Destaques

Escolha da TV digital acirra lobby estrangeiro.


 

Informação: Folha de São Paulo - Dinheiro - 27/11/2005

ELVIRA LOBATO
DA SUCURSAL DO RIO

A expectativa de que o Brasil defina seu modelo de televisão digital em fevereiro de 2006 reacendeu o lobby estrangeiro para influenciar na escolha da tecnologia. EUA, Europa e Japão pressionam o Brasil, que tem de escolher um entre os três sistemas. O Ministério das Comunicações calcula que a implantação da TV aberta digital exigirá investimentos dos radiodifusores de cerca de US$ 1 bilhão (cerca de R$ 2,3 bilhões). Quatro anos atrás, a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) projetava que seriam necessários R$ 30 bilhões em investimentos até a completa substituição dos televisores analógicos por digitais no Brasil, em um horizonte de dez a 15 anos. No início do mês, o ministro Hélio Costa, em depoimento no Congresso, manifestou preferência pelo sistema de TV digital japonês, conhecido pela sigla ISDB-T, ao afirmar que os japoneses teriam sido os únicos a oferecer isenção de royalties para a adoção de sua tecnologia no Brasil. Como o governo promete anunciar a escolha em fevereiro, foi o bastante para reacender a guerra comercial entre os fornecedores de tecnologia.

Na semana passada, o chefe da Delegação da Comissão Européia no Brasil, embaixador João Pacheco, enviou carta aos presidentes das principais redes de televisão do país prometendo vantagens no caso da escolha do padrão europeu DVB-T (Digital Vídeo Broadcasting Terrestre). A carta acena com financiamento de 5 milhões para pesquisa e desenvolvimento de tecnologias de transmissão de TV digital no país e com possíveis empréstimos do Banco Europeu para investimentos das emissoras na compra de equipamentos. A correspondência foi enviada aos dirigentes de Globo, SBT, RedeTV!, Bandeirantes, Record, TV Cultura e Gazeta, mas os radiodifusores também já declararam preferência pelo sistema japonês -que consideram mais próximo da realidade nacional-, com aproveitamento de soluções criadas nas universidades brasileiras.

O Brasil anunciou o desenvolvimento de um sistema próprio de televisão digital, batizado de SBTVD (Sistema Brasileiro de Televisão Digital), que está em teste em São Paulo desde o dia 15. Ele possui transmissor, caixa de conversão e software básico desenvolvidos por pesquisadores das universidades Federal da Paraíba, USP e Mackenzie, de São Paulo. A novidade forçou os consórcios estrangeiros, que há cinco anos aguardam a definição do governo brasileiro, a readaptar o discurso. A Comunidade Européia acena também com a possibilidade de adotar os aplicativos desenvolvidos no Brasil em escala mundial, o que permitiria ao país receber royalties. Um dia depois da manifestação européia, os norte-americanos fizeram chegar ao ministro Hélio Costa um documento que também acena com a possibilidade de incorporar ao seu sistema os softwares desenvolvidos no Brasil.

A carta, assinada por Robert Graves, principal executivo de implantação do Forum ATSC (entidade que difunde a tecnologia norte-americana), diz haver possibilidade de financiamento de até US$ 150 milhões para investimentos em televisão digital no Brasil, incluindo parcerias com empresas e instituições brasileiras para desenvolvimento de software, antenas, decodificadores e outros componentes. A entidade diz que "a TV digital está disparando como foguete na América do Norte" e que desde que o serviço foi lançado, no final de 1998, até hoje, foram vendidos 20 milhões de televisores de alta definição digital, pelas quais os consumidores pagaram US$ 31 bilhões. Diz que, com a tendência de queda nos preços, em breve os televisores de alta definição digital vendidos nos EUA custarão menos do que os televisores analógicos vendidos no Brasil. Hoje uma comissão japonesa -representantes do governo, da associação de radiodifusores e de fabricantes, entre elas Pioneer, Toshiba, Matsushita, Sanyo e Sony- desembarca no Brasil para intensificar o lobby em favor do padrão de TV digital ISDB-T.

