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Comunique-se
- 24/11/2005
Sérgio
Barbosa (*)
Nas décadas de 50 e 60 operou-se a consolidação
do que hoje se costuma chamar de transnacionalização
do capital. O capital transnacional passa a ser o carro-chefe
do desenvolvimento de quase todo o Terceiro Mundo. O processo
de monopolização, tanto da produção
como do comércio internacional se acentua drasticamente.
No
plano político, é o período do macartismo
e do anti-comunismo exacerbado que interpreta as contradições
mais corriqueiras como resultado da oposição Leste-Oeste.
Profundas necessidades de reajustes abalam o capitalismo mundial
e em especial o norte-americano. A crise de legitimidade do
capitalismo está em fase definitiva de transnacionalização,
preocupando importantes setores ultraconservadores.
Ideólogos
religiosos - As Igrejas tradicionais (católicas e protestantes)
passam por uma profunda crise de resultado como parte da voracidade
do sistema capitalista. O sistema não podia esperar dos
teólogos e dessas Igrejas o suporte ideológico
necessário para manter-se legitimado. Isso abre um flanco
para que os novos ideólogos religiosos comecem a assumir
posições importantes na legitimação
"teológica" do sistema.
É
neste contexto que acontece a arrancada de alguns dos importantes
tele-evangelistas norte-americanos famosos até hoje:
Billy Graham, Oral Roberts, Jerry Falwell e outros.
No final da década de 60 e início dos anos 70,
com profundas mudanças nos costumes e na moral, além
da humilhante derrota no Vietnã, os EUA passam por grandes
transformações e enfrentam profunda crise de identidade.
Neste
contexto, em nome da segurança e defesa do "mundo
livre" capitalista, se faz valer os interesses das grandes
empresas armamentistas. A ciência e a tecnologia passam
a servir o grande capital. A segurança é elevada
à estratégia transnacional possibilitando chantagear
outros sub-pólos do capitalismo (Europa e Japão).
A crise de legitimação do sistema desperta boa
dose do pensamento religioso apocalíptico.
Os
investimentos em armamentos provocam o endividamento dos EUA
em níveis nunca imaginados, mas tudo justifica-se. O
interesse dos grandes grupos era escamoteado por uma questão
de segurança "mundial".
Como
a sociedade americana não poderia pagar sozinha a conta
da "segurança do mundo", acontece a exportação
dos custos, obrigando todo o Terceiro Mundo a participar, via
pagamento de juros da dívida externa, dos "investimentos"
norte-americanos na área.
A
expansão da Igreja Eletrônica nos países
latino-americanos se dá exatamente com essa função.
De um lado, houve a invasão direta executada por tele-evangelistas
que apoiaram Carter, Reagan e Bush, criando assim condições
para os nativos desenvolverem programas (ou comprarem emissoras
de TVs e Rádios), sempre dentro da mesma perspectiva
"teo-ideológica". O sistema capitalista tinha
a necessidade de legitimar a exportação das riquezes
do Terceiro Mundo para o Primeiro Mundo, com o consentimento
dos explorados.
A "Igreja Eletrônica" é a nomenclatura
mais utilizada nos EUA, centrada na espetacularidade da televisão.
Dessa forma, acabou atingindo também o rádio,
tendo como pano de fundo os manejos de técnicas publicitárias
e forte carga ideológica.
Foi
na América Latina que o termo "Igreja Eletrônica"
acabou incorporando um elemento denunciatório de práticas
mercadológicas da fé.
Num
encontro da WACC (Associação Mundial das Comunicações
Cristãs), realizado em 1983, Willian Fore, presidente
da Instituição, na época, rejeitou o termo
"Igreja Eletrônica" porque os tele-evangelistas,
normalmente, não representam nenhuma denominação.
Propôs como monenclatura "Religião Comercial"
pois, segundo Fore, o objetivo é puramente de difusão
comercial massiva. Outras propostas surgiram, não obtendo
maiores adesões, tais como: marketing da fé, messianismo
eletrônico, assembléia eletrônica e até
mesmo, igreja elétrica. Não entrando no mérito
da questão sobre qual o termo mais adequado, apenas expondo
alguns idéias neste ensaio, o termo utilizado foi o de
Igreja Eletrônica (IE), por considerá-lo de domínio
público mais amplo.
No
Brasil, é no início dos anos 80 que começam
os primeiros estudos sobre a Igreja Eletrônica, com as
primeiras publicações em língua portuguesa.
Nos EUA o assunto é pauta de estudos desde a década
de 60. Ainda hoje, há poucas publicações
sobre o assunto IE, e o material disponível no mercado
é repetitivo.
O
fetiche do capitalismo permeou o pensamento teológico,
utilizando-o segundo interesses político-econômicos
bem diversos da proposta inicial do cristianismo.
(*)
Jornalista, Mestre em Ciências da Religião pela
Universidade Metodista de São Paulo- UMESP, Chefe do
Departamento de Comunicação Social da FAI (Adamantina,
SP) e professor da Faculdade Maringá (Maringá,
PR).
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