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Informação:
Observatório
da Imprensa - 29/11/2005
A
Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel),
através de seu Conselho Diretor, concedeu em 18/11 aceitação
prévia para a transferência do controle da DirecTV
para a Sky Brasil, ambos braços de empresas que no exterior
já são controladas pelo conglomerado News Corporation,
do megaempresário Rupert Murdoch. É o primeiro
passo oficial do Estado brasileiro para permitir que a Sky venha
a adquirir e controlar as operações da DirecTV,
o que configura um monopólio no segmento de DTH constatado
como positivo pela própria agência reguladora.
"Além
de implicar a eliminação de um concorrente, resultará,
para o Brasil, numa empresa detentora de mais de 97% do Mercado
de Provimento de TV por Assinatura na plataforma DTH e de mais
de 34% do Mercado de Provimento de TV por Assinatura, contando
as três tecnologias", informou a assessoria de imprensa
da Anatel em comunicado oficial divulgado após a decisão.
Tanto
Sky quanto DirecTV estão autorizadas a explorar o Serviço
de Distribuição de Sinais de Televisão
e de Áudio por Assinatura Via Satélite (DTH) em
âmbito nacional. A Anatel determinou, ainda, a remessa
do ato de concentração ao Conselho Administrativo
de Defesa Econômica (Cade), recomendando a aprovação
da operação com restrições, considerando
o impacto da operação no provimento de TV por
assinatura - composto pelos serviços de TV a Cabo, MMDS
e DTH; a comercialização de canais de programação
audiovisual e o licenciamento de tecnologia para acesso e recepção
de TV por assinatura.
"As
restrições são bastante cosméticas
para um segmento da comunicação eletrônica
que tem poder para canibalizar os demais uma vez que está
em todo o território nacional e possui recursos praticamente
inesgotáveis para novos investimentos e capitalização",
afirma o coordenador-geral do FNDC, Celso Schröder.
Aval
antecipado
A
análise da Anatel foi iniciada ao final de 2004 quando
a proposta de compra da DirecTV se efetivou por parte da Sky
Brasil. Mas a entrada definitiva dos interesses do mega-empresário
australiano no Brasil foi facilitada por quem já havia
dado o primeiro "de acordo" para seu desembarque:
as Organizações Globo.
Reestruturando
uma dívida bilionária, o grupo da família
Marinho aceitou a oferta da News Corp., que assumiu o papel
de avalista de US$ 220 milhões das pendências relativas
a despesas com serviços de satélite, em troca
de 14% de suas ações na Sky Brasil. Com isso,
a holding de Murdoch passou a deter 50% do controle da empresa,
contra 40% da Globopar e 10% da Liberty Media, e assim levou
adiante o processo de fusão com a DirecTV.
"Com
a manobra, a Globopar tirou um fardo de suas costas. E de quebra
ganhou uma considerável participação acionária
(de 28%) na nova Sky, na qual Murdoch terá 72%",
informou a revista IstoÉ Dinheiro na época do
negócio. "A Globo pensou apenas nela. O que ela
conseguiu da News não pode ser visto como um projeto
para o Brasil", afirmou nesta semana o presidente do grupo
Bandeirantes e da Associação Brasileira de Radiodifusores
(Abra), João Carlos Saad, ao noticiário Tela Viva
News.
Mesmo
afirmando que manterá operações separadas
no Brasil, as empresas de Murdoch tiveram acesso imediato aos
lares de 1,2 milhão de brasileiros e cobertura de 100%
do território nacional com plataformas que em ambos os
casos já se definiram pelo padrão europeu de TV
Digital. "Acaba de nascer um novo monopólio no Brasil",
afirmou à IstoÉ Dinheiro no ano passado o presidente
da Rede Record, Denis Munhoz. Meses antes do aceite da Anatel
do último dia 18/11, na prática as empresas já
compartilhavam o conteúdo de seus canais exclusivos sem
esperar pela decisão dos órgãos competentes.
Conseqüências
nefastas
Para
o Brasil, as perdas com a formação de um novo
monopólio não ficarão concentradas no estagnado
mercado de TV por assinatura. Agressivo em suas estratégias
comerciais, conservador e sensacionalista na linha editorial
que impõe a seus veículos de comunicação,
a presença dominante de Murdoch no Brasil terá
implicações ainda mais nefastas para a cultura
e a soberania nacional, tanto no campo da produção
de conteúdo quanto no processo da digitalização
das comunicações.