Pressa
No dia 10 de dezembro, o grupo gestor formado por técnicos de seis ministérios entregará o relatório sobre o sistema de TV digital desenvolvido no Brasil e compatibilidade com os demais sistemas mundiais. O relatório técnico subsidiará o relatório final do governo, previsto para 10 de fevereiro de 2006, com a decisão final.

 

Transmissão será gratuita para celulares

Informação: Folha de São Paulo - Dinheiro - 27/11/2005

DA SUCURSAL DO RIO

A televisão digital a ser escolhida pelo governo terá recepção gratuita da programação pelos aparelhos de telefone celular. ""A televisão aberta é gratuita e tem de continuar assim, não importa se a programação é recebida em aparelhos fixos ou móveis", afirma o presidente da SET (Sociedade Brasileira de Engenharia de Televisão), Roberto Franco.

É por esse motivo que o padrão japonês tem a preferência dos radiodifusores. O sistema permite que a programação seja irradiada das redes de televisão diretamente para os telefones celulares, sem passar pelas redes das operadoras de telefonia celular. Para captar a programação da televisão, será necessário apenas incluir um chip no aparelho telefônico, para que ele possa funcionar como um televisor portátil.

Com essa tecnologia, segundo entendimento de especialistas ouvidos pela Folha, os radiodifusores preservariam seu modelo de negócios e evitariam a concorrência direta das empresas de telecomunicações em seu mercado. Com o sistema japonês, a televisão tem mais poder de negociação com as operadoras de telefonia celular do que os sistemas europeu ou norte-americano.

Comparação
O professor Gunnar Bedicks, coordenador do Laboratório de TV Digital da Universidade Mackenzie, que está testando a transmissão do sistema de televisão digital brasileiro para telefones celulares, afirma que nenhum padrão internacional de televisão digital funcionaria no Brasil sem adaptações.

Segundo ele, o Brasil possui a maior rede de transmissão de televisão aberta, por via terrestre, do mundo, num total de 25 mil transmissores e retransmissores.

Nos Estados Unidos, diz ele, 80 milhões de domicílios recebem a programação da TV por cabos e 23 milhões a recebem via satélite. O sistema europeu de televisão também é baseado na transmissão via satélite. O Japão é que mais se aproxima da realidade brasileira, pois tem uma televisão aberta com transporte de sinais por faixa de freqüência e sua receita é baseada na venda de publicidade.

Bedicks afirma que o sistema brasileiro de televisão digital foi desenvolvido a partir dos sistemas que existem no exterior. Os sistemas europeu, norte-americano e japonês, segundo ele, têm muito em comum.

A principal característica do sistema norte-americano é que ele não permite a transmissão para receptores móveis, pois foi desenvolvido com vistas à televisão de alta definição.

Em novembro de 2003, quando decidiu desenvolver um sistema brasileiro de televisão digital, o governo determinou que ele deve estar associado a um projeto de inclusão digital e de educação à distância, e não apenas ao entretenimento.

A tecnologia digital permite a transmissão de até quatro programações simultâneas com o mesmo espectro de freqüência que hoje transmite apenas um canal digital, com qualidade de imagem e de áudio superior ao da transmissão analógica. Na TV digital, não é possível transmissão de imagem com fantasma. Ou a imagem é limpa, ou a tela fica preta.
(ELVIRA LOBATO)

 

País quer se unir à Argentina para definir modelo

Informação: Folha de São Paulo - Dinheiro - 27/11/2005

DA SUCURSAL DO RIO

O ministro das Comunicações, Hélio Costa, enviou à Argentina o secretário de Telecomunicações, Roberto Pinto Martins, e o encarregado de TV Digital, Igor Villas Boas, para discutir uma estratégia conjunta dos dois países para a televisão digital. O entendimento, segundo ele, foi proposto pelo país vizinho.

Embora tenha atribuído vantagens ao sistema japonês, durante o seu depoimento no Congresso, neste mês, o ministro disse que o governo não tem preferência por determinado sistema estrangeiro.

""O que oferecer melhor condições de pagamento de royalties, condições técnicas de TV de alta definição, mobilidade e interatividade é o que vai nos atender (...) Não estamos fechando com um padrão, mas com as ferramentas que atendam às necessidades brasileiras", afirmou na ocasião. (EL)