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Informação:
Observatório
da Imprensa - 22/11/2005
Ivo
Lucchesi (*)
O
tema deste artigo retoma insistente questão que, a despeito
da ineficiência quanto a possíveis efeitos, nem
por isso deva ser descartada. A imprensa, em especial a brasileira,
padece há algum tempo de "informatite", à
qual agrega outro deformante sintoma: "excitatite".
Assim, com dupla "inflamação", os órgãos
de comunicação debilitam tanto a saúde
das matérias jornalísticas quanto a dos respectivos
leitores.
Informação
ininterrupta e excitação permanente travam o esforço
de inserção do pensamento crítico. Principalmente
os profissionais mais jovens parecem proibidos ou incapacitados
de qualquer elaboração capaz de romper o viciado
esquema dominante na prática jornalística nacional.
Nesse modelo, inexiste espaço para análise ou
para interpretação. Uma e outra são vistas
como venenos letais, o que redunda numa fórmula cuja
repercussão subjetiva no leitor é mínima
para não dizer nenhuma.
O
quadro de "infecção" diagnosticado na
atividade jornalística ainda se faz mais preocupante
no terreno da política. Aí mesmo, é que
quase ninguém arrisca coisa alguma. A maioria opta por
um "colete" de proteção cerebral, limitando-se
a reprodução de fatos. Vamos esboçar algo,
à altura de conferir melhor visibilidade à avaliação
aqui proposta.
Em
favor da análise
Seja
na mídia impressa, seja na mídia eletrônica,
o recente conflito entre ministérios (Casa Civil e Fazenda),
tendo à frente respectivamente as figuras de Dilma Roussef
e Antonio Palocci, foi alvo de dezenas de matérias que
ainda se multiplicaram em outras tantas em função
do modo como se comportou o presidente da República.
Tudo que os meios de comunicação poderiam, em
torno do episódio, informar, foi, além de informado,
repetido à exaustão.
A
"cultura da fofoca" beirou o ponto máximo.
Pois diante de tanta oferta, nada parecia ultrapassar a fronteira
da retroalimentação de mero caráter repetitivo,
à altura de escapar da mesmice em favor de uma "leitura
crítica" que expusesse o subtexto das intencionalidades,
gerador do fato. Para não radicalizar, ali e acolá,
vozes tímidas arriscaram inferir que, por trás
da declaração da ministra, dada a pasta que ocupa,
estaria o próprio presidente. Bem, mas aí mesmo
é que o problema jornalístico toma maior proporção.
Inferir sem argumentar significa mais leviandade que prospecção
crítico-analítica. Nesse caso, convém não
avançar o sinal da notícia, permanecendo no plano
rasteiro da informação factual.
O
quadro parecia tétrico até a publicação
da matéria do jornalista Kennedy Alencar, na edição
dominical da Folha de S.Paulo ("Lula apóia Dilma
e rejeita nova elevação do superávit",
20/11/05). Mais importante, porém, do que a manchete
era o antetítulo: "Auxiliar do presidente afirma
que ministro da Fazenda não é o dono do governo".
Na verdade, a frase real, no corpo da matéria, era: "O
presidente não vai deixar ninguém ser dono do
governo". Ali, posta em segundo plano, se encontrava a
chave com a qual se abre a porta para o alargamento de visão
a respeito dos fatos da realidade.
O
que seria exemplo de inserção crítica na
contramão do modelo jornalístico dominante? Tomando
como referência o fato já mencionado, a primeira
questão a ser formulada giraria em torno dos interesses
em jogo. O que leva uma ministra tão próxima ao
presidente desferir crítica frontal a outro ministro
justamente na semana na qual fogo cerrado era dirigido ao ministro,
alvo da crítica?
A
simples formulação dessa pergunta impõe
o exercício analítico. Ora, se momento apropriado
houvesse para a crítica nos termos em que ela foi posta,
seguramente não seria aquele. Estratégia diversionista?
Se alguém pensou nessa possibilidade, terá dado
prova cabal de incapacidade de avaliação do quadro.
Com a crítica da ministra Roussef, o ministro Palocci
ficou ainda mais exposto à fragilização
da imagem. Restam, pois, os interesses reais. Para tanto, a
atividade jornalística, muito ocupada com o texto, não
pode prescindir do investimento no contexto. Com isso, afirma-se
que o texto é da ordem da informação; o
contexto é da competência da análise. Desvincular
a informação da análise representa destinar
à informação um caminhar nulo e vazio.
