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Informação:
Observatório
da Imprensa - 22/11/2005
Nelson
Hoineff
A
Rede TV! ficou 25 horas fora do ar porque desrespeitou o telespectador.
A punição procede. É claro que se a moda
pega vai faltar emissora para tanta freqüência livre.
É doloroso para quem observa a televisão com um
mínimo de respeito pelo que o veiculo poderia oferecer
de qualidade de entretenimento e de informação,
de inteligência e de contribuição para a
formação da população brasileira
– mas também e principalmente de competitividade
e de desempenho comercial –, é doloroso, dizia-se,
que a essa altura ainda estejamos discutindo a ética
das pegadinhas. E, no entanto, seria paradisíaco se o
problema das pegadinhas se restringisse ao que ele parece ser.
Como num filme de Wes Craven, porém, o mal só
aparece quando fica fora de controle.
O
episódio das pegadinhas do programa Tardes Quentes, de
João Kleber e da interrupção imposta à
RedeTV! pode não trazer qualquer contribuição
especial ao que se vem discutindo há tempos sobre o nível
médio da televisão aberta brasileira, e a maneira
como vêm sendo utilizadas as concessões públicas
de radiodifusão. Pode também não acrescentar
muita coisa ao que já se sabe sobre a falta de talento
e de compreensão do business com que é gerida,
em sua maior parte, essa programação. Mas é
emblemático de algo bem maior. O que acontece com as
tardes promovidas por João Kleber é mais parecido
do que se pensa com o que ocorre todos os dias na mídia
brasileira.
Há
dois patamares em que a questão das pegadinhas pode ser
considerada. O primeiro é o da honestidade de sua encenação.
O segundo é o da invasão da privacidade e o da
exposição de preconceitos.
Sabemos
que o que se pretende por autêntico nesse tipo de pegadinha
é, na verdade, falso. Tudo ali é encenado. Em
geral por atores sem muito talento e a partir de mecanismos
que denunciam por si só a fraude (colocação
das câmeras, áudio, edição etc.).
Qualquer cidadão com mais de dois neurônios sabe
que o que está vendo não é uma brincadeira
(ainda que de mau gosto) com transeuntes desavisados, mas uma
encenação quase amadora. Ainda assim, age como
se tudo aquilo fosse verdade – seja porque quer acreditar
no que sabe que é falso, seja porque tem realmente menos
de dois neurônios.
Asneira
em profusão
Uma
coisa completamente diferente é a exposição
de preconceitos contra negros, nordestinos, mulheres, homossexuais
e por aí afora. Esse é um crime previsto em lei,
não importa em que contexto o quadro esteja sendo exibido.
Se
um segurança de shopping é punido por manifestar
preconceito racial, não há razão para que
com uma empresa de mídia os critérios sejam outros.
Da mesma forma a invasão da privacidade e a utilização
indevida da imagem. Não fosse tudo obra de ficção,
os produtores das "pegadinhas" trabalhariam 10 anos
para pagar as indenizações que qualquer juiz do
mundo acataria a cada 5 minutos.
A
televisão e o povo brasileiro não mereciam que
a essa altura do campeonato – e com tantos problemas sérios
a serem enfrentado no país – essas bobagens ainda
estivessem no epicentro de um debate.
Mas
não é apenas nas pegadinhas do João Kleber
que o que se pretende por autêntico é na verdade,
falso. E não é apenas na Rede TV! que essa falsidade
toda é encenada por péssimos atores. A mesma coisa
tem acontecido com dolorosa freqüência nas redações
de muitos grandes jornais e revistas do país –
que como João Kleber (e, diga-se, com muito maior convicção
do que ele) sugerem ao público que estão falando
a verdade, não estão sendo preconceituosos e muito
menos utilizando indevidamente a imagem de pessoas sérias
e manipulando seus pensamentos para sustentar suas próprias
opiniões ou defender seus próprios interesses.
As
execráveis "pegadinhas" já não
são tumores, mas tornaram-se parte do organismo num ambiente
jornalístico dominado em grande medida pela inconsistência,
arrogância e leviandade. Pela certeza de que o papel em
branco aceita qualquer coisa e ali se pode escrever o que quiser,
porque tem-se a prerrogativa de ser dono desse espaço.
A
quantidade de asneiras, por exemplo (e para ficar apenas no
âmbito da mídia), que a imprensa foi capaz de publicar
semana passada sobre a Cúpula Mundial sobre a Sociedade
da Informação, em Tunis, é estarrecedora.
E o mais grave é que todas essas condições
somadas geram o perigoso resíduo da chantagem –
às vezes completamente explícita, outras ligeiramente
disfarçada – que acompanha (sem a menor sensação
de culpa, como se fosse completamente natural) essa sensação
de aproveitamento irresponsável do poder.
Realidade
arquitetada
A
existência das pegadinhas nas tardes da Rede TV! é
uma coisa triste. Já a generalização das
pegadinhas pela imprensa que se vende como séria é
algo dramático.
João
Kleber faz o seu papel, não se apresenta como o que ele
não é. Nas redações, no entanto,
o mesmíssimo papel do apresentador/humorista é
exercido por autores de pegadinhas travestidos de jornalistas.
Aquele tem alguns minutos num slot de programação
de TV que não se apresenta como sério, usando
como matéria-prima um ambiente escancaradamente encenado.
Esses têm a primeira página de jornais e revistas
que se apresentam ao leitor como tudo menos levianos –
e toda a vida nacional como matéria-prima.
Não
fazem piadas de tão explícito preconceito contra
minorias raciais ou opções sexuais – e mesmo
que o fizessem a punição de ficar fora do ar ou
das bancas é a última coisa que a sociedade desejaria
para eles, visto que a questão certamente não
passa pela demanda por controle externo.
Mas
o fato é que o ambiente que permite e encoraja a disseminação
dessas pegadinhas não é nem um pouco distinto
do ambiente que estimula a construção de uma realidade
que só existe na dimensão em que ela está
sendo arquitetada.
A
diferença está no grau de hipocrisia de cada um.
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