo feita por uma empresa de petróleo da Venezuela
para famílias pobres do estado de Massachusetts. O resumo
da “oferta” jornalística informa que a empresa
venezuelana, “que tem 14 mil postos de gasolina nos Estados
Unidos, separou 45 milhões de litros de combustível”
para serem “vendidos em parcerias com ONGs locais a preços
40% mais baixos do que os praticados no mercado americano”.
Uma notícia de impacto social e político.
O
editor-chefe do Jornal Nacional apenas pergunta se os jornalistas
têm a posição do governo dos Estados Unidos
antes de, rapidamente, dizer que considera a notícia
imprópria para o jornal. E segue em frente.
Na
seqüência, entre uma imitação do presidente
Lula e da fala de um argentino, passa a defender com grande
empolgação uma matéria oferecida pela “praça”
de Belo Horizonte. Em Contagem, um juiz estava determinando
a soltura de presos por falta de condições carcerárias.
A argumentação do editor-chefe é sobre
o perigo de criminosos voltarem às ruas. “Esse
juiz é um louco”, chega a dizer, indignado. Nenhuma
palavra sobre os motivos que levaram o magistrado a tomar essa
medida e, muito menos, sobre a situação dos presídios
no Brasil. A defesa da matéria é em cima do medo,
sentimento que se espalha pelo País e rende preciosos
pontos de audiência.
Sobre
a greve dos peritos do INSS, que completava um mês –
matéria oferecida por São Paulo –, o comentário
gira em torno dos prejuízos causados ao órgão.
“Quantos segurados já poderiam ter voltado ao trabalho
e, sem perícia, continuam onerando o INSS”, ouve-se.
E sobre os grevistas? Nada.
De
Brasília é oferecida uma reportagem sobre “a
importância do superávit fiscal para reduzir a
dívida pública”. Um dos visitantes, o professor
Gilson Schwartz, observou como a argumentação
da proponente obedecia aos cânones econômicos ortodoxos
e ressaltou a falta de visões alternativas no noticiário
global.
Encerrada
a reunião segue-se um tour pelas áreas técnica
e jornalística, com a inevitável parada em torno
da bancada onde o editor-chefe senta-se diariamente ao lado
da esposa para falar ao Brasil. A visita inclui a passagem diante
da tela do computador em que os índices de audiência
chegam em tempo real. Líder eterna, a Globo pela manhã
é assediada pelo Chaves mexicano, transmitido pelo SBT.
Pelo menos é o que dizem os números do Ibope.
E
no almoço, antes da sobremesa, chega o espelho do Jornal
Nacional daquela noite (no jargão, espelho é a
previsão das reportagens a serem transmitidas, relacionadas
pela ordem de entrada e com a respectiva duração).
Nenhuma grande novidade. A matéria dos presos libertados
pelo juiz de Contagem abriria o jornal. E o óleo barato
do Chávez venezuelano foi para o limbo.
Diante
de saborosas tortas e antes de seguirem para o Projac –
o centro de produções de novelas, seriados e programas
de auditório da Globo em Jacarepaguá – os
professores continuam ouvindo inúmeras referências
ao Homer. A mesa é comprida e em torno dela notam-se
alguns olhares constrangidos.
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Sociólogo e jornalista, professor da Escola de Comunicações
e Artes da USP
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