A
estratégia da gangorra
Retroagindo
a passado não muito distante, constata-se, quase com
clareza absoluta, a neutralização, um por um,
de qualquer integrante do governo (ou do partido do governo)
cuja imagem estivesse associada a prestígio. Se formos
aos episódios da história, perceber-se-á
primeiramente a paulatina marginalização dos intelectuais
e/ou ideólogos do Partido dos Trabalhadores. Afora os
que saíram, os raros que permaneceram foram subtraídos
pela invisibilidade e pela anomia.
Igual
procedimento, passo a passo, se foi consolidando na esfera governamental.
Se a memória não falha, a seqüência
foi essa: Carlos Lessa, Frei Betto, Cristovam Buarque, Tarso
Genro e José Dirceu. Inclua-se na lista também
a figura da própria ministra Dilma Roussef. É
preciso lembrar que, à frente do ministério das
Minas e Energia, Roussef, reconhecidamente, gozava de alto prestígio
pela competência com que conduzia os projetos. Seu deslocamento
para a Casa Civil só concorreu para enfrentamentos desgastantes.
A
única figura do governo, além da imagem "olímpica"
do presidente da República, que sobrevivia com cacife
alto era o ministro da Fazenda. Chegou a sua vez. Nesse contexto,
é que se compreende a frase proferida pelo assessor do
presidente, reproduzida na matéria de Kennedy Alencar.
Como
processo de dissimulação, que procedimento teve
o presidente da República? Nos primeiros dias, fez passar
discreto apoio à crítica da ministra; em seguida,
dada a rentável atuação do ministro na
sabatina do Senado, o presidente deu depoimento de reforço
à permanência do ministro da Fazenda. Quando indagado
a favor de qual dos dois litigantes o presidente estava, respondeu
assim: "Estou a favor do povo brasileiro".
Como
ninguém sabe de que lado está o povo brasileiro,
fica por isso mesmo. E, assim, entre discursos desencontrados,
aplicando tosca "estratégia da gangorra", o
presidente segue sua trilha, livrando-se de quem lhe pode fazer
sombra.
O
que a pontuação anterior quis insinuar? Para além
das fronteiras dos fatos, um aspecto comum liga todos os desafortunados:
inteligência, eficiência e prestígio. Em
síntese, todos que poderiam lançar alguma sombra
sobre a figura do presidente, curiosamente, conheceram a experiência
da "queda". A falta de respaldo do presidente ao ministro
só pode ser compreendida – descartada a hipótese
pouco provável da insensatez – pelo viés
da estratégia da diluição. Falta, contudo,
ainda melhor enquadramento ao roteiro analítico.
Suporte
de campanha
Aproxima-se
o ano eleitoral. A bandeira a ser desfraldada pelas hostes governamentais
só encontra apoio no setor do gerenciamento da economia,
e, ainda assim, descontadas as deformações. Ora,
lançar-se a um projeto de reeleição, dispondo
apenas do trunfo do mito do crescimento econômico, da
estabilização da inflação e da moeda,
significa deslocar para o centro das atenções
os nomes à frente do ministério da Fazenda (Palocci)
e do Banco Central (Henrique Meireles: lembremo-nos de que este
já teve o período de pressão); ou seja,
nada poderia ser creditado à figura mesma do presidente
da República, a não ser sua vocação
"discursivista" sempre temperada de alucinações
tropicais, entoando cânticos compostos no "oásis"
do Planalto.
No
caso anterior – governo FHC – a bandeira da eficiência
econômica estava inteiramente associada à imagem
do presidente. Afinal, além de sua formação
intelectual, liderara a equipe formuladora do Plano Real. A
credibilidade oriunda do plano assegurou, no primeiro turno,
a vitória nas eleições.
No
caso atual, pelas razões já expostas, a situação
é exatamente oposta. Para a campanha, algo terá
de surgir que esteja diretamente integrado à imagem do
presidente. Recursos até agora engessados terão
de ser liberados. A lógica que rege o ministro da Fazenda
não segue a cartilha das aspirações presidenciais.
Daí, decorre o impasse e, dele, advém a fritura
com suficiente efeito para deslustrar, sem exterminar.
Se
a "estratégia da gangorra" vai ter sustentação
como suporte de campanha, é a dúvida que fica
em aberto. Seja como for, é assim que tem sido, a exemplo
da capacidade de o presidente, num mesmo discurso, conseguir,
por "lapso", conforme declarou, proclamar-se candidato
à reeleição para, em seguida, desdizer.
Foi apenas modesto exercício de análise.
(*)
Ensaísta, doutor em Teoria Literária pela UFRJ,
professor titular do curso de Comunicação das
Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha – Rio
de Janeiro)
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