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Informação:
Observatório
da Imprensa - 29/11/2005
Alberto
Dines
O
Supremo Tribunal Federal é a vedete do momento e a imprensa
não está sabendo como acompanhar os seus trabalhos.
No país dos bacharéis, faltam bacharéis
nas redações.
No
âmago da mais grave crise política dos últimos
50 anos gera-se uma crise institucional com inevitáveis
impasses e colisões entre os poderes. Quem deve dirimi-los
é o Judiciário, mas para que a sociedade avalie
e julgue os juízos dos juízes é indispensável
que a imprensa reaprenda a cobrir e a analisar o que se passa
no distante e misterioso mundo togado.
O
julgamento do último recurso do deputado José
Dirceu no STF, para impedir o prosseguimento do seu processo
na Câmara (quarta-feira, 23/11), revelou a precariedade
da nossa cobertura forense. Dos três jornais nacionais,
apenas um, O Globo, examinou no dia seguinte o voto de cada
um dos 10 ministros e o troca-troca de opiniões ao longo
do julgamento. E o fez num pequeno quadro dentro da matéria
sobre a sessão.
No
sábado, 26/11, depois de ouvir alguns juristas, O Estado
de S.Paulo apontou o erro do presidente da suprema corte, ministro
Nelson Jobim, numa pequena matéria (pág. A 26).
Ao declarar a votação empatada, Jobim considerou
o voto do ministro Cezar Peluzo como favorável à
suspensão do julgamento do deputado Dirceu.
Na
realidade, o ministro Peluzo entendeu que o julgamento poderia
continuar desde que do relatório da Comissão de
Ética fosse retirado o depoimento da presidente do Banco
Rural, Kátia Rabello. Portanto, votou a favor da continuação
do processo e contra José Dirceu.
Jobim
errou a segunda vez ao considerar que a votação
estava 5 a 4. Neste caso, o ministro-presidente não deveria
ter provocado o empate já que a sua função
precípua é desempatar. O correto seria esperar
até a sessão seguinte (quarta, 30/11) e, só
então, depois do voto do ministro Sepúlveda Pertence,
se manifestar.
Especializada
e autônoma
Não
são firulas nem irrelevâncias. O STF é a
instância máxima, espécie de vitrine da
lisura e da transparência. Pequenas falhas nos procedimentos
da suprema corte podem causar danos irreparáveis não
apenas na vida de cidadãos, mas na credibilidade e sobrevivência
do próprio regime.
Quem
julga o STF? O recém-criado Conselho Nacional de Justiça,
cujo presidente é também o presidente do STF?
Ou esta tarefa cabe à imprensa?
A
imprensa tem a delegação da sociedade para acompanhar
o que se passa na esfera forense, da primeira à última
instância. Tem legitimidade para isso. Não dispõe
de poderes efetivos, mas detém algo ainda mais poderoso:
a capacidade de informar.
Mas,
para isso, precisa estar tecnicamente preparada. Para cobrar
e fiscalizar é indispensável um mínimo
de conhecimento e competência. E, naturalmente, algum
apetite para mexer numa área considerada inviolável
e inacessível, sempre acima de qualquer suspeita.
A
desatenção dos diários (e, por extensão,
do resto da mídia) para os incidentes no julgamento da
quarta-feira (23/11) pode estimular repetições
e, eventualmente, desdobramentos ainda mais graves. A desenvoltura
com que o senador Renan Calheiros, presidente do Senado e chefe
do Legislativo, estimula a candidatura do ministro Nelson Jobim,
chefe do Judiciário, a disputar a chefia do Executivo
nas próximas eleições presidenciais dá
uma idéia do desprezo da classe política pelas
mais comezinhas convenções e procedimentos (ver
Estadão, domingo, 27/11, pág. A 6).
Passou
o tempo do jornalismo generalista. A cobertura do Judiciário
deve ser tão especializada e autônoma quanto a
cobertura econômica ou internacional. Jornais responsáveis
não podem contentar-se com os releases fornecidos pelas
assessorias de imprensa dos diferentes tribunais.
Sem
o charme da cobertura política, neste momento uma judiciosa
cobertura do Judiciário pode ser decisiva para o futuro
do país.
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