| Informação:
Direto
da Redação - 01/12/2005
Eliakim
Araujo
O
suposto mensalão, cujo esquema de distribuição
seria comandado por José Dirceu, não o salvou
da cassação recomendada pela Comissão de
Ética. Aparentemente, 293 deputados não foram
aquinhoados pelas benesses patrocinadas pelo ex-chefe da Casa
Civil do governo. Ou, se o foram, pagaram com traição
a quem sempre lhes deu a mão, como diz a letra do samba
de Beth Carvalho.
Apesar
da “fartura de provas de favorecimento indevido e de abusos
da máquina pública", citada pelo relator
do processo, deputado Julio Delgado, não resta dúvida
de que o revanchismo comandou corações e mentes
dos parlamentares. Dirceu, pode ter culpa em cartório,
mas o julgamento dele foi antes de tudo político.
A
verdade é que o mensalão, de que é acusado
José Dirceu, faz parte da nossa cultura parlamentar há
muito tempo. Com outros nomes, é verdade. Quem nunca
ouviu falar da política do “é dando que
se recebe”? Durante o último governo militar, do
general João Figueiredo, o professor Leitão de
Abreu, que era o chefe do Gabinete Civil, comandou farta distribuição
de concessões de emissoras de rádio e TV aos parlamentares.
Se o leitor se der ao trabalho de pesquisar minimamente vai
observar que as grandes redes de TV da maioria dos estados está
nas mãos de famílias de politicos, tradicionais
oligarquias que comandam a mídia brasileira.
Falando
em oligarquias, vale lembrar que, durante o governo Sarney (1985/1990),
reinou no Ministério das Comunicações,
encarregado da distribuição de canais de rádio
e televisão, o atual senador Antonio Carlos Magalhães.
Ressalte-se que tanto Sarney quanto ACM dominam a mídia
televisiva em seus respectivos estados, Maranhão e Bahia.
Como diz o ditado, “foi como colocar a raposa para tomar
conta do galinheiro”. Coisas da nossa democracia que sempre
privilegiou poucos em detrimento de muitos.
Depois
do mensalão das concessões, outro velho hábito
do nosso parlamento é a aprovação de emendas
orçamentárias para beneficiar esse ou aquele deputado
em seu reduto eleitoral. Em troca do voto, o parlamentar mantém
sua política clientelista com vistas às eleições
futuras. Como essa verba é usada, quase ninguém
sabe. Supostamente, é para atender a uma necessidade
imediata do eleitorado do deputado beneficiado.
Às
vezes, a história dá errado. Em 1993, por exemplo,
estourou o famoso escândalo dos anões. Uma CPI
constatou que deputados encarregados da elaboração
do Orçamento da União enriqueceram ilicitamente
fraudando emendas orçamentárias em benefício
próprio. Seis acabaram cassados e um deles, João
Alves, o mais célebre, renunciou ao mandato para não
perder os direitos políticos.
A
história nos tem mostrado as muitas faces do mensalão,
usadas para comprar a consciência dos senhores deputados.
José Dirceu caiu na armadilha. Foi julgado pelo seu passado
político e, principalmente, pelo tom autoritário
e arrogante, antes como parlamentar e depois como chefe da Casa
Civil, com que sempre conduziu as negociações
com seus pares.
Como
o relator do pedido de cassação afirmou que "Dirceu
é o principal envolvido no escândalo do vazamento
de recursos por meio de Marcos Valério para vários
partidos e parlamentares", a opinião pública
deve exigir incontinenti a divulgação dos nomes
dos beneficiários da corrupção. A Comissão
de Ética está obrigada a nomeá-los, todos,
para que sejam julgados e tenham o mesmo destino de Dirceu.
Sobre
o autor: Ancorou o primeiro canal internacional de
notícias em língua portuguesa, a CBS Brasil. Foi
âncora dos Jornais da Globo, da Manchete e do SBT e noticiarista
da Radio JB. Tem uma empresa de assessoria em jornalismo e marketing.
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