O
conglomerado de Murdoch fatura US$ 21 bilhões anuais
controlando jornais, revistas, TVs abertas e por assinatura,
estúdios de cinema, editoras de livros e revistas e outras
empresas em regiões tão distintas quanto a Oceania
e a América Latina, a Europa e a Ásia, além
dos Estados Unidos e Canadá. Em outubro de 2003, Murdoch
já havia adquirido da General Motors as operações
da DirecTV nos Estados Unidos por US$ 6,6 bilhões. "É
fundamental que a sociedade pressione agora o Cade para barrar
este gigante nascido dentro de uma anomalia legal", analisa
Schröder.
Histórico
de irregularidades
A
ameaça concreta já era temida por parte da sociedade.
Em 1996, o FNDC e a Federação Nacional dos Jornalistas
(Fenaj) moveram uma ação popular com pedido de
liminar na Justiça federal contra o ex-ministro Sérgio
Motta, apresentaram minutas de projetos de lei e de decreto
legislativo para regulamentar o serviço DTH e cassar
as permissões concedidas irregularmente e encaminharam
denúncias ao Tribunal de Contas da União e ao
Ministério Público Federal sobre a ilegalidade
cometida pelo governo da época. Nos processos, as entidades
questionavam uma série de irregularidades do Ministério
das Comunicações ao permitir que dois grupos passassem
a explorar um serviço de caráter estratégico
que sequer possuía base legal para existir.
Julgado
improcedente pela 3ª Vara Federal de Brasília, em
novembro do ano passado o procurador Gustavo Pessanha Velloso
interpôs uma apelação cível e o processo
seguiu para o Tribunal Regional Federal da 1ª Região.
De acordo com o site da Seção Judiciária
do Distrito Federal, a ação segue em compasso
de espera desde março deste ano. Por iniciativa do FNDC,
o projeto de lei nº 2202/96 foi apresentado pelo deputado
federal Jaques Wagner (PT-BA) contendo uma proposta de legislação
para o DTH. "No fundo, queríamos evitar conseqüências
como as que estão colocadas diante da realidade que encontramos
hoje", afirma o coordenador-geral do FNDC, Celso Schröder.
A proposição foi arquivada somente em fevereiro
deste ano.
O
serviço de TV paga por satélite surgiu no Brasil
por uma situação de fato e se mantém cercado
de irregularidades até hoje. A principal delas é
que o DTH foi indevidamente criado através das Portarias
nº 87 e nº 88, de 23 de abril de 1996, do Ministério
das Comunicações, com a distribuição
de autorizações para os grupos Globo e Abril,
antes mesmo da sua regulamentação. Isso só
veio a ocorrer, de forma precária, através da
Norma nº 008/97, baixada pela Portaria nº 321, de
25 de maio de 1997, na qual o nome do serviço foi alterado
para "Serviço de Distribuição de Sinais
de Televisão e de Áudio por Satélite (DTH)".
A
fundamentação do serviço também
é atribuída ao Decreto 2.195, de 8 de abril de
1997 que, entretanto, sequer o cita. Objetivamente, só
a Portaria nº 321, com a Norma nº 008/97, traz especificações
sobre o serviço DTH. Em janeiro de 1997, novamente com
apoio do FNDC, o deputado Jaques Wagner apresentava à
Câmara o Projeto de Decreto Legislativo nº 375/97,
que sustava a eficácia das portarias que geraram o problema.
A proposição só foi arquivada em novembro
de 2003, depois de percorrer comissões e mais comissões.
Regulamentação
precária
Sem
passar pelo crivo do Congresso Nacional, o DTH ganhou perfil
de serviço de telecomunicações e acabou
regulamentado sem observar a maioria dos dispositivos constitucionais
que regem a radiodifusão sonora e de sons e imagens (rádio
e TV aberta), por exemplo. Muito menos foram a então
recente lei da TV a Cabo, outro serviço de telecomunicações
por assinatura aprovado meses antes, serviu de parâmetro
para conter a pressa do ministro. Desta forma, premissas básicas
que regulam o cabo no Brasil – uma atribuição
social para o serviço, a criação dos canais
de acesso gratuito e a limitação de 49% do capital
acionário a sócios estrangeiros – foram
deixadas de lado.
Sem
dar satisfação à sociedade, na prática
Motta liberou os dois grupos a sair operando os então
desconhecidos serviços Sky e DirecTV. Na época,
por trás do primeiro já estavam Murdoch, os Marinho
e o grupo britânico Liberty Media. A composição
da DirecTV, controlada na região pela Galaxy Latin America,
envolvia o grupo Abril, por meio da TVA, a Hughes Eletronics,
o grupo venezuelano Cisneros e a mexicana MVS Multivisión.
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